Outros poemas de saraus paulistanos

Estadão

10 de agosto de 2009 | 18h13

Na sequência, mais alguns exemplos de poemas recitados em saraus paulistanos:

+1
por Maurício Carvalho Marques

A minha poesia
Está nos bares, nos lares,
Nas escolas,
Nos barracos da favela;
Sou mais um poeta da periferia.
Também se encontra em bangalôs
E redutos da burguesia.
Não faz distinção de classe social,
Raça ou Religião.
Busca apenas corações
Onde habita a poesia.
Sou + 1 da Sul
Sou Cooperifa
No bar B Binho
Sou Maloqueirista na Calixto.
Troco os Lixos
Com Erton-Urso de Moraes.
Na Benedito estou na praça e na raça do Stocker.
Na Madalena,
O meu peito percebeu
Que o mar é uma gota
Comparado ao mundo meu.
Pira playboy
Pira playgirl.
E lá na quebrada
Tenho sempre uma Mandala
Girassol
Pra mina de fé.
E pro mano firmeza em sintonia,
Um barco de Ilusões
Rumo ao porto poesia.
Sou, sou sim
Sou Guerreiro
Linha de frente
Combatente
Pela revolução
Da Clara Consciência clara.
A minha arma
A poesia.
Sou, sou sim
Sou Maurício Marques
+ um poeta da periferia.

***
Limites da Manhã
por José Luís

Hoje sonhei de novo
um sonho já acostumado
sonhei que estava noivo
Em cima de um altar admirado
Admirado assim fiquei
Quando ao meu lado senti
Noivava comigo alguém
Que por anos pretendi
Como estava feliz
no meu sonho limitado
Por mais um minuto,
Um triz. Acordaria… Casado!

***
por Roberta Estrela D’Alva

Sinta, pense, crie, escreva, chegue, diga, fale!
Palavras que não são ao vento,
Mas que estão em movimento
Poetas urbanos,
Diversos,
Humanos
Gente que tem o que dizer
Gente como eu
Como você!
Ritmo poesia
Materializados em luz, som e ação
Ouvidos atentos,
Sentimentos
Está inaugurada a Zona Autônoma da Palavra
123 Zaaaap!

***
Quilombo
por Raquel Almeida

Aqui minhas forças se renovam
É aqui que eu quero ficar
Quilombola eu sou, oiá, oiá…

Em teu ventre fui gerada!
Quilombo…
Terra de pretos e pretas, Griôs
Terra do povo que da África desembarcou

Agora é um quilombo moderno
Lugar onde seus filhos
trazem caneta e caderno
Pra escrever nossa história
De um ponto de vista diferente
Somos crias dos quilombos
E aqui lutamos bravamente

Em teus braços quilombo
Sinto-me protegida
E aqui em teus seios
Sou amamentada dia a dia

Reconheço sua força quilombo
Não somos mais reféns da agonia
Vamos fazer a justiça com as próprias mãos
Tendo conhecimento da nossa história
Caminhamos nos passos da (r)evolução!

***
Um pouco de mim
por João do Nascimento

Deu vontade de ir embora
De voltar pro meu lugar
Pra terra que eu nasci
Deu vontade de voltar
Peguei uma malha velha
Que trouxe quando vim pra cá
Arrumei meu matulão
Só falta eu viajar
Ver aquela casa velha
Que há tanto tempo morei
Ainda lembro das estradas
Aquelas que eu caminhei
A minha mala era rede
Nela a enxada e a roupa
Sol quente ao meio dia
Suor correndo no rosto
A alpargata de rabicho
Que apertava o meu pé
E na beira do riacho
Uma árvore frondosa
Com aparência piedosa
Me oferece o descaso
Me aconchego no seu tronco
Num instante puxo um ronco
Marco a hora de acordar
Carne assada e rapadura
Fubá de milho é fartura
Para me alimentar
No cantil um pouco d´água
Vou bebendo na estrada
São lembranças bem guardadas
De quem deixou seu lugar.

***
Sentimentos
por Michel Yakini

Por ai muito sinhô
Esses chamado de dotôr
Dizem que nossa poesia
É limitada, um horror

Pois eu digo que esses cabra
Que nunca pegou numa enxada
Dizem que sabem de tudo
Mas num sabem é de nada

Esses “dono da verdade”
Num conhece realidade
Vivida pelo caboclo
No sertão e na cidade

Só ficam em gabinete
Entre quatro paredes
Enquanto nóis clama justiça
E eles finge que num entende

Diz que nóis num sabe lê
Quanto menos iscrevê
E que nosso linguajar
É difícil compreendê

Pois deixe que eles insista
Em fazê grossa vista
Pois nóis se fortalece
Aqui no bar do Santista.

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