Palmas do Tremembé, a favela mais antiga de São Paulo

Estadão

19 de outubro de 2009 | 12h35

Paulo Liebert/AE

Por Rodrigo Brancatelli

A tranquilidade ali nas ruazinhas sinuosas do bairro do Jardim Barro Branco, na zona norte de São Paulo, só é atrapalhada pelos latidos de meia dúzia de vira-latas, que definitivamente parecem prontos para arrancar sua perna se tivessem a mínima chance. Eles protegem treze casas com reboco aparente na Rua Professor Pinto e Silva, todas elas escondidas atrás de muros desiguais e portões enferrujados. Atrás também estão 60 pessoas de uma mesma família, que há exatos 75 anos lutam contra a Prefeitura para conseguir a posse daqueles 2.732 metros quadrados de terra.

“Já estamos na quarta geração batalhando pela mesma coisa”, diz a dona de casa Aidir Santos, de 44 anos. Dona de um modesto imóvel no local (e de um cachorro extremamente barulhento), ela é uma das residentes da favela Palmas do Tremembé, a favela mais antiga ainda existente em São Paulo, criada em 1934. A pitoresca história do endereço começa com o alagoano Manoel Messias Leite, que no final da década de 20 deixou sua mulher e seus dois filhos em casa para vir para São Paulo cuidar da segurança da sítio do Barro Branco, um dos maiores da região. O problema foi que, depois de alguns anos, o fazendeiro resolveu lotear o terreno e doar parte para a Prefeitura – mas simplesmente esqueceu de avisar Manoel Messias Leite, que já tinha trazido todos os parentes para morar com ele.

O que era “lar” então virou uma ocupação irregular, ou uma “favela” – mais precisamente, favela Palmas do Tremembé para o governo municipal. Décadas se passaram, São Paulo foi se urbanizando, e centenas de outras favelas passaram a integrar um triste retrato da alta prevalência de situações de pobreza e de uma política habitacional ineficaz por parte do poder público. Um levantamento da realizado em 1973, por exemplo, indicou que cerca de 70 mil habitantes (ou 1% da população do município) morava em favelas. Em 1987, a população favelada havia alcançado algo como 812.000 habitantes. O Censo de 1991 confirmou esse crescimento, indicando cerca de 650.000 habitantes em setores subnormais, contra cerca de 375 mil habitantes em 1980. Atualmente, a estimativa é de que exista 1,9 milhões de favelados, o que resultaria em um aumento de 133 % em apenas 6 anos ou 15,2% ao ano.

Pelo menos lá no Jardim Barro Branco, agora são os sobrinhos, netos e bisnetos dos alagoano que tentam sair dessa triste estatística e finalmente dar um fim para esse imbróglio. “Na década de 70 mandaram até a polícia aqui para retirar a gente”, conta Aidir. “Mas desde o ano passado estamos conversando com a Prefeitura para regularizar o terreno, já estamos vendo até como serão os impostos. O importante é que parem de chamar o nosso espaço de favela, só isso já vai trazer mais cidadania para a gente.”

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