Velhas memórias, novos olhares
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Velhas memórias, novos olhares

Luiz Henrique Matos

25 Maio 2018 | 08h22

“O Henrique”, minha esposa diz, “lembra até a cor das meias que estava usando no aniversário de seis anos”. Não é verdade. Mas eu nunca a corrijo. Porque não lembro das meias, mas lembro da festa, dos presentes que ganhei, da disposição da mesa, o bolo e cada uma das pessoas que estavam na cozinha de casa cantando parabéns enquanto eu era surpreendido pelo desfecho da trama sutilmente articulada por meu irmão e minha mãe. Isso é mais do que a cor das minhas meias (que provavelmente eu não lembro da cor porque não as usava).

Tenho uma memória muito boa. Mas, não é nada de que possa me orgulhar ou que tenha me rendido alguma vantagem, já que não se trata do tipo de memória que poderia me ajudar a decorar fórmulas matemáticas, a tabela periódica ou a função das mitocôndrias – três clássicos motivos de notas baixas no meu currículo escolar e disso eu me lembro bem.

Se me permite uma correção aqui, vou recomeçar o parágrafo: sou um sujeito carregado de lembranças. Cenas particulares, fotografias do passado e detalhes minuciosos povoam minha mente. Diria, quem sabe, que se trata de uma memória seletiva expandida.

A mais remota, da qual lembro das cenas e sensações é de quando eu tinha três anos. Três anos e dois meses para ser exato. E sei a data porque foi quando a Fê, minha irmã caçula, nasceu.

Lembro de estar em casa, mas minha mãe não estava em casa. Estava minha avó (que nunca estava lá em casa) e meu pai é quem preparava o jantar (e ele nunca preparava). E numa terça-feira bem cedo – o dia da semana, evidentemente, eu busquei na internet – saímos de casa para buscá-las no hospital.

Lembro-me de estar sentado no banco traseiro do carro, no lado direito, atrás do passageiro. Aos três anos, minha cabeça mal dava na altura da base do vidro, de forma que eu só conseguia enxergar, através da janela acima de mim, as coisas que estavam no alto e não a rua.

Meu pai nos deixou esperando no estacionamento da maternidade e foi buscá-las. Era fevereiro, um dia quente de verão. Com a cabeça encostada na lateral do carro, eu olhava lá fora o céu azul, a fachada do prédio do hospital, as centenas de janelas enfileiradas, e tentava descobrir em qual delas minha mãe estava.

Aquele era o mundo que eu via, era meu universo particular. E nem vi direito quando eles chegaram, minha mãe acomodou-se no banco da frente com uma trouxinha de panos onde estava minha irmã (pois é, senhoras e senhores, banco da frente, nada de bebês-conforto, nada de cinto de segurança, estávamos na década de 80 e vivíamos perigosamente) e não me lembro o que aconteceu depois.

Cecília, minha filha caçula, tem três anos e dois meses agora.

Não posso afirmar que esteja acontecendo algo tão espetacular em sua pequena existência nesse momento (como um pai atrapalhado preparando o jantar pela primeira vez ou uma irmã caçula nascendo) que a fará resgatar esse período em sua memória daqui 34 anos como um fragmento de sensações, mas admito que essa pergunta sempre me ocorre. De tudo o que ela enxerga agora, do que vai se lembrar quando adulta?

Nina, nossa filha mais velha, fez 11 anos há pouco mais de um mês. Vive todos os dilemas, dramas e alegrias de uma infância que vai acabar ali na próxima esquina. E, poxa, me lembro de absolutamente tudo em minha vida quando tinha a idade dela. E confesso que isso me dá um pouco de medo.

Me dá bastante medo, na verdade.

Recorro às lembranças em uma tentativa inútil de resgatar meus sentimentos e ansiedades na idade delas para tentar antecipar as coisas, poupá-las de sofrimentos desnecessários, ajudá-las em decisões sensíveis. Cada vez que a Nina conta sobre uma situação na escola, uma dúvida existencial, compartilha uma passagem do livro que está lendo ou traz um problema qualquer, tento me esforçar e entender que não é uma situação qualquer, não é mero detalhe do aconteceu no seu dia, mas possivelmente a maior questão que ela já tenha enfrentado. Assim como cada monstro que assombra o sono da Cecília, a altura da cadeira que ela desce receosa ou o copo de vidro que lhe escorrega das mãos.

