Menino sumido ajudou irmão

Estadão

27 de novembro de 2010 | 11h19

Um dos garotos levados por córrego tentou tirar o irmão menor da água; eles estão desaparecidos

Bruno Ribeiro e Marcela Spinosa

O estudante Igor da Silva, de 10 anos, aprendeu com a família que o irmão mais velho deve proteger o mais novo. E foi assim que ele agiu anteontem pulando no Córrego Zavuvus, em Americanópolis, na zona sul. O garoto queria salvar seu irmão Hebert, de 9, que escorregou e caiu na água durante o temporal. Levados pela correnteza, os dois estão desaparecidos. As buscas entram hoje no terceiro dia e serão retomadas às 8h. Em menos de um mês, este é o segundo acidente ocorrido nesse córrego. Em 26 de outubro, um casal morreu afogado (leia ao lado).

O transbordamento do córrego é recorrente na área, mas as soluções devem demorar. A Subprefeitura de Cidade Ademar tem um projeto de drenagem e contenção do córrego, mas que só deve ficar pronto em maio de 2011. Desde a morte do casal, 350 casas foram interditadas e 50 famílias foram removidas.

Para o major Wagner Bertolini, do Corpo de Bombeiros, dificilmente os meninos serão encontrados com vida. “Eles podem estar presos em algum ponto nas galerias (de água) ou já podem estar no Rio Pinheiros”, disse ele, que coordenou ontem a equipe de 28 bombeiros que participou das buscas. “Mas não vamos desistir enquanto não os encontrarmos.”

Já a família tem esperança de encontrá-los com vida. “Se não estiverem vivos, que encontrem os corpos para que possamos enterrá-los”, disse José Damazio de Souza, de 56, avô das crianças.

Os irmãos caíram na água por volta das 18h20 de anteontem. Eles voltavam da Escola Estadual Ministro Salgado Filho e seguiam pela Rua Desembargador Olavo Ferreira Prado. Os garotos moram no número 23 da via com a mãe, a auxiliar de limpeza Simone Camilo da Silva, de 29, e a irmã mais nova, Rafaela, de 3. Antes de ir para casa, passariam no avô. Ele vive em uma viela que corta a via e é ladeada pelo córrego onde mil famílias moram de forma precária.

Chovia e os irmãos caminhavam com uma colega. “Ela pediu para eles não entrarem, mas eles não ouviram”, disse Souza. A colega, então, deixou os meninos seguirem seu rumo. “Eles vinham sorrindo, brincando”, contou a operadora de caixa Sueli Dias Barbosa, de 22, que viu da janela de sua casa os dois caminhando.

Com a chuva, o córrego quase transbordava no trecho em que Hebert escorregou e caiu na água. Igor, então, saiu correndo pela viela gritando por socorro enquanto acompanhava seu irmão levado pela água. Na tentativa frustrada de resgatar o garoto, Sueli e uma vizinha pegaram uma mangueira cada uma e as jogaram na água. Outro colega delas também tentou ajudar. Ele tirou sua jaqueta e foi ao encontro dos irmãos.

Nesse instante, Igor se jogou na água. “Ele estava desesperado”, disse Sueli.
Simone, mãe das crianças, estava em casa quando vizinhos lhe contaram o que havia acontecido. Ela não quis falar com a reportagem. Sueli Nogueira, de 40, avó paterna, disse que ela está muito abalada. “Ela não dormiu nada. Só queremos encontrá-los.”

O Corpo de Bombeiros foi chamado e as buscas começaram na noite de anteontem. Os bombeiros percorreram dois quilômetros do córrego e pararam algumas vezes.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: