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Vivendo de sobras

Luiz Henrique Matos

02 de julho de 2021 | 08h50

Temos vivido de sobras. Nesse tempo em que tanto nos falta, em que tantos já nos fazem falta e a completude que sentíamos desfrutar no passado nos parece ceifada, temos aprendido a nos virar com as sobras. Um catado de coisas, esses remendos de atividades que se tornaram uma nova e temporária noção de rotina.

Sobra saudade de quem partiu.

Sobra um vazio no peito, falta um nome para isso, mas sobram as memórias. Porque faltam caminhos, sobra esse sentimento de impotência. Sobra a indignação diante da falta de respeito, de zelo, de honestidade, governo. Sobra o afeto diante do tanto que falta para que se possa ser repartido.

Sobra o quê se não tem diálogo?

Alguns repartem as sobras, outros dividem o que tem até quase lhes fazer falta, mas fazem sua parte para estender a mão a quem tem falta, sobretudo agora em que tanto falta. Outros não dividem, acumulam e acumulam e acumulam suas sobras – convenhamos, esses não fariam falta.

Só nos sobra esperança em meio a tantas notícias ruins.

Tem que nos sobrar um rastro de fé, um grão de mostarda que seja, diante de tanta incerteza, para que possamos mover as montanhas que nos assombram. E também sobra o amor, este sobre todas as coisas, entre as coisas que nos sobram escolher sentir.

Porque abundam sentimentos controversos quando falta tanto para tantos. Faltam escrúpulos, falta caráter, igualdade, justiça. Faltam palavras. Sobra tempo para refletir sobre muita coisa.

Sobra pouco tempo para salvar o mundo.

Estamos privados da liberdade que naquele passado remoto pré-pandêmico usufruímos sem valorizar. Estamos privados de abraços, de toques, de celebrações e momentos festivos. Seguimos escondidos de um inimigo cuja face não enxergamos. Sobram rostos sem máscaras, faltam discernimento e respeito. Estamos nus. Sobramos aqui, isolados, porém menos distantes do que deveríamos. Porque sobram cadáveres, meio milhão de nomes que agora fazem falta para alguém.

Sobram vítimas porque faltam vacinas. Sobra sempre para os mais fracos, para os pobres. Sobra dor. E o que nos sobra é levantar o olhar e seguir em frente.

Estamos vivendo dessas sobras.

Sobra um pouco de café na caneca. Gelado. Era só o que me faltava.

Sobre o quê estávamos falando?

Sobra uma máscara no rosto como refúgio. Sobrancelhas à mostra expressando o sentimento escondido. Sobra um punho cerrado em protesto. Sobra álcool no copo e nas mãos. Sobra vontade de gritar, mas falta quem nos escute. Sobra uma canção nos lábios, um fio de resistência poética, uma música de outros tempos que agora se faz presente, mas cuja letra me falta e sobram apenas versos incompletos sendo cantarolados desde a manhã por todo dia afora: “…amanhã há de ser outro dia.”

Falta o sentimento de amanhã, aquela velha e ilusória certeza, a previsibilidade da próxima semana, os compromissos para o mês que vem. Sobravam planos. Agora sobra apenas o que temos aqui e agora, vivendo o dia de hoje, sentados à mesa, nós quatro, compartilhando graças, trocando farpas, passando a travessa de arroz, servindo um copo de água um para o outro, testando uma sobremesa nova e tentando chegar a um consenso quanto às decisões mais complicadas de cada noite nesse microcosmo que habitamos: que filme veremos hoje à noite? De quem é a vez de tirar a mesa? Quem faz a prece noturna? Quem descer para passear com o cachorro não precisa lavar a louça?

Sob esse teto, temos um ao outro.

Sobra isso que somos. As sobras de que temos vivido e que por hora nos bastam. Ao menos hoje. Porque temos amor de sobra.

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