Por que a ciclovia da Paulista foi uma das obras mais importantes de SP – a história

Por que a ciclovia da Paulista foi uma das obras mais importantes de SP – a história

O Blog São Paulo na Bike lança o primeiro de 5 artigos sobre a ciclovia da Paulista. A série será publicada semanalmente até o dia 23 de agosto, data na qual o projeto foi concluído há quatro anos.

Alex Gomes

12 de julho de 2019 | 11h18

Quando a notícia foi divulgada, até o mais entusiasta dos ciclistas custou a acreditar que, finalmente, a demanda histórica havia sido conquistada. “Uma ciclovia na Paulista? Tem certeza?”

Exatamente. O tapete vermelho seria implantado por toda a extensão da avenida símbolo da cidade. Do anúncio, feito em setembro de 2014, até a inauguração de sua primeira etapa, em 28 de junho de 2015, foram nove meses nos quais cada fase da obra foi acompanhada tanto por empolgados ciclistas que levavam café para os operários como por ferrenhos opositores que vasculhavam a via em busca de motivos para desfazer o projeto. 

Porém, além do período das obras, um longo processo que envolveu embates e parcerias entre o poder público e a sociedade civil aconteceu até que as primeiras bicicletas pudessem circular pela ciclovia que marcaria a história da cidade.

A Paulista e as bicicletas

Pedalar em segurança pela Paulista era um sonho motivado por uma triste realidade: a avenida era uma das mais perigosas para os ciclistas na capital. Segundo dados da CET, 39 ciclistas foram acidentados na via entre 2005 e 2014, sendo que três foram mortos após terem sido atropelados por ônibus. Mesmo com esse histórico de tragédias, parecia utópico, quase proibido mesmo, pensar que seria possível implementar uma pista para bicicletas naquele espaço icônico de São Paulo.

Sempre que se falava em ciclovia na região – e a discussão com o poder público já tinha mais de uma década – cogitava-se as ruas paralelas, íngremes e com menos faixas de rolamento. Tal impasse refletia o histórico de políticas públicas da cidade, em que a bicicleta era sempre tratada como instrumento de lazer. Tanto que as iniciativas de promoção do modal, como ciclovias, eram desenvolvidas pela Secretaria do Verde e do Meio Ambiente em parques.

Em meio a esse cenário, em 2002 a Paulista serve de berço a uma importante iniciativa para pressionar as autoridades: a Bicicletada, versão nacional do movimento Critical Mass que nasceu em São Francisco e se espalhou por várias cidades do mundo. Desde então, em todas as últimas sextas-feiras do mês, ciclistas se reúnem no cruzamento da Paulista com a rua da Consolação e percorrem a cidade para reivindicar mais segurança e respeito.

Uma das ações mais emblemáticas do movimento foi um piquenique realizado na inauguração da Ponte Estaiada Otávio Frias de Oliveira, em 2008, obra criticada por urbanistas por ser exclusivamente dedicada ao uso de automóvel, na contramão de tendências atuais de projetos de mobilidade urbana que englobam pedestres, ciclistas e o transporte público.

 

Ciclista ergue sua bicicleta no evento de inauguração da Ponte Estaiada

 

Ao finalmente decidir pela implantação na própria Paulista, a gestão municipal acatou uma demanda praticamente unânime entre os ciclistas. Afinal, a avenida reúne as características ideais para quem pedala: é plana, tem conexão com outros modais e muita circulação de bicicletas. Para se ter uma ideia, em 2010 a ONG Ciclocidade registrou 733 ciclistas na avenida em um espaço de 16 horas. É um número significativo considerando que os ciclistas circulavam entre os carros numa época em que  o limite de velocidade da via era de de 70 km/h.

Talvez nem fossem necessários tantos debates para perceber que a Paulista tinha tudo a ver com bikes: bastava conferir os livros de história. Logo após ser aberta, em 1891, a via teve seu fluxo organizado em três partes: um lado para cavalos, outro para bondes de tração animal e a área central para carroças, carruagens e bicicletas. E para não deixar dúvidas, dentre os vários personagens imortalizados na pintura que retrata a inauguração da avenida, feita pelo artista francês Jules Martin, temos logo no primeiro plano, no canto esquerdo, um singelo ciclista.