Como era comigo? Eu penso. O que eu fiz quando enfrentei essa mesma questão? Sei que possivelmente isso não as ajudará em nada (que lhes importa saber que seu pai também já manchou o bolso das calças com canetinhas destampadas?), mas ajuda a mim. Minha memória me ajuda a compreender a proporção que essas coisas adquirem diante do olhar da criança. E começo a acreditar que me ajuda a ter empatia pelo sentimento de minhas filhas. Assim espero, ao menos.

Por outro lado, é um esforço inglório acreditar que isso lhes daria respostas de alguma forma. Porque olho ao redor e o mundo de agora é outro, a vida nos anos 10 deste novo milênio é outra, o cotidiano, a paisagem envidraçada e as telas que nos cercam, tudo é diferente. Elas são meninas, que observam o mundo cada uma a seu modo.

Há coisa de quatro anos, ainda na era a.C. (antes de Cecília), viajamos com a Nina para Paris. Depois de alguns dias, a Manu escreveu a nota abaixo em um post para nossos amigos e até hoje essas frases me voltam à mente quando embarcamos em uma nova viagem:

“Observar outros lugares, outras pessoas, outros ambientes pela perspectiva de uma criança, me encanta. Se não fosse por ela, não saberia quantos degraus existem em cada estação de metrô; quantos chicletes estão grudados debaixo das mesas de todos os cafés e restaurantes que passamos e não teria prestado atenção em tantas bitucas de cigarro nas ruas. Ela entra num museu e, além de curtir as obras ao seu jeito, fazendo os comentários que gostaríamos de fazer mas jamais teríamos coragem (“esse aí não desenhava bem, tá borrado!”), ela ainda repara em detalhes que não vemos – seja uma obra esquecida num canto, seja o excesso de placas de que é proibido, fumar, filmar, tirar fotos, falar alto, tocar etc. São outros olhos. E são olhos bons. Sinceros, amorosos, que buscam diversão, que nos perguntam em cada igreja ‘para quê tantas velinhas acesas?’. E o pai, preocupado em não deixá-la de fora, além de explicar pergunta se ela também não quer acender um vela. E a Nina responde, numa boa, ‘não, eu quero é apagar’”.

Em um mês faremos uma nova viagem em família e a parte mais legal é observar aqueles pequenos olhos curiosos contemplando algo novo ser revelado diante delas.

Confesso que há um consolo gigantesco perceber que seus olhares são distintos, que a montagem e o desenho que fazem do mundo é diferente e que elas perceberão o seu redor cada uma a seu modo. O que me atrai nessa forma como elas enxergam o mundo é que não o veem dividido. Não há pólos e divisões, crianças enxergam todas as cores, nuances e perspectivas. O universo magnífico, fantasioso e totalmente particular que só a infância proporciona.

O que posso oferecer como pai, mais do que um colo à noite e memórias parcas de três décadas (que elas adoram, registre-se aqui) é ajudá-las, de algum jeito, a adquirir perspectiva. Por isso, viajamos para lugares diferentes. Por isso, lemos histórias, criamos histórias e desenhamos histórias juntos. Porque, entenda, se eu não posso – e não quero – moldar o mundo que elas enxergam, quero muito poder ajudá-las a exercitar o olhar para o mundo que percebem.

São novas janelas, diferentes daquela no banco de trás de um carro. São horizontes amplos, é um futuro a ser alcançado sendo visto pelo parabrisas. Mas há um pai no volante, titubeante diante do destino, se arriscando na cozinha, há cheiro de comida no ar, há coisas novas acontecendo, há Deus se revelando singelo, há avós chegando e saindo de casa, há a mamãe cuidando de tudo, há novos dias começando a cada manhã.

Há memórias sendo construídas a todo instante, mas nem sabemos quando. Há momentos, desses bem cotidianos, que talvez as acompanhem para sempre e nem imaginamos quais são. Há uma vida inteira pela frente a ser desfrutada, há surpresas, tropeços, há terças-feiras cedo, as idas e vindas, festas, há mitocôndrias, elementos químicos e fórmulas matemáticas. Há páginas a serem preenchidas, traços a serem feitos, imagens a serem gravadas e eu espero que, de hoje, elas se lembrem muito mais do que das cores das meias que calçavam.

Eu me lembrarei.