Estiagem revela ruínas de estação histórica coberta pelas águas em Rubineia
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Estiagem revela ruínas de estação histórica coberta pelas águas em Rubineia

José Tomazela

09 de outubro de 2021 | 14h52

A seca prolongada fez o Rio Paraná recuar cerca de 200 metros da margem e deixar à mostra parte das ruínas da antiga cidade de Rubineia, inundada após a construção da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira. Afloraram na paisagem as colunas de concreto da histórica estação ferroviária Presidente Vargas, a última estação paulista da estrada de ferro Araraquarense, inaugurada em 2 de outubro de 1952. No dia seguinte à inauguração, foi erguido um cruzeiro como marco da fundação da cidade.

Restos de construções, alicerces de casas e vestígios do antigo arruamento, além de troncos de árvores, também ficaram à mostra. Os afloramentos atraem moradores locais, curiosos para reconhecerem partes da cidade que estavam submersas, e turistas da região. Alguns procuram em vão relíquias da antiga cidade, como as placas de ruas homenageando poetas – entre eles, dois que eram vivos à época: Vinícius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade. Drummond escreveu o poema “Os Submersos” sobre a inundação da localidade.

É a segunda vez, neste século, que as ruínas de Rubinéia reaparecem no rio. Em 2014, durante outra longa estiagem que atingiu São Paulo, vestígios das antigas construções também ficaram à mostra. Ruínas da estação, que foi parcialmente demolida antes do alagamento, reapareceram também na seca de 1987. Conforme a prefeitura, a seca atual, a mais severa em 91 anos, já fez o rio recuar mais do que as anteriores. Se o Paraná continuar baixando, é possível que apareçam a plataforma e outros detalhes da antiga estação.

RESISTÊNCIA – De acordo com a historiadora Vera Helena Bressan Zveibil, autora do Guia Histórico e Genealógico dos Municípios Paulistas, a cidade surgiu durante o prolongamento da Araraquarense até o Porto Taboado, no Rio Paraná, divisa com o atual Mato Grosso do Sul. O primeiro imóvel construído foi o boteco “Fecha Nunca”, em 1951, para atender trabalhadores da ferrovia. As terras pertenciam a Rubens de Oliveira Camargo, que forjou o nome da localidade com a junção das primeiras letras do seu nome com “Neia”, o apelido de sua esposa, Nair.

Quando o município foi criado, em 1964, a Centrais Elétricas de São Paulo (Cesp) já construía a hidrelétrica de Ilha Solteira. As desapropriações começaram em 1967 e a ideia era transferir os moradores de Rubineia para a cidade de Ilha Solteira, construída mais ao sul para acomodar os trabalhadores da gigantesca barragem. O prefeito da época e outras autoridades mobilizaram os moradores que decidiram resistir e reconstruir a cidade em um ponto mais alto, fora da área a ser inundada.

Além de Rubineia, o lago inundou terras de Santa Fé do Sul, Três Fronteiras, Santa Rita D’Oeste e Santana da Ponte Pensa. A usina começou a funcionar em 1974. Uma ponte rodoferroviária foi inaugurada em 1998, sobre o Rio Paraná, ligando Rubineia a Aparecida do Taboado, no lado sul-mato-grossense, e a estação não foi reconstruída no lado paulista. Do histórico terminal restaram as ruínas que a seca está trazendo à tona.

A estação foi parcialmente demolida antes do alagamento. Foto Acervo Estações Ferroviárias.

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