O Teatro Municipal, a chuva e o centro vazio

Estadão

09 de dezembro de 2009 | 07h12

FOTO: Eduardo Nicolau/AE

Por Edison Veiga

O palco vazio. As cortinas fechadas. O espetáculo de ontem do Teatro Municipal não tinha atores, nem cantores líricos, nem maestros. Os protagonistas eram os setenta operários que, desde julho de 2008, se dedicam à restauração do histórico espaço. Pela primeira vez, os bastidores de uma reforma do Municipal seriam mostrados ao público – no caso, os 15 interessados que se inscreveram no Departamento de Patrimônio Histórico (DPH). O que ninguém contava, entretanto, era que uma forte chuva iria atrapalhar um pouco o passeio.

Tanto que três dos inscritos nem sequer conseguiram aparecer. E houve uma tolerância no relógio – a visita começaria às 9h30 e teve de ser adiada para meia hora mais tarde. Tempo que não foi desperdiçado pelos pontuais, que aproveitaram para se conhecer e colocar as memórias afetivas em dia. “Lembro-me quando assisti à montagem de Macunaíma, do Antunes Filho, aqui”, dizia o administrador Alexandre Cruce, 45 anos, sobre o espetáculo de quase três décadas atrás. A advogada Miriam Tucci Pastorino, de 62 anos, recordava-se de algo ainda mais antigo: um show com o famoso cantor italiano Domenico Modugno (1928-1994) ocorrido à meia-noite. Quando? “Ah, isso foi nos anos 60”, suspirava.

Às 10h, a arquiteta Rafaela Bernardes, do DPH, reuniu todo o grupo e iniciou com uma má notícia: o tempo ruim impossibilitaria que fosse feita a visita aos espaços externos. Para remediar a frustração, todo o grupo foi convidado a comparecer novamente ali na sexta pela manhã – quando está agendado um tour com outros inscritos –, torcendo para que não se repita a chuva. “A ideia desse programa é mostrar o que não dá para ver quando a obra termina”, contextualizava Rafaela, antes de traçar um breve histórico sobre o Teatro Municipal e iniciar o percurso pelos ambientes internos.

Ao longo das duas horas de passeio, exclamações eram soltadas em todos os cantos. “Que lindo que está ficando. Das cores que eu gosto”, repetia Miriam, no salão do antigo restaurante. “Valeu muito a pena ter vindo”, resumia o técnico em telecomunicações aposentado Paulo César Barreto Serra, de 57 anos – que viajou de Campinas na véspera só para poder conhecer a obra do Municipal. “Gosto bastante do assunto.”

TRÂNSITO NO CENTRO
Quem conseguiu chegar a tempo de participar da visita não teve problemas com o trânsito. O centro de São Paulo estava vazio, muito mais tranquilo que o normal. Este repórter, por exemplo, levou apenas 15 minutos para se deslocar, de táxi, de Pinheiros até o Teatro Municipal – enfrentando uma Avenida Rebouças vazia como se fosse feriado. A arquiteta Assunta Viola, 43 anos, utilizou o metrô. Embarcou na estação Vila Mariana e desceu na Sé. “Estava tranquilíssimo. Mais vazio do que ontem”, afirmava. Rafaela, que mora na região da Avenida Paulista, optou pelo táxi. “Calmo, não demorei mais do que 15 minutos.” Ciente do caos que estava a cidade, o engenheiro civil Durval Quiezi, 55 anos, achou melhor deixar o carro na garagem e utilizar o ônibus. “Demorou 1 hora para passar”, contava ele, que mora nos Jardins. “Mas depois que chegou, foi rápido. Paulo César preferiu não arriscar: foi a pé, da Bela Vista – onde havia se hospedado, na casa da filha – até o Municipal. “Levei meia hora.”

Na Rua Coronel Xavier de Toledo, a poucos metros dali, os taxistas também comentavam sobre a calmaria do trânsito na região central. “Quem mora na Paulista e precisou vir para cá se deu bem hoje”, exemplificava o taxista Vanderlei Monteiro, 33 anos. “O centro está tranquilo porque as principais vias de acesso para cá travaram. Então o movimento dos carros não avançou para este lado da cidade.” Seu colega Elcio Francisco da Silva, 42 anos, chegou a se negar a fazer algumas corridas. “Um cliente queria que eu o levasse até o Brás e eu recusei”, revelava. “Lá não dá para chegar hoje.”

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