‘Não dá pra andar de bicicleta em São Paulo’

‘Não dá pra andar de bicicleta em São Paulo’

Uma análise de argumentos bastante utilizados (e bastante questionáveis) sobre pedalar na cidade.

Alex Gomes

27 Novembro 2015 | 10h46

“Não dá pra andar de bicicleta em São Paulo”. Quantas vezes você já ouviu essa frase? Muitas vezes a sentença vem do cidadão comum, preocupado com a segurança do filho que circula de bicicleta. Em outras, a análise é de um especialista em mobilidade urbana que, provavelmente, nunca pedalou pela cidade.

Leia abaixo quatro dos principais argumentos contrários ao uso da bicicleta nas vias paulistanas e perceba como são questionáveis:

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1 – A topografia de São Paulo não é adequada à bicicleta
Esse é talvez um dos argumentos mais difundidos. A cidade realmente tem muitas ladeiras, algumas até apelidadas de ‘paredões’ por quem pedala, como a rua Paris, em Perdizes. Porém São Paulo também possui muitas regiões praticamente planas, que podem ser percorridas sem muito esforço, como o entorno do Rio Pinheiros, desde o Brooklin até a Vila Leopoldina ou o eixo das avenidas Domingos de Moraes, Paulista e Dr. Arnaldo. Além disso, há muitas rotas com apenas uma subida. Um ciclista que precise ir da Vila Olímpia para o centro da cidade, por exemplo, só terá de vencer o “espigão da Paulista” e tem a possibilidade de utilizar atalhos pouco íngremes, como a rua França Pinto, na Vila Mariana. Para os casos em que for inevitável encarar um “subidão”, o ciclista pode usar recursos como marchas, “bar ends” (uma extensão do guidão que melhora o rendimento), componentes leves ou uma configuração com pneus estreitos e lisos. Além disso, após um tempo de pedaladas, seu condicionamento físico naturalmente melhora: aquela subida que era uma tortura vira algo facilmente superável (tenho amigos que já encaram a rua Paris sorrindo).

2. O clima quente de São Paulo prejudica o uso da bicicleta, por isso elas são mais comuns na Europa
Outra afirmação facilmente rebatida. Na questão do calor, primeiro temos de pensar que a sensação térmica não é a mesma para todos: há quem transpire ao caminhar alguns passos e outros que não exalam uma gota de suor mesmo após horas na academia. Além disso, para evitar o suor existem alguns truques: ao sair pela manhã, prefira horas em que o sol está mais ameno; leve água e hidrate-se pelo caminho (para evitar que o corpo aqueça e assim você transpire); ao parar em semáforos, momento em que cessa a ventilação natural que acompanha o pedalar, procure áreas com sombra; coloque mochilas e bolsas no bagageiro em vez de levar nas costas. No caso de tempo chuvoso, utilize uma boa capa (há boas opções em bicicletarias e lojas de pesca), além de acessórios como paralamas. Dá para perceber como o clima daqui é muito mais favorável para pedalar do que o Europeu: já pensou pedalar com neve?

3 – Não é seguro andar de bicicleta em São Paulo e por isso deve-se restringir a circulação de ciclistas.
Posso afirmar que sou vítima da violência no trânsito da capital: na infância, fui atropelado por uma moto; um ônibus tentou por três vezes me jogar para fora da Paulista no ano passado e já consolei duas famílias de ciclistas mortos. Por tudo que vi e passei, acredito que a luta da sociedade deve ser mudar o comportamento de quem causa os ‘acidentes’ e não limitar a circulação de quem sofre as conseqüências. Sejamos francos: muitas tragédias não podem ser consideradas acidentes, mas resultado de comportamentos irresponsáveis que devem ser coibidos e punidos. Além disso, vale deixar claro que o motorista que respeita e garante a segurança do ciclista não está fazendo um favor, mas cumprindo a lei. Conforme trecho do artigo 29 do Código Brasileiro de Trânsito: “os veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres.”

4 – A bicicleta não é a solução para a mobilidade urbana

O erro aqui é pensar que um modal sozinho irá resolver o problema do trânsito nas cidades. Especialistas são unânimes em afirmar que se deve investir na oferta do máximo de opções possíveis de deslocamento. Em outras palavras: não existe solução, mas sim soluções, e é aí que a bicicleta se encaixa como ferramenta fundamental. Ela é ideal para pequenos deslocamentos – de até 6 km –  e tem grande potencial para desafogar o trânsito. Pense na região que engloba as avenidas Luís Carlos Berrini e Faria Lima. O espaço é um polo que concentra empregos, comércios e residências e tem congestionamentos que prejudicam direta ou indiretamente outras áreas da capital (exemplo: os ônibus que ficam engarrafados ali não conseguem atender outras partes da cidade). Assim, se uma parte considerável das viagens de automóvel dessa região fosse feita de bicicleta, teríamos uma significativa melhora na fluidez do trânsito que se refletiria por outras partes de São Paulo.

Há vários outros argumentos questionáveis e que também são tidos como verdades absolutas. Antes de se deixar levar por eles, converse com quem pedala pela cidade. Se tem uma coisa que ciclista adora é ajudar os outros a exercer o direito de pedalar.