Euclides da Cunha, pelas hermas dos poetas

Estadão

27 de agosto de 2009 | 11h36

Por Edison Veiga

Mais de um século depois, a Faculdade de Direito do Largo São Francisco deve, enfim, ter os bustos de três poetas que lá estudaram: Álvares de Azevedo (1831-1852), Castro Alves (1847-1871) e Fagundes Varela (1841-1875). Em 1907, após diversas campanhas, os alunos do Centro Acadêmico conseguiram viabilizar a construção apenas da herma de Azevedo.

Agora, graças a uma parceria da Associação de Antigos Alunos da Faculdade com a Editora Lettera.doc, um livro será lançado com a conferência que Euclides da Cunha (1866-1909) proferiu sobre Castro Alves, na época, para arrecadar dinheiro para as homenagens. Quem adquirir um exemplar (R$ 50) até segunda-feira (31), terá seu nome publicado no final da obra, como colaborador do projeto.

Duas correspondências de Euclides da Cunha mostram sua preocupação com o evento de 1907. A primeira, dirigida ao então presidente do Centro Acadêmico, César Lacerda de Vergueiro. A outra, enviada a seu amigo Francisco de Escobar. Ei-las:

A César Lacerda de Vergueiro:

César Lacerda de Vergueiro
Centro Acadêmico Onze de Agosto
Rua 15 de Novembro 54 (2º Andar)
S. Paulo

Rio – 27-11-1907

Ilmo. Sr. Dr. César de Lacerda Vergueiro,

confirmando o meu telegrama anterior, comunico que partirei daqui no próximo domingo, 1º de Dezembro, pelo noturno, realizando-se a nossa conferência no dia 2, à noite. Renovo comunicação apenas por temer que se tenha extraviado o telegrama. O assunto é – conforme também já mandei dizer “Castro Alves e o seu tempo”.

Com a mais elevada consideração e estima, sou seu
compatriota atº amº obrdº
Euclides da Cunha

A Francisco de Escobar:

Rio, 28 de novembro de 1907

Escobar

Somente hoje retirei a tua carta registrada, com valor, ficando desapontado por ver que me mandavas uns dezessete mil réis, quase não me lembrava mais. Que diabo de preocupação foi essa? Então andamos como dois massudos burgueses, a regularem contas? Felizmente, o desagradável incidente foi compensado, porque na mesma carta me dás notícias tuas, e diz que estás bom, assim como a d. Francisca e todos.

Também por aqui me anda a praga dos filhos. Nasceu mais um, no dia 16 de novembro. Chamei-o Luís, percorrendo o calendário exausto.

Estou ficando patriarca. Apesar disto, e das grandes barbas brancas ideais que me andam pelo rosto, lá vou pelo noturno, de domingo, 1º de dezembro, à S. Paulo, onde farei, no dia seguinte uma conferência sobre Castro Alves, para auxiliar a construção da herma do poeta. Andei em talas para arranjar coisa que possa agradar a estudantes. Mas conto com o insucesso. Felizmente, de qualquer modo, lucrará o poeta. Obrigado, pelo que dizes do “Peru versus Bolívia”.

Ah! Realmente tem razão o João do Rio (vide Gazeta de domingo passado) ao proclamar-me o único funcionário público romântico, que ainda houve nesta terra.

Adeus. Por que não nos encontraremos em S. Paulo, no salão…, à noite?
Lembranças a todos. Do teu
Euclides da Cunha.

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