13 motivos para a ONU ajudar SP a esclarecer o papel da PM na chacina divulgada pelo WhatsApp
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13 motivos para a ONU ajudar SP a esclarecer o papel da PM na chacina divulgada pelo WhatsApp

Bruno Paes Manso

18 Novembro 2014 | 08h48

periferia

Se falou muito da tal nova Classe C para discutir o aumento no consumo parcelado em infinitas prestações. Mas uma mudança na estrutura de classes brasileira pede mais. Não ser assassinado pela polícia, não ser chamado de bandido depois da morte e não ter os parentes ameaçados são algumas das exigências atuais. De que adianta ter acesso ao consumo numa sociedade que tolera o seu extermínio? São esses os complexos dilemas urbanos com os quais convivemos nos dias de hoje.

Na semana passada (dia 10), a Defensoria Pública fez um apelo à Organização das Nações Unidas para enviar para São Paulo o relator especial para Execuções Extrajudiciais, Sumárias e Arbitrárias, Christof Heyns. O objetivo é pressionar para que a morte de quatro jovens (dois menores de idade) seja investigado de forma decente. De acordo com os PMs, eles agiram em legítima defesa depois que os jovens atiraram. O caso, que foi divulgado em outubro no SP no Divã, poderia ser mais um a cair no esquecimento por falta de provas se não fosse uma peculiaridade que extrapolou todos os padrões de truculência. Os corpos das vítimas foram fotografados na cena do crime e no IML. As imagens foram enviadas no dia seguinte pelo WhatsApp aos seus familiares. A crueldade foi demais até para uma sociedade aparentemente anestesiada. Segue abaixo uma lista dos motivos que justificam o pedido urgente de ajuda externa, a partir dos levantamentos do caso feitos pela Defensoria

1) A morte de Elison, de 16 anos, Jhonas, de 17, Luan, de 18 e Paulo, de 21, ocorreu no dia 6 de setembro. Passados dois meses, apesar da quantidade de indícios que colocam dúvidas sobre o procedimento adotados pelos policiais, os resultados da necropsia ainda não foram apresentados e todos os policiais seguem trabalhando normalmente.

2) Considerando que dois jovens morreram no carro e dois a caminho do hospital, quem mais poderia ter tirado as fotos enviadas aos familiares a não ser as autoridades presentes? Em uma das fotografias tiradas do jovem morto dentro do carro, aparece um policial fardado ao fundo. As fotos começaram a ser repassadas logo no dia seguinte ao episódio

3) Três policiais envolvidos somam 13 casos de mortes em supostos confrontos

4) Ainda não foi tomada nenhuma medida para solicitar informações sobre as vítimas, sobre os celulares dos policiais e sobre as fotos tiradas no local do crime

5) Testemunhas disseram aos familiares que antes da suposta perseguição os quatro jovens foram levados por uma viatura da PM. Essa versão seria facilmente derrubada caso as investigações mostrassem aos defensores as imagens das quatro regiões da Rodovia Raposo Tavares por onde os carros passaram. Isso ainda não ocorreu.

6) A quantidade de tiros no corpo das vítimas não corresponderia ao alegado tiroteio descrito pelos policiais. Luan recebeu 16 tiros. Sendo oito deles no peito. Os ferimentos formaram uma espécie de colar no peito. Os quatro jovens receberam ao todo 30 tiros e não houve nenhum policial ferido

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7) Diversas balas deflagradas foram encontradas perto do carro da polícia e somente duas na traseiro do carro das vítimas. Os para-brisas frontal foi muito atingido. Os corpos estavam na frente do carro. Esses elementos não corresponderiam à descrição da cena feita pelos policiais na delegacia.

8) Familiares de dois jovens reportaram que eles estavam sendo ameaçados por policiais. Assistentes sociais também relataram que depois da chacina jovens do bairro vinham sendo ameaçados

9) Segundo familiares, as fotos das redes sociais de um jovem que disse ter sido pressionado por policiais a repassar as imagens para um grupo popular de WhatsApp do bairro para servir como lição para os demais não enfrentarem a PM

10) Como a suposta perseguição levou o carro a ser alcançado em Cotia, o DHPP (especializada em homicídios) não assumiu o caso. As investigações estão a cargo de uma delegacia da cidade.

11) A grande quantidade de casos envolvendo policiais em mortes de suspeitos permite se questionar a eficiência da Corregedoria e da Polícia Civil na solução desses casos. A própria publicação de fotos em sites como Admiradores da Rota mostra que a sensação de impunidade entre os maus policiais na corporação é grande

12) Rio de Janeiro, Pará e Paraíba são alguns estados em que a conivência com a truculência policial permitiu a formação de milícias que hoje são enorme problema nesses estados

13) A reforma das polícias é uma demanda praticamente consensual hoje no Brasil, mas nada garante que os políticos vejam a proposta com a urgência necessária. Não é possível que os efeitos dessa inoperância continuem e por isso atores externos podem ajudar na contenção dos desvios praticados pelos maus policiais

O blog enviou as perguntas sobre os problemas apontados pela defensoria para a Secretaria Segurança Pública. A SSP informou por meio de nota que o caso envolvendo está sendo investigado pela Polícia Civil, com apoio do DHPP, e por um Inquérito Policial Militar (IPM), além de receber acompanhamento do gabinete do secretário Fernando Grella Vieira. A SSP reafirma que não compactua com desvio de conduta de policial.