Prefeitura removerá ciclovias que, segundo CET,  reduziram acidentes e mortes

Prefeitura removerá ciclovias que, segundo CET, reduziram acidentes e mortes

Pistas para bikes na Vila Prudente serão apagadas no segundo semestre

Alex Gomes

10 Agosto 2018 | 11h21

Em seu livro ‘Streetfight’, de 2016, a ex-secretária de transportes de Nova York Janette Sadik-Khan, conhecida por transformar centenas de quilômetros do caótico viário da cidade em ciclovias, afirma que ruas que recebem as faixas para bicicletas tornam-se mais seguras não apenas para os ciclistas mas também para motoristas e pedestres. As evidências, segundo ela, aparecem de modo claro em dados sobre segurança no trânsito que comparam o antes e o depois da implantação das ciclovias

O texto se comprova dois anos depois nos recentes estudos elaborados pela CET sobre as ciclovias da capital, obtidos pelo blog São Paulo na bike. Um deles, sobre as ciclovias da Vila Prudente, mostra que o número de acidentes envolvendo carros, motos, ônibus e outros modais caiu em até 32% ao ano depois que os tapetes vermelhos foram pintados na região.

Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Porém, algumas dessas ciclovias serão removidas pela prefeitura no segundo semestre de 2018, conforme anúncio publicado no lançamento do novo plano cicloviário da cidade.

O documento sobre as ciclovias da Vila Prudente afirma que as vias computavam uma média de 2,8 acidentes por ano. Após a implantação das ciclovias em 2015, a média caiu para 0,9. A coleta de dados envolveu pesquisa de Boletins de Ocorrência (BOs) elaborados pela Polícia Civil que compõem o banco informatizado Infocrim (Informações Criminais) entre 2009 e julho de 2017.

Outros dados positivos surgiram na análise. O número de acidentes com vítimas era de 14 pessoas por ano, em média. Depois da instalação das ciclovias, caiu para 2 ao ano. Já a média de atropelamentos, de 0,6 por ano, foi reduzida a zero com a chegada das vias para bikes.

Os trechos estudados compõem um conjunto de cerca de 2 quilômetros de ciclovias denominado pela CET de “Ciclofaixa da V. Prudente – Trecho 3”. Tratam-se das ruas Mario Augusto do Carmo, Pinheiro Guimarães, Prof. Gustavo Pires de Andrade, da Praça Lourenço Barendse e um pequeno trecho da Av. Francisco Falconi.

Quanto a relação entre as ciclovias e a redução de acidentes, o relatório da CET é claro: “Pode-se observar que em quase a totalidade das estruturas cicloviárias analisadas, houve decréscimo no número total de acidentes, sendo significativa a redução da média anual de acidentes de todos os modais que circulam nas vias. Tal fato deve-se possivelmente à alteração de desenho viário, proporcionado pela infraestrutura cicloviária, assim como pela redução de velocidade nas referidas vias.”

As conclusões do documento, entretanto, irão permanecer no papel. Em comunicado, a gestão Bruno Covas afirma que irá remover os tapetes vermelhos da Vila Prudente e oferecer como alternativa a quem precisa pedalar na região da ciclovia da Av. Prof. Luís Ignácio de Anhaia Melo.

Para o especialista em mobilidade urbana e editor do portal Vá de Bike, Willian Cruz, a justificativa não convence: “As ciclofaixas da região servem justamente para proteger o ciclista que se desloca até a ciclovia principal na avenida Anhaia Melo. Uma estrutura complementa a outra, não são alternativas. É como sugerir o fechamento da Avenida Ibirapuera porque já existe a Bandeirantes, não faz o menor sentido.”

Cruz ainda aponta a incoerência e falta de planejamento na decisão da prefeitura: “Dizer que as ciclovias serão substituídas por outra que já existe é uma maneira de transformar uma remoção em suposta readequação, sugerindo haver uma contrapartida, quando na verdade não há nenhuma. É a eliminação de estruturas que protegem os ciclistas e outros usuários da via sem nenhum estudo, debate, justificativa ou audiência pública.”

O corretor de seguros Leandro Camino, morador da região e que usa a bicicleta como meio de transporte, expressa a indignação de quem pedala na região: “a ciclovia da rua Pinheiro Guimarães é um trajeto natural para os ciclistas chegarem até a avenida Prof. Luís Ignácio de Anhaia Melo. Sempre tem gente pedalando ali. Tinham de estender a ciclovia, não retirá-la.”

Além disso, completa, a estrutura serve de apoio até para quem trafega à pé. “Na rua Prof. Gustavo Pires de Andrade, por exemplo, a ciclovia ajuda os idosos e pessoas com carrinhos de crianças, pois as calçadas são péssimas, com degraus e rampas altas”

As remoções de diversas ciclovias na cidade como as da Vila Prudente estão incluídas no novo projeto cicloviário da cidade de São Paulo. De acordo com a prefeitura, o plano contou com sugestões técnicas da Bloomberg Philanthropies, organização não governamental americana que atua na promoção da mobilidade urbana sustentável e que tem como uma de suas principais especialistas Janette Sadik-Khan. Resta saber se as dicas que a ex-secretária de transportes de Nova York aponta em seu livro irão ser levadas em consideração pela gestão municipal paulistana.

 

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