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Tem um app pra isso

Luiz Henrique Matos

15 de maio de 2019 | 19h28

Comprei um carro novo há coisa de dois meses. O carro tem um sistema de bordo inteligente com telas e luzes por todos os lados. Ele mede coisas e fornece indicadores que eu nem sabia que precisava até conhecer e me viciar: estado geral do motor, nível de calibragem dos pneus, temperatura externa média, consumo de combustível durante a viagem, durante a semana e no longo prazo, além de velocidade média durante a viagem, a semana e o longo prazo também (ainda não descobri o que ele define como “longo prazo”, mas estou prestes a fazer uma pesquisa a respeito porque já não consigo viver sem isso). Tenho tantas informações na minha frente que gasto mais tempo analisando indicadores no painel do que olhando para a rua. Outro dia, me peguei curioso tentando entender porque, afinal, a temperatura média do óleo estava em 65 graus naquela manhã e na anterior chegou a 90, mesmo sem ter a mais pífia ideia do que isso significa.

Semana passada, estava a caminho da escola com minhas filhas e uma luz amarela acendeu no painel. Com a luz, um sinal sonoro estridente. Com o sinal, um ícone incompreensível (tenho que admitir que é um problema meu e não do designer, porque à exceção de emojis, nunca consigo interpretar ícones). Com o ícone incompreensível, veio uma mensagem alarmante na telinha à minha frente: “Atenção! Indicador de risco. Não siga viagem!”. Duas exclamações no espaço de um tuíte. Parecia grave mesmo. Cogitei estacionar e chamar o guincho, mas às seis e meia da manhã o serviço levaria duas horas e minhas filhas perderiam a aula. Então, eu, que aprendi a dirigir num Uno Mille vermelho semi-velho e com embreagem comprometida segui viagem até o colégio para desembarcar as crianças e estacionei no primeiro posto de gasolina que encontrei depois. Abri o manual do carro, segui até a página de indicadores do painel, mas não havia informações que me dissessem o que poderia ser o malogrado desenho piscando. No manual, uma orientação final: “Se não conseguiu esclarecer sua dúvida neste guia, consulte nosso app ou ligue para a central em 0800-ESQUECE”.

O app. Que eu não tinha instalado. Que comecei a baixar ali na hora. E que usei meu suado pacote de dados e mais 25 minutos daquela manhã inalando a mistura de aromas de combustíveis fósseis e esperando pelo download de 250 megabytes. E depois de instalado, fiz um cadastro em que me pediam nome, endereço completo, idade, e-mail e número do chassi do carro (o chassi, gente? Jura, gente? É óbvio que eu não lembrava onde isso estava escrito). E uma vez concluído o cadastro e aceitos os termos de uso e identificado a área de suporte e ter clicado nos devidos procedimentos e botões, recebi a orientação para que apontasse a câmera do celular para o tal ícone no painel e tirasse uma foto para que o sistema de inteligência artificial me dissesse do que se tratava o problema. Eu fiz. Deu erro. Fiz de novo. Deu erro de novo. Se o app era artificialmente inteligente, estava claro que o burro ali era eu. E na quinta vez, depois de um minuto ou dois processando a informação, uma mensagem apareceu na tela do celular com a reveladora orientação que evidentemente salvaria minha vida: “Calibre os pneus do carro”.

Um app, pra isso. Pois é.

“Ô, amigo”, gritei para o frentista que assistiu a cena toda em silêncio, “posso calibrar os pneus aí?”. Depois, comprei uns chicletes para não parecer que estava abusando dos serviços do estabelecimento e fui embora.

* * *

Meu celular agora tem uma função chamada Bem-estar. O seu também tem. Na verdade, é algo mais chique do que isso, eles chamam Bem-estar digital – estudos dizem que se você adicionar a palavra “digital” a algo, ele fica mais sofisticado. É um app. E ele te diz quando você está fazendo um uso abusivo do celular. Mostra indicadores que você nunca imaginou que precisaria, tais como a quantidade de vezes que você desbloqueia o aparelho no dia, quanto tempo gasta em cada app e a quantidade de notificações recebidas. Agora eu confiro o app todos os dias para medir se meu bem-estar digital no momento está mais para bem do que para mal. Várias vezes por dia, na verdade. O que, pensando bem, talvez esteja influenciando negativamente meus indicadores.

