Suspensa pela pandemia, festa do Divino volta a atrair público no interior de SP
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Suspensa pela pandemia, festa do Divino volta a atrair público no interior de SP

José Tomazela

01 de junho de 2022 | 10h53

A Festa do Divino, uma das celebrações mais tradicionais do estado de São Paulo, está sendo retomada este ano em ao menos dez cidades do interior paulista, após dois anos de suspensão devido à pandemia de covid-19. A tradição vem do início da colonização portuguesa e se mantém fiel às origens coloniais e ao calendário religioso, já que o ponto alto da festa coincide com o Pentecostes – a aparição do Divino Espírito Santo, terceira pessoa da Santíssima Trindade, aos apóstolos de Cristo. Os rituais incluem procissões, desfiles e uma profusão de cores, com destaque para o vermelho, branco e azul.

Em Itu, a procissão do Divino acontece neste sábado, com a concentração dos festeiros em frente à Câmara Municipal, percorrendo as ruas Santa Rita e Sete de Setembro, finalizando na Praça Padre Miguel, com a benção em frente à Igreja Matriz. Durante o desfile pelo centro histórico, os devotos recriam momentos da época do Império com trajes e a corte da Imperatriz. Os soldados do Exército percorrem as ruas carregando o andor com a imagem da pomba, que representa o Divino Espírito Santo, enquanto algumas crianças carregam os sete dons divinos, além dos tradicionais cavaleiros e o carro de boi, que também participam do desfile, acompanhado por cânticos da igreja. Durante o percurso, acontece a distribuição de pães abençoados pelos padres da região.

Em Mogi das Cruzes, a festa do divino está em sua 409a. edição, ou seja, acontece praticamente desde a fundação da cidade, em 1611. Os casais festeiros e os capitães de mastro já foram nomeados pelo bispo diocesano, dom Pedro Luiz Stringhini. Neste domingo, 5, a celebração será aberta com a alvarada, às 5 da manhã, na Praça Coronel Benedito Almeida, seguida da bênção do fogo e da procissão. Após a missa, celebrada pelo bispo, serão incinerados os pedidos dos devotos, com a solenidade do fechamento do Império.

Desfile do Divino em Itu: tradição retomada. Foto Prefeitura de Itu/Divulgação.

Piracicaba realiza a festa há 196 anos. No domingo, acontece a carreata da fé pelos Caminhos do Divino, a partir das 9 horas, levando a bandeira do Divino pelas ruas. Ainda devido à pandemia não foi possível levar a bandeira de casa em casa, como manda a tradição, e criou-se essa modalidade. A carreata termina na Catedral de Santo Antônio, onde o monsenhor Ronaldo Aguarelli abençoará os festeiros. A festa prossegue até 17 de junho, com outros ritos tradicionais, como a congada e o encontro das bandeiras.

Em Anhembi, a festa é realizada há mais de 150 anos e tem o ponto alto neste domingo. Durante todo o mês de maio, a Irmandade do Divino refez a penitência de viajar de casa em casa levando a bandeira do Divino e cantando músicas tradicionais. As rotinas da peregrinação são mantidas desde os primórdios desta manifestação cultural. Os festeiros usam dois batelões – barcos grandes – para atravessar o Rio Tietê, que banha a cidade, e chegar às famílias das fazendas ribeirinhas. Cerca de 120 integrantes da irmandade desembarcam das canoas e seguem para o cortejo dos Amortalhados. Devotos se deitam no chão, cobertos com lençol branco, e os irmãos pulam, um a um, pedindo que o Divino abençoe.

Nos dez dias de festejos do Divino em São Luiz do Paraitinga, as ruas do centro histórico ficam tomadas pelos turistas e devotos. É um dos eventos mais tradicionais da cidade, que recebe visitantes para pagar promessas, rezar, acompanhar a procissão do Divino, pedir bênçãos e provar o afogado (comida típica dos tropeiros) que é distribuído gratuitamente ao povo. Uma das atrações é a dança de fitas, uma coreografia secular. A festa se encerra neste domingo, com missa e bênção aos festeiros.

Nas cidades às margens do Tietê, a festa tem sua origem nas epidemias de maleita e febre amarela que mataram muitas pessoas, durante o século 19. As populações fizeram promessas ao Divino Espírito Santo para que acabasse com a doença e em sua homenagem seria feita uma festa anual. No Distrito de Laras, em Laranjal Paulista, no entanto, a tradição vem do final do século 18 e já completou 230 anos. Em Tietê, a festa é realizada há quase dois séculos. Entre as cidades que também festejam o Divino estão Sorocaba, Conchas e Pereiras.

Festeiros se deslocam em batelões pelo Tietê em Anhembi. Foto PM Anhembi/Divulgação.

A origem popular da festa surgiu em Portugal, no ano de 1320, com a Imperatriz Santa Isabel de Aragão, que usou a coroa do Império com o símbolo do Espírito Santo, como pagamento de uma promessa. No Brasil, a festa teve início ainda no século 16, como uma herança dos colonizadores.

O desfile do Divino é realizado com a participação da corte, de violeiros, cavaleiros, bandas de música e carros de boi, que no passado levavam a lenha para ser vendida e o dinheiro arrecadado era doado entre as obras de caridade. As cores predominantes nesse desfile são o vermelho e branco, presentes nas vestimentas, nos enfeites e na decoração do Império, da Igreja e na Bandeira. A cor vermelha simboliza a realeza de Santa Isabel e as línguas de fogo do Pentecostes. O branco apresenta-se na pomba, símbolo do Espírito Santo e da paz.

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