Vim. Vi. Venci?
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Vim. Vi. Venci?

Luiz Henrique Matos

10 Julho 2018 | 14h52

Vi que falta um texto por aqui. Faltam três, na verdade. Preciso atualizar meu blog aqui no jornal há três semanas, mas não consigo escrever nada durante as férias.

Curiosamente, os lugares com mais paisagens e experiências que supostamente deveriam ajudar a me inspirar, sempre são onde me sinto bloqueado.

Deveria escrever um pouco todos os dias, tal como recomendaram meus mestres. Mas acho que sou preguiçoso demais. Ou indisciplinado. Ou sem talento. Combine como preferir.

Estou em Roma agora. Sonhadas férias em família. Passamos antes por Veneza, por uma praia no mediterrâneo, Florença e por uns vilarejos na Toscana. Até a Lucy, nossa cadela que ficou em casa, escreveria um poema se estivesse aqui. Eu não.

Mas eu vi, semana passada, um pôr do sol enquanto estava recostado em uma mureta no alto de uma colina, de mãos dadas com a Manu, que valia por um soneto. As meninas brincavam de qualquer coisa ao nosso redor enquanto o mar castigava de leve as rochas logo abaixo e ouvíamos aquele som do vai e vem das ondas. No horizonte, a luz amarelo-alaranjada se impunha no céu e tingia todo o mediterrâneo de dourado. Ficamos ali, afortunados com a beleza daquela imagem, até o crepúsculo.

Eu vi também o sol nascer atrás de uma montanha da Toscana enquanto dirigia por uma pequena estrada vicinal. E sua luz iluminou plantações de uva, casas, construções medievais, campos de girassol e meus olhos que se encheram de lágrimas por poder contemplar aquela imagem.

Eu vi, com olhos incrédulos e míopes, telas de Michelângelo, Caravaggio, Da Vinci e tantos gênios que passei a crer na possibilidade de que Deus tenha marionetes nessa Terra em cujos ouvidos às vezes sopre ideias para dar vida à sua criação.

Eu não vi um jogo do Brasil contra o México durante a Copa, mas escutei a partida num rádio, sentado no alto de um morro de uma fazenda enquanto observava as meninas brincarem em uma piscina lá embaixo e comemorava contido os sofridos gols de Neymar e Firmino que recompensaram o sacrifício.

E depois eu vi, das cenas mais lindas, quando a Nina me pediu para brincar com ela na piscina e nadamos juntos até uma pequena cascata e ali, atrás da cortina de água, a luz refletia em seu rosto e seus olhinhos brilhantes de onze anos voltaram a ser os olhinhos de um ano. Aquele olhar, aquele de quando ela me encara sorridente como se aquilo ali, aquilo que vivemos no instante, bastasse. E para mim, basta. E pedi a Deus para não me deixar esquecer aquele momento nunca mais.

Eu vi o Brasil perder para a Bélgica por 2 a 1 em full hd, mas preferia não ter visto.

Eu vi uma construção monumental de dois mil anos em pé, vi afrescos estonteantes pintados em tetos de pequenas capelas, vi igrejas imponentes e cheias de tesouros e obras magníficas que impressionam o olhar mas ao mesmo tempo contradizem a simplicidade e singeleza do que, para mim, representa a presença divina. Vi pessoas de centenas de países circulando pelos mesmos monumentos que eu e ficava imaginando que conclusões ou pensamentos lhe ocorriam enquanto também viam lugares como aqueles pela primeira vez.

Eu vi que ainda sei tão pouco.

Eu vi que estou mais velho e me canso mais rápido agora do que em outras viagens. Mas aí vi idosos subindo escadarias mais rápido do que eu, vi outros idosos pedalando em ladeiras que só subi de carro e vi pessoas em cadeiras de rodas subindo montanhas sozinhas e prometi a mim mesmo (e agora a você também) que voltarei a fazer exercícios quando voltarmos para casa.

Eu já tô até vendo…

Eu vi a Manu em meus braços, olhando fundo em meus olhos, rindo das minhas piadas infames e andando lado a lado todos os dias. Nós nos vimos com os mesmos olhares de sempre e também vi que a vejo, ainda hoje, como a menina que conheci há vinte anos. Vi também que o futuro perfeito que sonhávamos juntos naquele tempo não chegava nem perto da vida que temos hoje. E vi mais uma vez que não importa onde estejamos, importa é que estejamos nós.

Eu vi escrito “dolce far niente” num muro e entendi tudo.

Eu vi coisas – prédios, igrejas, quadros, esculturas e cidades inteiras – que são maravilhas criadas pelas mãos humanas ao longo dos últimos vinte séculos. E lembrei que somos capazes de feitos incríveis quando nos unimos em um propósito.

Eu vi a Cecília caçar pombinhas numa praça em Veneza, pular calçadas imaginando que eram rios, rolar no chão poeirento, chorar a 150 decibéis e molhar os pés em fontes no meio de praças sem se dar conta do que se passava ao seu redor – ou, com o que é possível notar do que se passa quando se tem 70 centímetros de altura. E a vi parar num museu para contemplar um quadro ou outro, perguntar o sentido de uma obra de arte, me avisar que o Davi está pelado, estranhar um idioma diferente sendo pronunciado e parar no meio da rua para escutar o canto de um pássaro. E vi nela o que vi na irmã quando na mesma idade e que não importa o quanto dessas experiências elas se lembrem no futuro, importa mesmo é que elas as vivam e absorvam em suas mentes a beleza desse mundo rico, diverso, cheio de cores, sentimentos, paisagens e pessoas que habitamos.

Eu vi que já me estendi por aqui e que já passa da hora. Vi, que de todos sou eu que sempre ganho mais com essas viagens e retorno para casa com novos sentimentos, memórias e perspectivas.

Eu não vejo a hora de voltar e poder finalmente escrever alguma coisa.

Roma, julho de 2018.