Tem um outro app que mede quantos passos eu dou durante dia, quantos minutos dedico a atividades físicas e as calorias que gastei. Ele compara os dados em dias, semanas, meses e mostra tudo em gráficos belos e animados. Se quiser, posso também medir a qualidade do meu sono – o sono leve e o sono profundo -, basta que eu durma com o celular embaixo do travesseiro (a Cecília, minha filha de quatro anos, dorme com coisas embaixo do travesseiro, já cheguei a encontrar uma dúzia de pedras, uma boneca e um urso que foram estocados ali em uma noite, mas isso é assunto para outra conversa). Tem um app também que calcula a qualidade das minhas refeições à medida em que eu fotografo meus pratos. Aí o app diz “ok, tem salada!” e eu fico contente com minha disciplina em montar pratos coloridos – mas às vezes me sinto tentado a fotografar o prato de um colega para ganhar mais pontos no joguinho (ah sim, tudo isso hoje em dia tem uma atmosfera de game para motivar essa nossa geração “não joguei Atari o bastante”). Tem ainda um app personal trainer com atividades físicas intensas de apenas sete minutos que prometem fazer em meu corpo o mesmo efeito que uma sessão de 60 minutos na academia, mas como nunca fiz sessões de 60 minutos em uma academia, eu tampouco faço as de sete. Tem um app que resume romances de 500 páginas em áudios de 12 minutos, mas eu não uso porque minha religião não permite e há um outro app que fica narrando frases em tom de voz zen para guiar sessões de meditação de dois, cinco, dez ou trinta minutos, dependendo de quão avançado for o estágio de atenção plena de cada um. Eu nunca consegui fazer mais do que dois minutos porque estranhamente meu nariz começa a coçar lá por 1:40 e eu perco a concentração (ou perco a falta de concentração, no caso).

Veja, eu já instalei e testei a maioria desses programas que prometem “otimizar” nossas vidas (tá aí outra palavra que pode elevar a conversa a outro nível quando bem ou mal usada). E fico me perguntando porque raios afinal usamos serviços complexos, que demandam um dispositivo para serem acionados, para que possamos realizar atividades tão elementares de nossas rotinas. Comer, dormir, repousar, caminhar por aí. Precisamos mesmo medir essas coisas? Precisamos mesmo ter um smartphone ou smartwatch pendurado no corpo o tempo todo? Imagino, às vezes, o que meus netos dirão quando souberem que agíamos assim nesses dias. Será mesmo que quanto mais sofisticados se tornam nossos dispositivos, mais idiotas se tornam seus donos? Smart devices for stupid people, cada vez mais dependentes de pequenas máquinas e serviços para quem delegamos uma parte do nosso cérebro que, honestamente, não precisaria ser desocupado desse tipo de atividade elementar.

Penso nisso tudo durante uma sessão de meditação guiada via app e, orgulhoso de minha epifania, peço para o assistente de voz do meu celular registrar no bloco de notas e não me deixar esquecer depois: “Ei, celular, adicione um lembrete para eu ler esse lembrete amanhã, por favor”.

* * *

Em frente ao prédio em que trabalho existem dois pontos de táxi. Um, fica do outro lado da rua e outro na rua lateral. Na maior parte do tempo, consigo observar dois ou três carros estacionados à espera de passageiros. Na calçada do escritório, a menos de 50 metros de cada ponto, geralmente quatro ou cinco pessoas estão paradas em pé, com seus celulares em riste, chamando táxis através de um app. Os carros nos pontos do outro lado da rua, recebem o pedido de corrida via app e atravessam a avenida para embarcar os passageiros.

