Ciclista pedala 2 mil km para conhecer a mãe

Ciclista pedala 2 mil km para conhecer a mãe

Alex Gomes

24 Setembro 2018 | 08h36

“Quanto mais me aproximava do destino final, mais meu coração disparava. A todo momento imaginava como seria o encontro com minha mãe”, conta Vanderlei Torroni, de 47 anos. No início deste ano, ele saiu de São Paulo e pedalou até Itabuna, na Bahia, para conhecer dona Maria Carvalho, de 72 anos.

Criado pelo pai, ele não sabia praticamente nada sobre a mãe, o que o fazia apático. “Apesar de saber de sua existência, acho que eu era bloqueado mentalmente em relação a qualquer sentimento, seja de saudade, amor, raiva ou mesmo curiosidade. Como nunca a tinha visto ou sequer conversado, era como se ela não existisse’.

Vanderlei com a mãe.

Foi a mulher de Vanderlei que o convenceu a mudar a situação: “ela me fez pensar no que poderia passar na cabeça de minha mãe. Isso mexeu comigo e me fez refletir sobre o sofrimento que a distância deveria ter sido para ela. A partir daí decidi ir ao seu encontro”.

O meio de transporte seria aquele com o qual circula todos os dias e fez parte dos momentos mais especiais da sua vida: a bicicleta.

Após conseguir o telefone de dona Maria, fez os primeiros contatos por mensagem de texto. “A princípio ela estava muito desconfiada, resistente e temerosa. Não falava o local exato em que morava e não prolongava muito nossas conversas. Era monossilábica’.

Mesmo com poucas informações e a aparente frieza da mãe, Vanderlei decidiu seguir com a ideia da viagem. Montou um itinerário, comprou acessórios como bolsas e mochilas e pegou a estrada. Foram 21 dias de pedalada pelo litoral brasileiro e algumas cidades interioranas, percorridos entre os dias 5 e 26 de janeiro de 2018.

A seguir o relato de alguns momentos:

Primeiro dia de viagem:

Montei na bicicleta e parti às 4h da manhã do meu apartamento no centro de São Paulo. Segui pelas regiões da avenida Celso Garcia, Ponte dos Nordestinos, Parque Ecológico do Tietê e alcancei a rodovia Ayrton Senna. Rumei em direção ao litoral norte, passando por Mogi das cruzes e Bertioga. Foi um dia intenso, em que percorri 170 km. Acampei em Boiçucanga e fiz um churrasco com novos amigos que conheci na região.

Sexto dia:

Segui por todas as praias da orla do Rio de Janeiro. Foram cerca de 50 quilômetros em que vi o grande contraste entre áreas ricas e pobres. Já em Niterói encarei uma serra terrível pela estrada de Itaipaçu para chegar à cidade de Saquarema, a famosa terra do surf. Por recomendações de segurança, evitei a região de São Gonçalo e fui pela Serra de Itaipu. Porém, não imaginava que na rodovia RJ-106 teria outros medos: havia muitos trechos sem acostamento e a direção perigosa dos motoristas foi constante. Um dos trajetos mais perigosos da viagem.

Pelas estradas e cidades, as pessoas demonstravam curiosidade em saber o motivo da minha viagem. Quando dizia, as reações eram diversas: incredulidade, arrepio, lágrimas e até críticas. As reações positivas me deram força para continuar e não desistir perante todas as dificuldades que topava.

Paraty – RJ

Após passar Saquarema, a caminho do mar, avistei inúmeras cruzes nos canteiros locais. Um símbolo que indica mortes em acidentes. Também havia uma grande quantidade de aves, répteis e roedores mortos na pista. Avistei dezenas caídos pelas estradas.

Nono dia:

Rumo a Guarapari, tive o primeiro pneu furado por causa dos arames lançados na pista pelos pneus desgastados dos caminhões. Fiz o conserto e continuei. Ao fim do dia, na região de Macaé, outro pneu furou. Fui obrigado a pernoitar no local, em um posto de combustível. Após um banho, por sinal em um dos piores banheiros que já vi, pendurei minha rede entre duas carretas e montei meu fogareiro. Dormi pouco, preocupado com meus pertences e também por causa dos pernilongos. A rede antimosquitos que usava rasgou e a noite foi uma briga. Pra completar, o ronco dos caminhoneiros não me deixou pegar no sono.

Arraial do Cabo – RJ

Décimo primeiro dia:

Foi o dia mais puxado da viagem. Parti de Campos de Goytacazes e percorri 183 quilômetros rumo a casa de um amigo de infância em Guarapari, que não via há 22 anos. O grande desafio foi o vento contrário, um dos mais fortes que já encarei. Em um ponto da viagem, exausto, um carro escuro emparelhou comigo. O vidro do passageiro abriu e surgiu um braço com uma garrafa de água gelada. Aceitei e agradeci. Aliás, em vários momentos contei com a solidariedade das pessoas, como isenção de pagamento de estadias, caronas e até cortes de barba de graça.

