Estiagem longa já causa racionamento de água em dez cidades do interior
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Estiagem longa já causa racionamento de água em dez cidades do interior

José Tomazela

17 de setembro de 2020 | 12h30

A estiagem prolongada expõe a fragilidade de sistemas de abastecimento em cidades do interior. Em algumas regiões, não chove de forma significativa há cem dias, segundo os serviços de meteorologia. Os reservatórios superficiais e poços estão com nível baixo. Moradores de ao menos dez cidades já convivem com o racionamento. Antes da seca, as prefeituras foram alertadas para buscar alternativas de abastecimento.
Em Sorocaba, o rodízio começou nesta quinta-feira (17), em bairros das regiões do Éden, Cajuru, Aparecidinha e Zona Industrial. Conforme o Serviço Autônomo de Água e Esgotos (Saae), o aumento no consumo até 50% acima da média e a falta de chuvas reduziram o nível das represas do sistema Castelinho/Ferraz, que abastece a estação de tratamento do Éden. As represas operam com menos de 20% da capacidade. Desde julho não chove o suficiente para repor a água que, também devido aos cuidados com a pandemia, teve a captação aumentada.
O rodízio prevê a suspensão do abastecimento por 12 horas diárias na região onde vivem 52 mil pessoas. “A autarquia verificou que se não forem tomadas ações neste momento, os dois mananciais correm o risco de chegar a um ponto crítico, impossibilitando a captação, visto que não há previsão, em curto prazo, de precipitações em volume significativo, que permitam a recuperação”, informou o Saae. A medida será revista semanalmente.
Em São José do Rio Preto, teve início o racionamento de água em 18 bairros abastecidos pela Estação de Tratamento Palácio dos Águas, que faz captação na represa municipal. A queda no nível do manancial levou o serviço de água a suspender a distribuição diariamente, das 13 horas às 20 horas. Cerca de 180 mil pessoas estão sendo afetadas. Devido à estiagem a captação precisou ser reduzida em 23%.
EMERGÊNCIA – A prefeitura de Valinhos decretou situação de emergência devido à queda no nível dos reservatórios que abastecem a cidade. Conforme o decreto, publicado no último dia 14, a estiagem severa e o aumento no consumo põem em risco o abastecimento dos 130 mil moradores. O documento autoriza a prefeitura a contratar sem licitação a compra de bens, materiais e produtos, inclusive água tratada, para evitar o colapso no sistema.
Conforme o Departamento de Água e Esgoto de Valinhos (Daev), a estiagem de mais de um mês provocou forte queda no nível das barragens do Moinho Velho, João Antunes dos Santos e das Figueiras. Nos últimos seis meses, a cidade recebeu 190 milímetros de chuva, quando o normal seriam 400 mm. A represa João Antunes está praticamente seca, com 2% da capacidade. Ao menos quatro bairros estão sendo abastecidos com caminhões-pipa.
Em Bauru, o rodízio começou na quarta-feira (16), atingindo o centro e 24 bairros das regiões altas da cidade. O fornecimento será suspenso durante o dia todo, mas em dias alternados. Devido à estiagem, a lagoa de captação do Rio Batalha atingiu o nível mais baixo do ano. A régua de medição registrou 2,23 m, quando o ideal para a época seria 3,20 m. Conforme o Departamento de Água e Esgoto (DAE), além da falta de chuvas, houve aumento no consumo devido às altas temperaturas.
Na região norte do Estado, em Bebedouro, a água já está sendo racionada em dois períodos, das 12 horas às 18 e das 23 às 5 da manhã. A longa estiagem que já dura mais de 100 dias fez os 22 poços que abastecem a cidade baixarem para níveis críticos. A última chuva boa caiu na cidade no dia 23 de maio. Uma lei municipal prevê multa de R$ 100 para quem for flagrado lavando carros ou calçadas.
Já a prefeitura de Barretos publicou decreto no último dia 11 instituindo multa de R$ 250 para quem desperdiçar água. A multa dobra em caso de reincidência. Agentes da Secretaria do Meio Ambiente e da Guarda Municipal já notificaram moradores. A cidade está há mais de 100 dias sem chuva e o nível do Córrego Pitangueiras, principal fonte do abastecimento, está com menos de 50% da capacidade. Para evitar o racionamento, o SAE realiza manobras na rede, mas moradores já reclamam da falta de água.
O serviço de água e esgoto de Araras, na região centro-leste do Estado, colocou caminhões-pipa à disposição de moradores de bairros que estão sofrendo com a falta de água. Segundo a autarquia, o problema é agravado pelo excesso de consumo. Na tentativa de evitar o desabastecimento total, são feitas manobras à noite para equilibrar a distribuição da água tratada. Outras cidades do interior, como Suzanápolis, Tabapuã, Uchoa e Araçoiaba da Serra já adotaram o racionamento ou medidas similares.
MANDAMENTOS – No início da estiagem, o Consórcio PCJ, que atua na região de Piracicaba, enviou alerta aos municípios para a adoção dos “mandamentos da estiagem” versão 2020, com recomendações para prevenir situações de desabastecimento. Conforme o secretário executivo Francisco Lahós, as prefeituras foram alertadas para mapear fontes alternativas de abastecimento, construir bacias de retenção de água da chuva e piscinões ecológicos em áreas críticas, além da adoção de medidas para evitar perdas na distribuição.

Represa Castelinho está com 15% da capacidade em Sorocaba. Foto SAAE/Divulgação

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