No rastro da sujeira paulistana

Estadão

13 de setembro de 2010 | 09h26

Durante o turno de oito horas em que trabalha, A.A.S. refaz o mesmo trajeto quatro vezes, recolhendo o lixo que encontra nas calçadas e canteiros dos arredores da Praça da Sé, no Centro de São Paulo.

Com receio de ser identificado e possivelmente repreendido pelos seus superiores, ele conversou com o repórter sob a condição de não ter seu nome publicado. Há dois anos e meio, por indicação do irmão (também na mesma profissão), A. começou o trabalho de gari nas vias públicas da capital paulista.

“Como é que chama mesmo?”, pergunta o varredor, que tenta explicar o dia em que se deparou com uma placenta ensanguentada em um saco plástico – de acordo com ele, àquela altura, a polícia já tinha encontrado a mulher que teve o filho na rua. Apesar da surpresa, a maior parte do lixo de todo dia é restrito a garrafas e sacolas plásticas.

A. divide os moradores de rua da região em dois grupos. Os primeiros, cuidadosos, abrem as sacolas, recuperam o que precisam e fecham os sacos sem deixar rastros, o que facilita muito o trabalho dos varredores. Já outros, “vão logo rasgando tudo e espalhando lixo pelos cantos”.

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Cada grupo de garis varre uma parte da rua e deixa as sacolas fechadas em pontos determinados para que um caminhão leve o lixo embora. No início da Rua Riachuelo, sacos plásticos amarelos se amontoavam ao pé de um poste. “Precisa de mais caminhão”, questiona A. sobre o material deixado ali horas antes e que permanecia exatamente no mesmo lugar.

Em dias quentes, a sujeira aumenta. “Deve ser porque o pessoal sai mais de casa”, supõe o varredor. Ele comenta que algumas pessoas não passam muito perto deles, “acham sujo”, explica.

“Se chover, pode ter certeza que vai alagar tudo de novo”. Por quê? “É muito lixo, né?”.

Sindicato

Para o presidente do SIEMACO*, José Moacyr Pereira, a chance de a cidade sofrer novamente com as enchentes no próximo verão é muito grande. “A quantidade de lixo jogado na rua pela população é muita. Infelizmente, é um problema cultural”, considera.

De acordo com ele, a limpeza feita pelos garis e pela Prefeitura nas bocas de lobo são insuficientes, já que nos ramais – por onde a água é escoada – o lixo muitas vezes fica acumulado.

Embora não saiba exatamente o número de garis que atuam hoje em São Paulo, Moacyr acredita que a quantidade de varredores parece ser suficiente. No entanto, para ele, além do excesso de lixo, outro ponto precisaria de mais atenção: “Não temos tecnologia. É tudo manualmente.”

* O Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Prestação de Serviços de Asseio e Conservação e Limpeza Urbana de São Paulo foi fundado em 1959 e representa, entre outras profissões, os garis e varredores de ruas da cidade de São Paulo. Para saber mais, acesse o site.

Gabriel Vituri

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