Saques no meio do caos

Estadão

13 de outubro de 2009 | 20h52

Por Vitor Hugo Brandalise

Em meio ao caos do incêndio na Favela Diogo Pires, no domingo, moradores pensaram em salvar seus pertences. Os objetos, motivo de orgulho de quem pouco tem, eram levados para fora à medida que os braços davam conta – geralmente, a TV ia primeiro, junto com os aparelhos de DVD e de som, às vezes o microondas. Botijões de gás também eram bens prioritários, na hora de escolher o que tirar de perto do fogo. Pequenos e leves, os objetos cabiam na primeira, no máximo na segunda leva a ser salva. Alguns moradores, satisfeitos, paravam por aí e corriam, a fugir das labaredas. Mas, no afã de salvar algo mais, o que acontecia quando alguém voltava para um terceiro esforço e decidia tentar carregar, por exemplo, a geladeira?

“Era aí que roubavam tudo”, revela o motorista Senival Vieira Oliveira, de 39 anos, que perdeu o barraco de dois cômodos no incêndio. Perdeu também a TV, o aparelho de som e o de DVD, mas esses não foram consumidos pelo fogo – seus pertences, empilhados no meio da viela, viraram alvo fácil para saqueadores, quando o motorista voltou à casa para tentar salvar algo mais. “O pior é pensar que era gente como a gente. Com a diferença de que passavam correndo pelas ruazinhas, com um olho no fogo e outro no que pudessem levar.”

Hoje à tarde, na fila do Clube Escola Jaguaré – improvisado albergue para desabrigados pelo incêndio –, várias pessoas relataram terem sido furtadas enquanto tentavam salvar outros pertences. “Estava todo mundo na mesma situação. Incrível que alguém pense em roubar numa hora dessas”, disse o técnico em eletrônica João Batista Firmino, que teve uma TV furtada por saqueadores. “Voltei para pegar a geladeira, ué. Ainda falta pagar quatro parcelas, o fogo estava longe, pensei que não haveria problema”, conta.

“Acho incrível, levaram coisas que nunca imaginei”, disse a diarista Fátima Alegrete, de 37 anos, moradora da favela há dois meses e que teve o botijão de gás roubado na confusão do incêndio. “Mas o pior é que o Oscar estava em cima do botijão. Não acredito que levaram ele também”, disse Fátima – se referindo a Oscar, canarinho de 1 ano e meio, que Fátima se dedicou a salvar do fogo, mas que, de jeito mais mesquinho, acabou levado para longe dela. “Além de outra casa, vou ter que arranjar outro passarinho.”

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