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Turbulências

Luiz Henrique Matos

18 de setembro de 2019 | 21h44

Há gente no mundo – e conheço algumas – que apreciam certa melancolia e vivem com certo conforto em meio à tristeza. Há outros – e conheço muitos – que se não gostam da tristeza em si, gostam do escudo que ela se torna enquanto pretexto para sua imobilidade. Mas há aqueles, entre os quais me encontro, que tem dificuldade enorme em lidar com a contrariedade e a tristeza que certos fatos carregam, que ao engolirem as circunstâncias adversas o fazem deixando-nas ferir o íntimo e arranhar o esôfago. Qualquer garoa, para esses, vira tempestade.

Falando em garoa, fui de São Paulo ao Rio dia desses. Uma breve viagem a trabalho. Na volta, deixei o Rio quase ensolarado (quase, porque pousava apenas uma luz tímida sobre a cidade nesse dia) e me pus de volta para casa.

No trajeto, o avião planou em céu azul sobre as nuvens e eu, como toda vez que encaro essa cena, grudei a testa na janelinha da aeronave para contemplar as nuvens abaixo de mim, como se aquilo fosse uma mágica, uma inversão da minha lógica diária, que tenho por hábito olhar para o céu toda vez que estou na rua.

O piloto veio ao alto-falante e avisou sobre turbulências adiante. No horizonte, eu via aquela massa de algodão crescer e formar uma parede ao nosso lado e, aos poucos, uma muralha sobre nós, até que a aeronave mergulhou naquela imensidão branca e tudo o que eu via então era o branco pela janela e sentia um certo trepidar. De quando em vez, um raio de luz do sol atravessava e refletia sobre as nuvens e o branco intenso adquiria um tom platinado. Em outros momentos, o avião saia daquela massa de vapor e revelava novamente o céu azul, revelava alguma cidade lá embaixo, revelava que era tudo aquilo transitório, tudo o que se dissiparia em algum momento mais tarde com o cair da chuva sobre a terra.

Nos meus ouvidos, Nelson Freire tocava Chopin. As toneladas que seus dedos descarregavam sobre as teclas do piano às vezes batiam tão fundo e me elevavam a tal altura que era como deslizar entre aquelas nuvens.

Turbulências.

Outro dia, escutei em um podcast uma reflexão que dizia “O sofrimento tem a capacidade de fazer sumir o supérfluo em nossas vidas”. Tirar o que é desnecessário e deixar o que é essencial. Trepidações – que só depois se revelam momentâneas – filtram nossas prioridades por hora e ajudam a restabelecer as regras dali para frente. Há o que se aprender nessas horas porque tempestades, mesmo as mais brutas, em algum momento passam.

De volta à minha terra, ainda era dia quando o avião pousou. Tomei o táxi para casa, onde minhas meninas me esperavam. Tomamos café, trocamos abraços, caminhei com o cachorro, brincamos um pouco, vimos TV, aquela rotina dos dias úteis.

Em dado momento, abri uma janela. Fazia sol na terra da garoa.

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