A R$ 50, terminal clandestino tem linha expressa São Paulo-Paraguai

Estadão

17 de julho de 2009 | 18h31

Diego Zanchetta

São Paulo vive a expectativa da adoção de uma nova restrição no trânsito caótico da cidade. Dessa vez, serão os ônibus fretados que terão horários e bolsões predeterminados para fazerem o embarque e o desembarque de passageiros. Ao todo, são cerca de 180 mil usuários do serviço na capital, incluindo trabalhadores de cidades como Santos e Campinas. A restrição passa a valer no dia 27, de segunda a sexta, das 5h às 21h.

Mas o perímetro da restrição adotado pela gestão Gilberto Kassab (DEM) não inclui a região da Rua 25 de Março e no Brás, onde existe uma grande circulação de fretados interestaduais, a maior parte irregulares. Na última quarta-feira, a reportagem constatou que existe até um terminal clandestino onde é possível pegar, por R$ 50, uma linha expressa até o Paraguai.

É como uma linha de ônibus, mas com ponto final a mais de 1 mil km de distância. Os coletivos, em estado precário, vão sendo lotados o dia todo, de hora em hora, em locais proibidos. Os sacoleiros da Rua 25 de Março conseguem ir e voltar ao Paraguai, para repor seus estoques, em menos de 24 horas. A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), a quem cabe a fiscalização dos fretamentos de um Estado para outro, diz que estuda um convênio com o Município para combater os clandestinos. A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) afirma que já vem combatendo o problema regularmente na região.

Os fretados do terminal ilegal param na faixa da direita da Avenida Senador Queirós, em local proibido inclusive para descarga, no sentido centro da via. Até serem lotados pelos passageiros, ficam parados por quase duas horas e estrangulam ainda mais o trânsito da região, tomando uma faixa da via. Com os coletivos parados na esquina, os carros formam filas imensas na Rua Barão de Duprat, na tentativa de entrar na avenida que leva ao centro.

FOTO: Sergio Neves/AE

Apesar de a linha mais disputada ser a de Foz do Iguaçu, com três fretamentos diários, no terminal também é possível pegar coletivos semanais com destino a Brasília (DF), Natal (RN), Curitiba (PR) e São Luís (MA). Os preços são até três vezes mais baratos que os praticados por empresas da Rodoviária do Tietê e crianças de até 7 anos não pagam. Por exemplo: por uma viação comum, a viagem até Curitiba sai por R$ 61; no fretado clandestino, o preço cai para R$ 25.

Como se fossem agentes de pacotes turísticos, os funcionários do terminal também ficam em pontos estratégicos da 25 de Março e da Rua Florêncio de Abreu. A exemplo dos camelôs, eles gritam para anunciar o produto. “Foz do Iguaçu, Curitiba, 15 horas. Só R$ 50, guardamos e empacotamos volumes”, gritava na quarta-feira um dos funcionários do terminal, onde também é possível guardar os pacotes das compras.

Se o usuário resolve pela manhã, por volta das 11 horas, buscar mais produtos no Paraguai, a linha das 14 horas no fretado ilegal quase sempre ainda tem vagas. Usar o clandestino é vantagem para camelôs e donos de lojas que precisam fazer viagens rápidas até o país vizinho, sem hora marcada ou passagem comprada com antecedência. “O ônibus aqui para muito menos que o da rodoviária; até Foz do Iguaçu são só três paradas, no máximo”, diz a sacoleira Bernadete Lemos, de 56 anos, moradora na zona leste de São Paulo. Os dois filhos têm barracas em um shopping popular da 25 de Março. À mãe cabe comprar os produtos na fronteira com o país vizinho. “Pode falar o que for, mas eletrônico barato mesmo é no Paraguai.”