 

Quadro “Avenida Paulista no dia da Inauguração, 8 de Dezembro de 1891” de Jules Martin, Acervo do Museu Paulista da USP.

 

Pedaladas interrompidas 

Enquanto as iniciativas que protegeriam quem pedalava na Paulista seguiam no fundo de gavetas da prefeitura, o trânsito da avenida fez sua primeira vítima fatal entre os ciclistas: a terapeuta Marcia Regina de Andrade Prado.

A tragédia daquela manhã chuvosa de 2009 foi um grito de urgência que não foi ecoado como deveria. Enquanto ciclistas choravam ao ver a amiga tombar sob oito toneladas do ônibus que desrespeitou o Código de Trânsito Brasileiro, que prevê distância de 1,5 metro ao ultrapassar um ciclista, muitos analistas tratavam o fato como acidente e definiam de modo taxativo: “pedalar é perigoso demais e a Paulista não é lugar de bicicletas”. 

O tipo de repercussão da morte de Márcia, praticamente responsabilizando-a pelo que aconteceu, refletia uma abordagem comum sobre mortes no trânsito. Em muitas reportagens via-se uma preocupação maior em mostrar os transtornos ocasionados por um atropelamento do que explicar a gravidade das infrações que ceifavam vidas.

 

Marcia Prado. Foto: Daniel Haase

 

No dia seguinte, sob uma chuva torrencial, familiares e amigos empurraram suas bikes desde a Praça do Ciclista até o local do atropelamento, onde depositaram flores e velas. Um dia depois, foi instalada a “ghost bike”, homenagem que segue na via até hoje no local da tragédia, em frente ao shopping Cidade de S.Paulo, e faz com que a memória de Márcia e a imprudência daquele motorista não sejam esquecidos. 

Três anos depois, a história se repetia. Em março de 2012, a bióloga Juliana Dias, 32 anos, morreu na hora após ser jogada para baixo de um ônibus pelo motorista de outro coletivo, que fugiu do local. Mais uma vez, em uma triste coincidência, o protesto dos ciclistas é feito sob a chuva torrencial de um céu que parecia lamentar a repetição de uma tragédia anunciada. A Paulista recebe mais uma ghost bike, que segue instalada próxima a esquina com a Alameda Pamplona.

E nada mudava.

 

Juliane Dias. Foto: Gilberto Kyono

 

Em 2013, uma nova ocorrência quase terminou em tragédia: o ciclista David Santos Souza é atropelado por um motorista alcoolizado e tem o braço arrancado. Detalhes macabros do fato, como a fuga do motorista com o braço decepado no interior do veículo e o descarte do membro em um córrego, chocaram os paulistanos e motivaram um protesto em frente ao prédio em que vivia o recém-eleito prefeito Fernando Haddad.  

Semanas depois aconteceria a primeira reunião de um prefeito de São Paulo com ciclistas. Nela foram discutidas ações como uma campanha publicitária de conscientização no trânsito e apresentada, mais uma vez, a urgente necessidade de uma ciclovia na Paulista. Poucos meses depois, teria início o programa de instalação dos 400 km de ciclovia na cidade e no ano seguinte, em setembro de 2014, a ciclovia da Paulista seria anunciada. 

O momento marcava uma nova etapa de negociações entre ciclistas e o poder público, com reuniões frequentes entre ambos  nos gabinetes da prefeitura. Gestores e técnicos da CET, que por décadas se especializaram em organizar as vias sob o imperativo da fluidez do automóvel, tiveram que rever seus paradigmas ao serem colocados frente a frente com quem usava a bicicleta como meio de transporte, além de subirem em bikes e irem para as ruas sentir na pele o que os ciclistas passavam.

Entretanto, a empolgação com esse novo processo logo seria impactada por um duro lembrete de que a realidade do trânsito da Paulista continuava a mesma: em outubro de 2014, o entregador Marlon Moreira de Castro é atingido por um ônibus no cruzamento da Paulista com a Av. Brigadeiro Luís Antônio. Resgatado em estado grave, não resiste aos ferimentos.

 

Marlon Moreira de Castro

 

Era um basta. A história da Paulista com os ciclistas precisava ser transformada de uma vez por todas. 

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No próximo post: o projeto da ciclovia e os debates na sociedade

 

 

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