Décimo segundo dia:

Ao fim do dia, ao chegar em Guarapari, um fato inesperado: descubro que meu amigo de infância havia se mudado para Barra do Jucú, em Vila Velha. Tive de seguir por 56 quilômetros já no escuro, algo bem ruim. Cheguei a casa dele por volta de 22h, esgotado.

Fui muito bem acolhido. Meu amigo morava com a mãe, que também gostava de viajar. Ela contou que entre as décadas de 1960 e 1980 percorreu o mundo em um fusca junto com seu marido e teve 5 filhos em países diferentes.

Barra do Jucú – ES

Décimo terceiro dia:

O destino seria a cidade de Linhares. Após passar por Vitória segui pela fatídica BR-101 sob um sol escandante. Entretanto, quanto mais me aproximava do destino final, mais meu coração disparava. A todo momento imaginava como seria o encontro com minha mãe.

Após passar por trechos em obras na rodovia entre as cidades de Serra e Fundão, que foram os mais perigosos e chatos, novamente tive ajuda de um estranho em um veículo, que emparelhou comigo e ofereceu suco de caju.

Último dia de viagem

Acordei, tomei um café e parti, pretendendo chegar a Itabuna às 14 horas. Saí com o coração na boca. Seriam 111 quilômetros de pedalada e estava decidido a dar o meu máximo. E assim foi. Fiz apenas rápidas paradas e segui sem perder tempo.

Camacan – Bahia

Quando já estava a 20 quilômetros de Itabuna, topei com um grupo de 10 ciclistas. Ao saberem da minha história, passaram a me acompanhar e dessa forma chegamos em grupo na cidade. A cada quarteirão percorrido, meu coração disparava. Não conseguia imaginar como seria minha reação ao ver minha mãe, até porque eu não sabia o que era ter uma figura materna.

No bairro Parque Verde, meu destino, subimos ruas sinuosas e enfrentamos ladeiras com asfalto bem ruim. Para piorar, o calor estava acima de 32 graus. Como eu não tinha a referência exata do endereço final, giramos pela região e não conseguimos encontrar. Paramos para obter informações e foi então que avistei ao longe uma senhora de pé ao lado de um poste de energia. Ela estava estática e observava atentamente o grupo.

Era ela. Apesar de nunca ter visto uma foto recente da minha mãe, meu coração conseguiu reconhecê-la naquele momento. Ela lentamente levantou a mão direita e acenou. Corri em sua direção. Disse ‘oi mãe’, a primeira frase que dirigi a ela com minha voz, pois nunca havíamos conversado por telefone. Sua resposta foi uma das coisas mais lindas que já ouvi: ‘o amor não mede esforços e distâncias’. Com o rosto banhado em lágrimas eu a abracei. Foi o momento em que as barreiras, medos e angústias sedimentadas em 47 anos caíram como pedras.

Agradecemos aos ciclistas e o grupo seguiu seu passeio. Entrei na pequena casa de minha mãe e conheci minhas tias. Em meio a alegria do momento, também notei uma grande tristeza em seu rosto. Soube que seu ex-marido havia falecido no mês anterior, dezembro de 2017. Conversamos muito e ela me contou os motivos de não ter estado presente em minha vida. Por ser uma mulher pobre do interior da Bahia, não tinha a simpatia da rica família do meu pai e assim suas tentativas de me contatar eram sumariamente vetadas.

Os dias seguintes foram de festa. Circulamos juntos pela cidade para que eu conhecesse outros parentes e amigos da minha família. Fique em Itabuna por uma semana e guardo na memória com carinho a intensa acolhida que recebi, iluminada com o amor de minha mãe. Após uma semana tive de voltar para São Paulo para resolver compromissos. 

Os 21 dias de viagem e 2.200 quilômetros pedalados, com uma média de 150 quilômetros por dia, resultaram no reestabelecimento da minha história. Desde então, converso bastante com minha mãe, todos os dias.

Meu próximo projeto é conhecer meu irmão caçula, o Vladmir. Ele está com 37 anos e mora em Letzeburg, em Luxemburgo, na Europa. Lá mantém um restaurante de comida brasileira. Quero sair de Roma, atravessar a Suíça e a França e me conectar assim com mais um pedaço da minha história.

E claro, encontrá-lo com a testemunha dos momentos mais especiais da minha vida, minha bicicleta.”

 

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