Mais poemas de sarau

Estadão

04 de agosto de 2009 | 17h22

Mais alguns poemas dos frequentadores de saraus paulistanos:

Caneta maldita
por Carlos Savasini

Caneta maldita, por que não punhal?
Por que não vaso de cor desigual?
Por que tudo analisa, desliza e permite
Que a tinta manche apenas papéis?

Seja punhal, ó caneta maldita,
Troque esta cor por vermelho sangue,
Não manche nem marque mais papéis
Que não exprimem essência de dor.

Caneta maldita marque meu corpo,
Manche em mim a folha de pele,
Marque meu braço, meu rosto, meu peito,
Rasgue as chagas e estirpe a agonia.

Caneta maldita seja punhal
E faça de mim rascunho vivo,
Marque na pele o que brota da alma
E faça singela a canção de meu corpo.

***
Certezas
por Carlos Savasini

a meia
toalha
o chinelo

a calcinha
o pente
a escova de dente

detalhes que fora do lugar
fazem de ti tão presente

***
Gigante
por Carlos Savasini

o peso
a força
e a mão

o rolo que contorce a massa
o fuso que extrai o óleo
e a bomba que mata sem dor

o peso da mão do homem é o peso da mão de deus

***
por Daniel Minchoni

um caminhao fechou o verso
quase atropelei um til
vá pro poetaqueopariu

***
por Ruy Rocha

a vida é vã
a vida é besta
a vida é kombi
é combinada

mas, às vezes,
te deixa na parada errada
devolve meu ticket filhodaputa

***
por Daniel Minchoni

olhando pra caixa de sabão
rompo o lacre do paradigma da evolução
o (h)omo sapies insiste em pagar sempre o mesmo mico
o (h)omo macaquiens insiste em pagar sempre o mesmo sapo
trabalha trabalha trabalha seis da manhã ônibus lotado aperto sufoco suvaco aff graças a deus trabalho trabalho stress stress oh yeah stress fast food fast fode câncer trabalho stress stress oh yeah oito da noite ônibus lotado aperto sufoco suvaco aff graças a deus casa família fast foda ronc ronc zzzzzzz trabalho seis da manhã ônibus lotado aperto. todo santo dia. trabalha trabalha
sapiemos que somos homos. mas sapiemos se somos sapiens?
sapiemos que somos homos. mas sapiemos se somos sapiens?
(sapia que o sapiá sapia assupiá?)

***
por Daniel Minchoni

rezei pra são paulo
que horas são?
já perdi o trem das onze

***
por Daniel Minchoni

estava tão tampouco
que destampou e saiu
o oco

***
por João Xavier

na cidade do nascimento
há muito tenho morrido
é um velho vale do esquecimento
dos mortos e oprimidos

na cidade do sol não me ansce na janela
e nesta escuridão muito sinto as sequelas

na cidade do casarão de resistência morreram todos
enlouqueceram de inconsciência
e não conseguem nascer de novo

***
por Daniel Minchoni

o pastel cinza é da cidade cinza símbolo
cinza são suas cinzas ruas cinzas
cinzas são seu moleques
cinza seu arco-íris
cinzas suas putas não,
nem seus travecos
cinzas seus bichinhos de estimação
seus times só pretos e brancos
cinzas são suas artérias
cinzas entupidas de carros cinzas
e de veneno cinza
e de cinzas senhoras
cinzas são seus tamancos
cinza são suas sardas cinzas
cinzas são os seus bancos
cinzas são os seus homens do tempo
sempre cinzas sempre tempo cinza
cinzas suas noites
cinzas são suas fumaças
cinzas das latas cinzas
de seus
excluídos
cinzas
cinzas são suas pausas
cinzas são suas praças
cinzas seu bosques
cinzas seu cantos
cinza todas as cores
cinza são suas paredes
cinza é sua farda cinza
cinza é sua farsa cinza
cinza é sua laia cinza
cinzas são seus perfeitos
cinzas são seu valores
cinsas são seus defeitos
cinza tua rima branca
os seus leitos cinzas de morte
cinza será o meu norte

***
por Daniel Minchoni

somos poetas do tietê
radioativos e contaminados
como um porco boiando
as oito em ponto.
somos salada de cach^orro^
e plástico, e boneca, e lodo,
e isso e aquilo e “otras coisitas
más” que não cheiram lá bem
ser poeta já é sujo
se do tietê, nos devolve
um pouquinho da dignidade*
somos poetas do tietê**
nascemos limpinhos, sobretudo***
mas vivemos e morremos na merda****
* se é que isto importa porra alguma
** quero ver gullar jurar que o poema dele ainda é sujo
*** só um pouquinho de placenta e um cordão umbilical
**** comendo do próprio umbigo

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