No meio da cracolândia, Mari Almeida, 40 anos, tenta encontrar o marido

Estadão

13 de julho de 2009 | 11h55

FOTO: Sergio Neves/AE

Por Diego Zanchetta

O viciado em crack que passa uma semana acordado sem comer nada e fumando 20 pedras por dia costuma ter crises agudas de depressão quando a fissura pela droga se esvazia. Nessa hora, ele tenta buscar refúgio com a família ou dentro de uma entidade assistencial para, dias depois, voltar às ruas novamente. Esse ciclo de idas e vindas resulta em mães desesperançosas que dizem aguardar “o pior”.

Mas há exceções de persistência e coragem. A corretora de imóveis Mari Almeida, de 40 anos, é uma delas. De salto alto e bem vestida, com uma foto do marido em mãos, ela saiu de Tatuí, no interior, para percorrer os ‘circuitos’ do crack sozinha. A reportagem do Estado encontrou a corretora no meio de adolescentes que fumavam na Rua Conselheiro Nébias, por volta das 16h de quarta-feira.

Chorando, Mari rodou cerca de três quilômetros da República até o Albergue Oficina Boraceia e conversou com uma dezena de dependentes. Todos sempre tinham algum tipo de informação sobre seu marido. “Vixi, o pessoal da guarda bateu muito nele, ficou com um corte grande na testa”, dizia, articulado, um menor de 12 anos, que em seguida pediu uma garrafa de Cola-Cola. A corretora pagou.

“Eu morro de pena dessa gente. Faz 15 dias que meu ex-marido veio para a rua e sei que se ele me encontrar vai querer voltar. Meu filho mais velho não para de perguntar por ele. Quero colocá-lo numa clínica em Itapetininga”, explicava a mulher, antes de chegar ao Albergue Oficina Boraceia, o último endereço indicado na cracolândia. Na última sexta-feira, Mari voltou ao interior, sem sucesso. “Acabou o dinheiro, vou tentar ainda. Não posso deixar o pai dos meus filhos morrer sem dignidade. Vou tentar voltar talvez na quarta para dar mais uma procurada.”

>> O drama de Mari e outras histórias da região da cracolândia estão em reportagens publicadas ontem pelo Estado.