O dia em que a Paulista se tornou mais humana

O dia em que a Paulista se tornou mais humana

No quarto artigo sobre a ciclovia da Paulista, o dia em que o cartão-postal de São Paulo deixou de ser um dos locais mais arriscados para se pedalar na cidade

Alex Gomes

16 de agosto de 2019 | 10h15

O sol nem bem tinha raiado naquele domingo, faltavam ainda horas para a inauguração e muitos ciclistas já se aglomeravam na região. Afinal, 28 de junho de 2015 seria um dia histórico. E simbólico. Após mais de uma década de mobilização e de uma sequência de “nãos” do poder público, o cartão-postal de São Paulo deixaria de ser o local mais arriscado para se tornar um espaço em que o uso da bicicleta seria respeitado e estimulado.

Afinal, se a avenida mais famosa da maior cidade do país tem uma ciclovia em toda sua extensão, isso só pode sinalizar uma nova forma de enxergar a questão da mobilidade urbana. 

 

Ciclista comemora a inauguração da ciclovia. Foto: Ivson Miranda

 

Ciclistas comemoram a inauguração da ciclovia. Foto: Ivson Miranda

 

E isso mereceu, claro, uma comemoração à altura. Os mais de 50 mil convidados vieram de todos os cantos da cidade e até em caravanas de outros Estados. Por toda a avenida, ciclistas crianças e adultos carregavam balões brancos amarrados às bicicletas, o prefeito chegou à inauguração pedalando e, para que ninguém se esquecesse do quanto significava cada centímetro daquela ciclovia, as ghost bikes das duas ciclistas mortas após serem atropeladas por ônibus receberam novas mãos de tinta e foram enfeitadas com flores.

 

Ciclistas enfeitam “Ghost Bike” da ciclista Marcia Prado. Foto: Raquel Schein

 

Para que o brinde fosse mais especial, aquela foi uma festa sem o ruído de motores. Nem carros e nem ônibus circularam pela Paulista. O som só vinha da cantoria dos músicos e dos gritos das crianças sobre seus patins, skates e bicicletinhas. Era o primeiro teste para que a via fosse, em todos os domingos, fechada aos carros e aberta à população.

O segundo teste aconteceu dois meses depois, em 23 de agosto, com a inauguração da pista de bikes da Bernardino de Campos que concluiu o projeto cicloviário da Paulista. E, mais uma vez, os paulistanos transformam em parque – ou praia – a avenida em que circulam nos dias úteis homens e mulheres apressados, embalados pelo ruído de buzinas. Teve espaço para fazer piquenique, dançar, pular corda, assistir a números de circo, papear com os amigos e até tomar o sol de inverno sobre uma canga estendida bem no meio da via.

Ocupar a rua se tornou uma forma de recuperar a dimensão humana da avenida que desde a sua construção com calçadas gigantescas, no final do século XIX, demonstrou sua vocação para agregar pessoas.

 

Inauguração da ciclovia da Paulista. Foto: Heloisa Ballarini

 

O receio de que o trânsito se tornaria caótico não foi confirmado. Desviado para as ruas paralelas e acompanhado pela CET, o tráfego fluiu sem incidentes. Estava dada a largada para que a avenida fosse definitivamente aberta para pedestres aos domingos. Uma das preocupações na ocasião do fechamento eram os hospitais, que, no entanto, não se opuseram.

Mesmo assim, houve resistência. Alguns moradores da região reclamaram da sujeira, do barulho e da dificuldade de chegar e sair de casa, e outro tanto de comerciantes alegaram que o fechamento para os carros fez diminuir o movimento. 

Além disso, o Ministério Público seguia irredutível em fazer valer o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que havia firmado com a Prefeitura em 2007, segundo o qual a Paulista seria fechada apenas três vezes ao ano – o que normalmente acontece no Réveillon, na corrida de São Silvestre e na Parada Gay. 

 

A nova Paulista

Após submeter o projeto a audiências públicas e apoiada por milhares de paulistanos que já haviam sentido o gostinho de ter a Paulista só para eles, a Prefeitura anunciou que, a partir de 18 de outubro, se tornaria oficial. Todos os domingos, os pedestres redefiniriam o cenário da mais paulistana das avenidas. A circulação de carros seria restrita aos moradores e àqueles que precisassem acessar os hospitais a velocidade máxima de 10 km/h.

Grupo faz tricô na av. Paulista. Foto: Ivson Miranda

 

As pesquisas confirmaram a aprovação da iniciativa: em fevereiro, quatro meses após a abertura oficial da via, um levantamento do Datafolha mostrou que 61% dos moradores da região defendiam a abertura da avenida e que 75% da população do entorno já havia ido à Paulista aos domingos pelo menos uma vez. Por outro lado, 66% dos que se opunham à abertura jamais haviam estado na Paulista Aberta.

O levantamento mostrou ainda que, de zero a dez, a decisão de impedir a circulação de carros recebeu nota média 8,2 dos entrevistados, segundo os quais o lazer (52%) é a principal vantagem e o trânsito local (38%), a maior desvantagem.

A visitação aos espaços culturais também cresceu. Muita gente que só conhecia o circuito das artes pelas janelas do carro ou do ônibus decidiu incluir a cultura no passeio com a família. Segundo pesquisa do Datafolha, em 15 domingos após a abertura da via, o movimento na Casa das Rosas havia crescido 69%. No quarteirão seguinte, o Itaú Cultural registrou um aumento de 28%. Ícone da avenida, o Masp computou 21% mais de visitantes.

 

Paulista aberta. Foto: Alex Gomes

 

O domingo de gente na rua também é um alívio para os pulmões. Um estudo realizado pela Faculdade de Medicina da USP e pela ONG Cidade Ativa analisou o material particulado (índice de poluição do ar) comparando uma sexta-feira útil com o domingo. Como imaginado, os níveis de fumaça se mantiveram menores com a Paulista Aberta.

Gráfico do estudo realizado pela Faculdade de Medicina da USP e a ONG Cidade Ativa. As linhas vermelhas indicam as quantidades de poluição de uma sexta-feira e as roxas as de um domingos.

 

Um projeto de apropriação do espaço público que promove mais cultura, menos sedentarismo e menos poluição só podia mesmo ser premiado. E foi. O site Arch Daily, especializado em arquitetura e inovações urbanas, indicou o projeto de abertura da Avenida Paulista como “inspirador” em uma categoria de comprometimento urbano.

De acordo com a equipe editorial do ArchDaily, “mesmo sob pressão de uma sociedade conservadora, a atual gestão conseguiu impulsionar e ganhar reconhecimento da população em algumas de suas principais ações, como inserir uma rede de ciclovias que possibilitam o uso – até então inimaginável – de bicicletas, criar novas faixas exclusivas para ônibus, abrir a Avenida Paulista – ícone da cidade – para que os pedestres possam ocupá-la durante todos os domingos, incentivar a arte e cultura urbana”.

Diante dos fatos, até o tráfego motorizado se adequou. Aos domingos e feriados, o trânsito do entorno tem diminuído na medida em que o paulistano já está ciente da interdição e se programa para chegar à Paulista por outros modais, como o metrô e a bicicleta – esta sim autorizada a circular pelo cartão-postal da cidade 24 horas por dia nos sete dias da semana. Afinal, desde aquele ensolarado domingo de junho, qualquer foto da Paulista tem, bem no meio dela, em destaque, aquele extenso e alegre tapete vermelho. Um convite e tanto.

 

Av. Paulista logo após a festa de inauguração da ciclovia. Foto: Carlos Alkmin – Instagram: @CarlosAlkmin

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No próximo texto: o legado do projeto

 

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