Belenzinho: quatro décadas de enchentes, sem data de solução

Estadão

17 de setembro de 2010 | 16h54

No Largo Ubirajara, entre a Radial Leste e o Viaduto Guadalajara, no Belenzinho, zona leste de São Paulo, os alagamentos – presentes há pelo menos quatro décadas – já foram incorporados ao cotidiano do comércio. “Trabalho aqui com a cara e com a coragem”, diz Telma Clemente, de 50 anos, proprietária de uma confecção que nos últimos verões foi tomada pelas águas. “Já cheguei a perder todos os meus moldes, tive um prejuízo de mais de R$ 2 mil”, afirma.

No dia da visita da reportagem à região, o lixo era abundante. No baixo do viaduto, em plena Radial Leste, inúmeros sacos se amontoavam em meio a mendigos. Diante do cenário, é fácil concordar com os moradores – os alagamentos parecem inevitáveis.

Para evitar novas perdas, à exemplo de seus vizinhos Telma começou a agir por conta própria. O corte e a costura, por exemplo, não são mais feitos na loja. “Foi tudo para a minha casa”, explica. A mesa de trabalho foi montada nos fundos. E não faltou improvisação. “Construímos blocos de concreto para colocar embaixo dos manequins na vitrine. Antes eles ficavam no chão e estragavam.”

A comerciante diz que já desistiu de esperar por uma solução do poder público. “Chegamos a filmar a rua parecendo um rio e mandamos (para a Subprefeitura), mas não mudou nada. Eles têm limpado os bueiros, mas sempre enchem de novo”, afirma. “Prefiro não brigar mais. Aqui na minha loja eles nunca vieram, você foi o primeiro a perguntar o que acontece.”

Do outro lado do largo, a história se repete. Carlos Roberto, de 46 anos, possui uma autoescola no local desde 2002. Junto com a mulher, arrumou suas soluções contra as enchentes: o carpete deu lugar ao piso, a madeira ao aço e a base do portão foi reforçada com metal. “Teve ano em que nem isso tudo ajudou”, lamenta.

Assim como Telma, ele acredita que o pesadelo vai se repetir no próximo verão. “Veio fiscal da Prefeitura aqui, mas não espero mais que resolvam”. O vizinho concorda: “Esse largo enche há 40 anos. A gente que se vire.”

Revoltados, moradores filmaram inundações e publicaram no ‘YouTube’

Procurado pela reportagem na segunda-feira, 13, para informar se há obras antienchentes para o bairro – em especial para o largo -, o departamento de comunicação da Subprefeitura da Mooca não enviou resposta. Afirmou na quarta-feira que a questão deve ser tratada com a Secretaria Municipal de Coordenação das Subprefeituras – que, por sua vez, encaminhou na quinta a solicitação à Secretaria de Infraestrutura Urbana e Obras (Siurb).

Dizendo-se impossibilitada de responder, a assessoria da Siurb repassou a questão para a comunicação da Prefeitura. Procurada três vezes até a publicação deste post, não houve resposta.

Gabriel Pinheiro

Tudo o que sabemos sobre:

Nas ruas