Quando a enchente vira arte

Estadão

17 Dezembro 2010 | 14h46

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Já pensou em transformar as cenas do cotidiano caótico de São Paulo em matéria-prima para arte? Esse é o trabalho de Apolo Torres. O artista, de 24 anos, mora em Diadema, no Grande ABC, e usa fotografias encontradas na imprensa ou tiradas por suas próprias lentes como esqueleto para o seu trabalho. Em suas mãos, a desolação de um carro ilhado em meio a um alagamento vira uma bela imagem.

SP das Enchentes: Como surgiu a ideia de se basear em cenas do cotidiano para compor os seus trabalhos?

Torres: Isso vem desde quando eu era criança, sempre gostei de desenhar pessoas comuns, cenas do cotidiano. Naturalmente, isso acabou entrando na temática dos meus trabalhos. O desenho pra mim sempre teve um caráter de registro, não somente para expressar o que eu penso. A arte sempre serviu para registrar o que vejo e o que me marca.

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SP das Enchentes: Como você busca as referências para os trabalhos?

Torres: Minha principal fonte de referência são fotografias, tanto tiradas por mim quanto imagens de revistas e jornais. Nunca saio de casa sem minha máquina fotográfica, e todos os dias recorto do jornal qualquer imagem que chame a minha atenção. No entanto, sempre modifico a imagem original – seja mudando as roupas dos personagens, alterando a perspectiva ou misturando elementos de várias fotos diferentes.

SP das Enchentes: Você também faz grafite. É difícil ser um grafiteiro em São Paulo?

Torres: Depende do ponto de vista. O grafite é uma coisa natural para a maioria dos artistas da minha geração, principalmente os que habitam as metrópoles. É difícil ver algum que nunca se aventurou pelos muros com uma lata de spray nas mãos, e atualmente a população já lida com isso mais abertamente. Ganhar a vida como grafiteiro é outra história, mas acho que o objetivo não deve ser esse. O mais importante é aproveitar o espaço público para se expressar sem amarras.

SP das Enchentes: Por que retratar enchentes?

Torres: A arte possui outras funções além de ser bela. Claro que me preocupo e tenho muito cuidado com a estética, mas no que diz respeito à temática, acredito que a arte tenha obrigação de informar, questionar e expor a realidade. As pessoas refletem mais sobre um assunto quando ele vem acompanhado de uma carga poética. Minha arte é um registro daquilo que está ao meu redor, o que acontece agora, e, infelizmente, essa é a nossa realidade.

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Eduardo Roberto