Os equívocos de Doria sobre as ciclovias de SP

Declarações do futuro prefeito denotam falta de sintonia com as tendências internacionais de mobilidade urbana

Alex Gomes

17 de outubro de 2016 | 08h00

Apesar de ter anunciado em seu programa de governo a adequação, melhoria e expansão da rede cicloviária de São Paulo (pg 34), o prefeito eleito João Doria tem dado diversas declarações à imprensa que vão em sentido contrário. Segue uma análise desses anúncios e por que são preocupantes:

‘Só não serão mantidas [as ciclovias] onde elas não funcionam, quer dizer, onde tem ciclovia sem ciclista não há razão de manter, é um equívoco.’ (Rádio Band News)

Doria não expõs quais critérios utiliza para alegar que uma ciclovia não é utilizada. Deve-se ter em mente que é natural algumas terem baixa utilização em determinados horários, sendo mais utilizadas nos momentos em que os ciclistas vão e voltam do trabalho. É a mesma lógica de algumas ruas e calçadas da cidade, que chegam a passar horas vazias e nem por isso o futuro prefeito cogita destruí-las. Além disso, é normal que muitas ciclovias ganhem movimento com o tempo, pois induzem demandas. Se forem apagadas, muitas pessoas que um dia poderiam utilizá-las não terão mais essa oportunidade.

‘As [ciclovias] que são prejudiciais ao comércio de rua deixarão de existir.’ (Folha de S.Paulo)

O futuro prefeito também não dá provas de que as ciclovias estariam afetando negativamente o comércio. Na verdade, há evidências do oposto: ciclistas têm se tornado novos consumidores em regiões com ciclovias, motivando lojistas a instalarem paraciclos para melhor atendê-los (confira alguns exemplos aqui). Além disso, de olho no potencial lucrativo do aumento da circulação de ciclistas na capital, entidades como a Fecomercio e o Sebrae elaboraram estratégias para ajudar comerciantes e empresários a atrairem o consumidor ciclista.

Sobre a questão do abastecimento, convenhamos: uma ciclovia ou outra estrutura como um parklet ou faixa de pedestres na porta do estabelecimento não impede a carga e a descarga de mercadorias. Shoppings Centers e lojas localizadas em calçadões são exemplos de que um ponto de carga e descarga não precisa necessariamente estar na porta da loja, mas em um local específico destinado a esse uso.

‘Houve aí também uma volúpia, um excesso de quilometragem para cumprir meta da Prefeitura de São Paulo.’ (Rádio Band News)

Trata-se do maior equívoco do novo prefeito. Primeiro, basta considerar que a rede de 400 km de ciclovias implantada corresponde a apenas 2% da malha viária de 17 mil quilômetros da cidade, predominantemente estruturada aos transportes motorizados. Ou seja: nossa estrutura cicloviária ainda corresponde a uma migalha do espaço urbano. Basta conversar com qualquer ciclista para saber que ainda existem inúmeras vias ou mesmo regiões inteiras da cidade que precisam de intervenções para oferecer condições seguras para pedalar.

Entretanto, mesmo sendo pequena (longe de ser assim uma volúpia) e tendo vários problemas, não podemos deixar de mencionar a importância da rede cicloviária implantada: desde 2014, quando começou a ser implantada, a quantidade de mortes de ciclistas na cidade vem caindo (entre 2014 e 2015 a redução foi de quase 30%). Por isso, não é improvável imaginar que o caminho inverso seja possível: termos um aumento na quantidade de mortes de ciclistas se algumas ciclovias forem desfeitas.

‘Já as ciclovias que foram assimiladas pela população vão continuar e serão mantidas pela iniciativa privada porque a Prefeitura faz mal hoje essa conservação.’ (Zero Hora)

É uma proposta arriscada, pois corre-se o risco de não haver interesse dos empresários em realizar tal parceria e o futuro prefeito não explicou o que fará se isso acontecer. Também é preocupante notar que as propostas de privatização feitas por Doria sejam somente relativas a estruturas como ciclovias e corredores de ônibus e não ao restante do viário. Assim, a prefeitura continuará com os pesados gastos para manter pistas, viadutos e túneis, utilizando verba pública em prol do transporte individual motorizado, ao passo em que o estímulo ao uso dos modos sustentáveis, como bicicleta e o transporte público, será dependente do interesse da iniciativa privada, ou seja, uma hipótese.

Críticas à forma de implantação das ciclovias ou escolha de determinadas vias são pertinentes e mesmo necessárias. Porém questionar a importância e a necessidade de ciclovias em uma cidade com o grau de violência no trânsito como São Paulo e não garantir investimentos é um grave erro. Entre especialistas, é consenso que estimular o uso da bicicleta é uma medida fundamental para a melhoria da mobilidade de uma cidade e a requalificação dos espaços públicos. A melhoria e a expansão da rede cicloviária, e não sua interrupção ou redução, são medidas que devem estar na agenda de qualquer político que queira ser lembrado como um bom gestor.

____________________

Siga o blog São Paulo na bike nas redes sociais:

Instagram  –  Facebook

Tendências: