Fazendas e casarões seculares documentam 410 anos de história em Itu
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Fazendas e casarões seculares documentam 410 anos de história em Itu

José Tomazela

02 de fevereiro de 2020 | 17h37

Entre o final do século 18 e as últimas décadas do século 19, o café fez a riqueza de grandes produtores rurais no interior paulista e, através deles, deu sustentação política ao Império. Nesse período, surgiram os “barões do café”, expressão usada pelos historiadores para designar, não apenas os grandes cafeicultores, mas também senhores de engenhos e donos de grandes fortunas que recebiam títulos de nobreza do imperador como garantia de apoio e fidelidade.
No quarto final do século 19, muitos desses fazendeiros se tornaram críticos da monarquia, por considerar o regime excessivamente conservador. Na safra 1858/59, o interior paulista produziu 913,9 mil arrobas de café (13,4 mil toneladas), produção que exigiu cerca de 100 mil muares para o transporte até o Porto de Santos. Os produtores queriam ferrovias, mas a monarquia tardava em atender, então a iniciativa privada tomou a frente, fez as ferrovias e apoiou os movimentos pela República.
Registros importantes dessa mudança aconteceram em Itu que, neste domingo (2), completa 410 anos de história. Em 17 de março de 1823, a cidade recebeu de D. Pedro I o título de “A Fidelíssima”, pelo apoio à monarquia. Uma placa, na fachada de um bem conservado casarão da Praça Padre Miguel, marca o local onde a moção de apoio foi assinada. Meio século depois, Itu sediou a grande convenção a favor da república. O encontro aconteceu no dia em que se inaugurava a estrada de ferro Ytuana, construída por empresários locais. Cinco anos antes da queda do Império, em novembro de 1884, a família imperial foi a Itu e se hospedou no casarão dos Caselli, outro marco histórico.
Nos primeiros anos da República, muitos fazendeiros resistiram ao novo regime. “Meus antepassados eram monarquistas e, enquanto outros fazendeiros da região estavam descontentes, eles continuavam fiéis ao imperador”, conta João Pacheco, proprietário da antiga Fazenda Engenho Grande, atual Chácara do Rosário, em Itu. A propriedade está com a família há sete gerações. “Foi comprada pelo meu ‘setimavô’, Antonio Pacheco da Silva, em maio de 1756. Ele era descendente dos bandeirantes e aplicou em terras o dinheiro nas minas”, disse.
Conforme Pacheco, outros descendentes se tornaram republicanos. É o caso da Fazenda Vassoural, que atualmente pertence à Maria Mercedes Pacheco Vergueiro da Silva e seu marido, Gilberto Vergueiro da Silva. “Meu avô, Sérvulo Correia Pacheco e Silva, era republicano e fazia reuniões em casa. Ele dizia para minha avó: ‘Marina, vamos servir almoço para 100 pessoas’. Ela corria ao terreiro e para matar galinhas, porcos, e saía um banquete.”
Maria Mercedes guarda com carinho o registro de uma reunião realizada pelos republicanos em setembro de 1946, ano que marcou o fim da era Vargas, com a edição de uma nova Constituição. “Desta casa, onde mora o espírito imortal da Família Pacheco e Silva, partiu pela segunda vez, de Itu, a marcha para a democracia e pela justiça social”, diz o documento, assinado pela Comissão Diretora do Partido Republicano Paulista. Ela aponta o jequitibá-rosa plantado na ocasião, em frente à casa. “Houve uma poda errada, mas a árvore continua muito forte”, disse.
Como a Engenho Grande, a Vassoural foi durante muito tempo produtora de cana-de-açúcar. Na segunda metade do século 19, passou a produzir café. As duas propriedades utilizaram a mão de obra de escravos. “Até há pouco tempo, tínhamos a senzala, mas meu tio a desmontou porque lembrava a escravidão”, conta Maria Mercedes. Atualmente, as duas propriedades fazem parte do roteiro das fazendas históricas paulistas e exploram o turismo rural. A Chácara do Rosário é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Outros casarões tombados no centro de Itu transpiram história. O sobrado da Rua Barão do Itaim que hoje abriga o Museu Convenção de Itu, extensão do Museu Paulista da Universidade de São Paulo (USP), sediou em 18 de abril de 1873, a Convenção Republicana que, 16 anos depois, selou o fim do Império e deu início à República no Brasil. O edifício, construído no início do século 16, mantém a fachada e parte da estrutura original.
Itu tem um dos maiores conjuntos de imóveis tombados pelo patrimônio histórico estadual e federal. São cerca de 200 prédios, entre casarões, igrejas, fábricas e monumentos. O casarão que abriga atualmente o Espaço Cultural Almeida Junior foi edificado pelo Barão de Itu para sua residência com a família em 1850. O belo sobrado que sedia o Museu da Energia foi construído em 1847 também para uso residencial. Durante ao menos três séculos, Itu foi uma das mais importantes cidades paulistas.

Chácara do Rosário, marco da história de Itu. Foto Governo de SP/divulgação.

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