São Paulo tem recorde de alagamentos

Estadão

07 Janeiro 2010 | 20h00

Por Daniel Jelin, do Estadao.com.br

Vale do Anhangabau alagado devido às chuvas no dia 4 de janeiro. FOTO: Paulo Pinto/AE

Os alagamentos em São Paulo cresceram 62% em 2009 e já superam os números de 2004 e 2005, anos anteriores à inauguração das obras de aprofundamento e alargamento da calha do Rio Tietê, conforme os registros do Centro de Gerenciamento de Emergências.

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Segundo levantamento do Estadao.com.br, as ocorrências de alagamento na cidade caíram de 1256 em 2005 para 970 em 2006 (queda de 23%). Voltaram a cair em 2007, mantiveram-se na centena dos 800 em 2008 e agora saltaram para 1422. É o maior número de ocorrências no banco de dados da CGE, que cobre os últimos 7 anos.

Também cresceu o número de dias em que houve algum alagamento em alguma parte da cidade. Foram 77 dias em 2008 (média de 1 ocorrência a cada 4,6 dias) para 111 em 2009 (média de 1 alagamento a cada 3,3 dias). O resultado representa um crescimento de 44% e é mais um recorde da série.

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O ano de 2009 também bateu recordes em número de alagamentos para um mesmo dia. De 2004 a 2008, só por duas vezes os alagamentos haviam atingido a marca de 100, em 4/12/2006 (exatos 100) e em 25/5/2005 (101). Este ano foram 110 ocorrências em 8/9 e 124 no temporal de 8/12, o maior de toda a série.

É a primeira vez também que a cidade sofre com alagamentos em todos os meses do ano, inclusive os mais secos, como junho, julho e agosto. Clique aqui para acompanhar essa evolução.

O salto no número de alagamentos cobre quase todas as regiões, incluindo as que concentraram as ocorrências. Na área da subprefeitura da Sé, o número pulou de 108 para 210 ocorrências (alta de 94%). Em Pinheiros, foi de 74 para 208 (alta 181%). Na Lapa, de 122 para 164 (34%). No Butantã, de 100 para 141 (alta de 41%). Na Mooca, de 47 para 115 (145%). Em apenas 3 regiões houve queda no número de ocorrências: Freguesia do Ó, Jaçanã/Tremembé e Perus.


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AS CHUVAS

Choveu mais em 2009, o que certamente contribui para o aumento do número de alagamentos. Em particular, choveu muito em meses tradicionalmente mais secos. Só em setembro de 2009, foram 192 mm de precipitação acumulada, contra 73,9 mm da média histórica. Mas na conta anual, os transtornos causados pela chuva aumentaram muito mais. Em comparação com 2008, o aumento dos alagamentos em 2009 foi de 62%, e em mm de chuva, de apenas 21%. Em comparação com 2006, ano da inauguração das obras do Rio Tietê, o aumento dos alagamentos foi de 47%, e em mm de chuva, menos de 0,1%.

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O QUE SE FAZ COM OS DADOS

O engenheiro Hassan Barakat, 47 anos, do Centro de Gerenciamento de Emergências, explica que o monitoramento dos pontos de algamento produz informações que são passadas às subprefeituras da cidade. De posse das informações, a primeira ação de combate é a limpeza de bueiro. Caso não resolva, é questão de verificar uma eventual obstrução nos ramais de escoamento, por excesso de lixo ou assoreamento. E há os casos mais complexos, que exigem obras de maior parte.

Rua alagada no Jardim Romano, na zona leste de São Paulo. FOTO: Werther Santana/AE

O REGISTRO DOS DADOS E ALGUMAS RESSALVAS

Barakat está no CGE há dez anos, desde a implantação do órgão, na gestão de Celso Pitta. Ele explica algumas das possíveis distorções na leitura dos dados. Em primeiro lugar, o registro é feito pelo pessoal de campo da CET. Daí que pontos de alagamento no centro expandido ou em vias de grande fluxo são, como o trânsito, mais bem monitoradas que ocorrências em locais afastados. Em segundo lugar, o registro é diário e conta apenas as novas ocorrências. Um alagamento pode se estender por mais de um dia – como o que atualmente afeta a região do Jardim Pantanal – mas terá apenas um registo, ligado ao dia em que começou. Finalmente, no que concerne a comparação entre regiões da cidade, há um considerável volume de ocorrências na base de dados sem a devida identificação da subprefeitura, particularmente em 2004, primeiro ano da série histórica.

Chuvas – e por extensão alagamentos – são fenômenos bastante complexos. São extremamente suscetíveis a pequenas variações. Daí a famosa alegoria da teoria do caos: o efeito borboleta, segundo o qual um simples bater de asa de um inseto pode provocar um temporal do outro lado do mundo. Daí porque muitos estudos do clima tomam séries históricas bastante longas – de 30 anos – para produzir médias e comparações. Daí também a resistência de Barakat a comparações do tipo 2009 versus 2008. “Por exemplo, tivemos esse ano em setembro a maior chuva para este mês na história”, diz. “É complicado”.

É complicado. Por outro lado, a tarefa de abrandar os transtornos causados pela chuva são bem mais simples, bem mais previsíveis. E este súbito aumento das ocorrências de alagamento mostra que, em 2009, a cidade teve ainda menos sucesso que o habitual. Evidencia o que o paulistano sabe bem: São Paulo vive à mercê das águas.

Na visão de Hassan, o aumento da quantidade de marronzinhos nas ruas de São Paulo, que em 2009 passaram de 1.500 para 2 mil, pode ter influenciado no crescimento dos registros de ponto de alagamentos.