Poemas de sarau

Estadão

03 de agosto de 2009 | 16h44

O Estado publicou hoje um levantamento da Poiesis – organização que administra a Casa das Rosas e o Museu da Língua Portuguesa, entre outras instituições – que mapeia 32 saraus da Grande São Paulo. Nos próximos dias, colocaremos aqui algumas criações literárias dos frequentadores desses espaços. Começamos com textos da poetisa Barbara Leite e outros participantes do Sarau Diverso Politeama.

***
Cirandinha
por Barbara Leite

O anel de flor de lótus
vaga em outros dedos
O menino feito de ópio
foi embora, deixou sossego

Afago minha ira desnutrida
que será cremada no próximo sábado de sol

Arrisco novas iscas aconchegadas no mesmo anzol

São apenas perdas a mais
e aqui tudo está normal

Continuo contando meus dias
em saraus e cartelas de anticoncepcional

***
Maremoto
por Barbara Leite

São ciclos desejando
oceanos e paz
quase suplicando areia
e rede

E depois, tudo tanto faz.

O mar causa angústia
por mais de cinco dias
Ser descalça, inflama
a mente

Me consolo nas águas de minha mãe
por mais um instante

Ninguém é ileso ao asfalto:

É preciso um Niemeyer ao alcance
é necessário que meu olhar se fragmente
na próxima parede

assim lembro-me pequena e
limitada.

Uma vez infectada de pressa
Apresenta-se sintoma latente de
Madalena e Mariana.

Mochila de novo nas costas
O último olhar de paulistana.
Riso, gratidão e alívio num
suspiro alto

E eu ainda
Morro de São Paulo

***
Meretriz em núpcias
por Barbara Leite

Com postura nada tímida
ela insistia
em olhares insinuantes,
que eu percebia
a cada alçar das pálpebras

Era mais baixa que eu
que me equilibrava em salto.
Ensaiava um ar submisso
que chegou como emboscada.

E isto ao invés de me fazer Golias,
me tecia átomo.

Ínfima!
Miseravelmente ínfima!

Quando eu sem pedir licença invadia
as luzes e seus lares
os carros e seus sonhos
os concretos e seus abstratos

Ela sedutora profissional
me flertava
me rondava
me pedia

Eu sabia de sua ausência de castidade
e de todos os seus amantes.

Meus pés fizeram-se nus
Num ímpeto,
minhas pernas se distanciaram
para tal senhora deslumbrante.

E eu amei São Paulo
com toda intensidade.

***
Tragédia paulistana
por Berimba de Jesus

Jabaquara conheceu Conceição / que foi apresentada por São Judas / o qual dizem que é santo / os dois com Saúde trabalharam na Praça da Arvore / na Santa Cruz se casaram / e foram morar na Vila Mariana. / Conceição pariu Ana Rosa e tudo foi um Paraíso, / só que Conceição conheceu Vergueiro / que foi apresentado por São Joaquim / o qual também dizem que é santo./ E ela traiu Jabaquara na Liberdade na cara larga. / Pra se vingar Jabaquara foi a um puteiro e conheceu a Sé, / que foi apresentada por São Bento, / o qual, também dizem que é Santo. / E a Sé deu a Luz / a Tiradentes e Armênia. / Jabaquara discutiu com Conceição pelas bandas do Tietê / e injuriado matou Conceição afogada. / Foi parar no Carandiru. / Santana, irmão de Jabaquara, / ficou com a Sé, / assumindo Ana Rosa, Tiradentes e Armênia, / e foram todos morar no Jardim São Paulo. /Mas num belo passeio de domingo pela Parada Inglesa, / todos morreram atropelados na linha um azul do metrô, / e foram enterrados como indigentes no Tucuruvi.

***
Paulista, 2006
por Cel Bentin

Amealhado percurso estreito
entre broto maduro de rosa
e olhares verdes suspensos.

Tempo-presente margeando
futuros do outro lado do rio
da calçada da véspera
do anseio.

A vida é isso.

Barco,
passo,
destino.
Leito.

Em plena Paulista
por Larissa Marques

em plena Paulista
trava-se uma guerra silenciosa
nenhum passante se dá conta
da angústia caminhante
as lembranças transitam
sentido Brigadeiro
a realidade chama
para o lado oposto
os passos firmes em destino certo
alcançam o viaduto da Treze
um novo Bixiga renasce hoje
nos olhos de calos
saudosos e ansiosos
quase encantados
desapercebidos do tempo
deparam-se com o templo
carcomido pelas horas falhas
por década encoberto
a estátua do saguão central
o santo desvirtuado
ainda voltava seus olhos para o oratório
e sorria, num sorriso tão largo
guardava mesmo o aroma
contemplam-no imóvel, em devoção
a imagem sussurra e o pagão ouve
entrega-se em orações
livra-se das dores mundanas
e de olhos vidrados, entrega-se.

***
Satírico
por Allan Vidigal

Mentiu Plutarco, ou mentiu o tal Thamus.
Pode ter sido um erro inocente,
mas está vivo, e bem, e contente.
Foi só um deslize, um simples engano.

Abandonou a Arcádia, é verdade,
e já nem pensa em Syrinx ou Echo.
Mas aprendeu a beber em boteco
e gosta mais de viver na cidade.

O fato é: o rapaz não morreu.
Mora em São Paulo, num loft bacana,
e já nem é mais tão grande sacana.
O Grande Pã, minha cara, sou eu.

***
São Paulo
por Ruy Villani

Quase me escondo
Olho os seres, e não os creio
Não foi isso o que aprendi.

Eu queria uma cidade
Para desfrutar agora, na minha idade
Eu queria ter uma referência.
Mas por mais que minha consciência
Me devolva às ruas
Não são as minhas, nem as suas
Imagens imaginadas, sonhadas
Que vemos.

Parece que tudo apodrece
Parece que a cidade
Recebe o que não merece
De seus bons.

Apenas o lixo
De quem a tece
Sub-repticiamente
Sem pedir ou obter
Autorização
De quem, são,
Tentou fazê-la melhor.

Calo meu amor pela cidade.
Não deixo de ama-la
Apenas a construo como posso
E a espero recriada.
E como peço amiúde
A tantos que conheço.

Te peço sem pejo
Me ajude!

***
Na ponta da língua
por Flávia Perez

Poema veio de longe
e no céu da boca,
nas mãos tortas
do Poeta,
corrompeu-se:

– És meu Poema mais gostoso…

Foi uma única vez:
Sarau cheio de ritmo, rima
e gozo.

Poeta nunca mais esqueceu,
Poema nunca mais foi a mesma,
pois deles nasceu
Obra–Prima.

Poema agora
tem saudades
e Poeta
pela vida a fora
Só punheta

***
Para sempre desvairada
por Maria Júlia Pontes

O que é aquela cruz
no fim do túnel Rebouças
que o paulistano sustenta
[dia ……. após….. dia]
e que não se traduz?

luzes ao contrário trafegam nas vias
nas vidas dos transeuntes, Inferno e céu,
[se misturam]
ilustres, trabalhadores e otários
[Se aturam]

e desvaira pra nunca mais parar a paulicéia
nos palcos da multi-étnica platéia
que se arranha entre fumaça e pó
menino no farol
[malabarista da fome]
um pouco de fé, e mais nada a temer,

meia volta vou ver!
e única saída que alenta,
[desapressado]
não adianta correr,
[é esperar pra morrer]

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