Na Praça 14 Bis, piscinões seguem sem data

Estadão

24 Setembro 2010 | 13h55

As ruas praticamente limpas e o tempo seco contrastam com o caos de verões passados. Na Praça 14 Bis, localizada na Bela Vista, região central de São Paulo, os alagamentos fazem parte da rotina. Segundo moradores e comerciantes da região, qualquer chuva mais forte é suficiente para causar transtornos para quem passa pelo local. Circundada por ruas íngremes e longas, em dias de temporal a praça acumula lixo e sujeira, que descem com a força das águas. Para diminuir o impacto das inundações, a construção de dois piscinões na região é promessa antiga da Prefeitura, um na 14 Bis e outro no Terminal Bandeira. As obras, porém, ainda estão no papel.

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“Precisamos impedir que tudo se concentre aqui embaixo”, diz síndico

No início do ano, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) anunciou que a construção – engavetada pelo então prefeito de São Paulo, José Serra (PSDB), em 2005 – começaria em maio. Procurada pela reportagem, a comunicação da Prefeitura informou que a obra ainda não tem previsão para começar. Segundo a Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras (Siurb), os piscinões “encontram-se em fase de estudo” e os impactos do projeto no meio ambiente e no trânsito estão sendo analisados.

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O histórico de inundações na praça não é recente. Vinte e um anos atrás, Jamir Roberto Boletta abria uma lavanderia. “Acontece desde que estou por aqui, mas é coisa rápida”, diz. “O problema sério é na Manoel Dutra.” A via em questão é uma rua elevada, que demonstra potencial para enchentes. Logo em seu início, a entrada de um salão de cabeleireiro chama a atenção pelas portas de ferro de não mais que um metro de altura – por enquanto, abertas. O investimento é resultado do prejuízo que o cabeleireiro Augusto Soares teve em novembro de 2008. “A gente alugou o lugar e não sabia do problema”, lembra. As comportas melhoraram o quadro, mas, mesmo assim, “hoje nenhum móvel fica em contato direto com o chão.”

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Em 2008, comerciante viu a rua encher rapidamente, surpreendendo a todos

Na mesma calçada, a poucos passos do salão, o Edifício Suzana esconde em uma das garagens uma porta de ferro parecida com a instalada por Augusto. “Lembro como se fosse hoje. No fim de janeiro, durante a madrugada, o porteiro interfonou e disse pra todo mundo tirar os carros do prédio”, conta o síndico Antonio Gleyton. No subsolo, a água era suficiente para cobrir os veículos e demorou cerca de sete horas para ser totalmente bombeada para a Avenida 9 de julho através de uma galeria.

A pequena “obra” para barrar os alagamentos custou cerca de R$ 2 mil e, segundo Gleyton, será instalada também na portaria e na outra garagem. Tudo para evitar os transtornos das chuvas do próximo verão. “O pessoal vai amontoando o lixo, aí desce e não tem boca de lobo que aguente”, reclama.

A Sabesp reconhece que a região apresenta um problema de falta de capacidade das galerias quando há chuvas fortes, mas afirma que as tubulações são de responsabilidade da Prefeitura. Segundo a Siurb, o local passa por uma modernização e 60% das obras previstas foram realizadas. A Secretaria, porém, não soube informar o que já foi concluído.

Contra a corrente. “É falta de civilidade”, diz o advogado Oswaldo Marcatto, síndico dos edifícios Coraci e Jacira, os mais altos da Praça. Ele reclama do lixo que desce de outras regiões (Paulista, Frei Caneca e arredores) e não considera a falta de infraestrutura o maior problema da região.

Veementemente contra a construção do piscinão na 14 Bis, Marcatto duvida que o projeto vá avançar. “Seria a morte para a Praça. Junta ratos, baratas, entulho. É uma questão cultural”, acrescenta. Para ele, a solução está na modernização das galerias subterrâneas.

O síndico Oswaldo Marcatto observa ainda as dificuldades para realizar uma obra no local. “Como nós vamos arranjar espaço na 9 de Julho?”, questiona. Além da fiscalização ambiental, ele sugere que as águas que descem em corredeiras para a Praça 14 Bis sejam desviadas, impedindo-as de ganhar força e trazer grandes quantidades de lixo. “Precisamos impedir que tudo se concentre aqui embaixo”, conclui.

Gabriel Vituri