Tenho um amigo que agora só pede comida via app. Pergunto sobre as vantagens. Ele diz que a principal é não precisar ligar. Pergunto sobre os restaurantes que descobriu com o serviço. Nenhum, ele diz. Não gosta de experimentar novidades. Continua pedindo pizza no restaurante que fica na rua da casa dele, de onde é cliente há mais de dez anos, para onde ligava às sextas-feiras e era atendido pela Dona Neide. A Dona Neide ainda dá conta dos pedidos na pizzaria. Mas agora ela acompanha tudo pelo app. A diferença, no fim, é que agora meu amigo paga dois reais a mais de taxa de serviço.

* * *

Hoje, existe app para comprar ingressos de cinema, para comprar passagens, para pagar contas, para receber dinheiro, para ler notícias, para jogar, para vender bugigangas, para brigar com familiares, para rever gente distante. A tecnologia é fantástica, melhora nossas vidas e muitos serviços surgem como resultado de uma transformação social para simplificar nossas rotinas atribuladas. O problema, é o uso estúpido que fazemos de certas coisas e essa maneira como nos deixamos seduzir pela ideia de que precisamos melhorar sempre, de que é necessário medir tudo incansavelmente e aprimorar todas as nossas atividades usando um recurso desnecessário.

Nem tudo precisa ser otimizado. Às vezes, é só a vida mesmo, só a rotina. Só ir até a esquina comprar pãozinho. Dormir, comer, rezar, se mexer, beber, brincar. Nada que demande mais do que seu corpo e mente. Não há coisas que demandem menos tecnologia.

Criamos máquinas para que trabalhem para nós e quanto mais elas aprendem conosco, mais nos assemelhamos a elas. Quanto mais eficientes ficamos, mais trabalhamos, mais produtivos queremos ser porque associamos trabalho a sucesso. Ou pior, passamos a acreditar em carreira como uma forma de identidade. Somos definidos por aquilo que fazemos e não mais por quem somos.

Há uma obsessão por produtividade. Sentimo-nos pressionados a ocupar de forma inteligente cada espaço de nossas agendas e cada instante de pensamento com algo novo. Mas, quando estamos ocupados demais com tantos estímulos, com tantas influências externas, abafamos o tempo de reflexão, esmagamos o silêncio da alma, calamos a voz interior que só emerge na ponderação, na contemplação e no raciocínio que voa solto antes de se cadenciar. As coisas que nos ajudam a adquirir uma dose de sabedoria afinal.

Precisamos de solitude, mas vivemos sob um ruído constante. Já disse Guimarães Rosa: “a gente vive tanto em voz alta que às vezes não se escuta”. É no interior que fala a nossa própria voz, é no coração que ecoa a voz de Deus.

* * *

Falando em interior, no último fim de semana, viajamos para o interior do estado para visitar minha sogra. Fomos no carro novo. Eu, contemplando o painel cheio de números e as meninas admirando a paisagem lá fora.

Uma luz acendeu.

Na casa da minha sogra tem um quintal com um extenso gramado, um canteiro de flores e três árvores. Em uma delas, centenas de passarinhos se empoleiram às cinco da tarde e fazem um barulho ensurdecedor e maravilhoso de piados por cerca de uma hora até que adormecem. Na outra, há galhos grossos que eram escalados pela Nina há dez anos e hoje são escalados pela Cecília, que ali se pendura e se acomoda logo pela manhã e de lá só sai eventualmente para cutucar as flores plantadas no canteiro, coletar pedras para sua coleção ou correr atrás das duas cadelas que ficam brincando pelo gramado. As horas não passam porque nem vemos as horas. E o tempo, nesses momentos, não se mede, ele se experimenta pelos sentidos simples: fome, sede, paz, sono.

Enquanto estamos lá, passo a maior parte dos dias sentado na varanda, entretido entre xícaras de café coado, conversas com familiares e as páginas de algum livro que é lido com religiosa preguiça. Dali, vejo as meninas brincando pelo quintal, escuto os pássaros se revezando entre as folhagens e atendo minha filha que chega ao meu lado com um monte de pedras toscas enquanto repete a frase que me diz diariamente em sua nova obsessão: “Pai, olha essa aqui. Acho que é uma pedra preciosa! Fique com ela de presente”.

Preciosidades. Guardo isso comigo. Uma luz, eu penso. Não, não tem app para isso.

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