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Só queria que as eleições fossem Copa

Luiz Henrique Matos

29 Outubro 2018 | 09h04

“Antigamente as coisas eram piores. Mas foram piorando” (Paulo Mendes Campos).

Naldo queria que as eleições fossem Copa do Mundo. Desejava que passado o jogo derradeiro, fosse bom ou ruim o resultado, que o povo se juntasse na segunda-feira para se recompor e seguir de novo a rotina, festejando a glória de mais uma taça ou compartilhando a fossa e o consolo de um ombro amigo. A euforia tem seu fim, o poço chega ao seu fundo, mas o dia seguinte estaria logo ali e a vida seguiria, com a temática do noticiário e nas conversas finalmente adquirindo outras cores. Mas Naldo vem dizendo que a vida segue em piorar, que as últimas semanas pareciam uma prorrogação sem fim desde que seu candidato nem passou do primeiro turno.

Dani queria que as Eleições fossem Carnaval. E o dia seguinte, uma quarta-feira de cinzas. Dia para curar o corpo, limpar a bagunça, retomar o trabalho e seguir em frente com as energias prontas para mais um ano que enfim começava nesse país. “Só o Brasil e a China tem seu Ano Novo em outras datas”, ela brincava. Ela queria que as lembranças dos dias que antecederam fossem só festa, serpentina e que gente em passeata na avenida fosse sinônimo de samba e axé. “Muito axé”, dizia Dani. Mas as madrugadas andavam frias demais e a batucada aqui e acolá tinha som de panelaço. Seu candidato estava no segundo turno.

Plínio queria que as eleições fossem um sonho. Desses que resultam de um dia estressante. Uma noite longa e cheia de solavancos, mas com certo alívio depois de um despertar assustado e de perceber que a realidade, a boa e velha realidade com seu chão sólido, permanecia inalterada. Mas ele vivia mesmo era um pesadelo, uma interminável madrugada escura em que pessoas se afastaram, ele viu seus valores serem colocados em cheque e ele próprio se questionava se estava mesmo apoiando uma visão de mundo coerente com o que sempre lutou. Plínio votou arrependido.

Alice queria que as Eleições fossem um churrasco com bebedeira. E a segunda-feira, só aquela ressaca insuportável, arrependimento, o sentimento de ter sido pisoteada por uma manada, mas a certeza de que amanhã tudo estaria bem. Mas, a família havia brigado, o clima andava azedo, nenhum candidato a representava e no dia seguinte, repetia Alice, as coisas não ficariam bem. Ela anulou os votos, todos eles.

Alice era casada com Plínio, que era irmão da Dani, que se casou com Mônica, que era amiga de infância de Naldo, que era casado com a Isa e pai de três filhos cujos melhores amigos eram os gêmeos de Plínio e Alice.

Naldo, Dani, Plínio, Alice e seus respectivos saíram para jantar no domingo à noite. Se encontraram no restaurante da Lapa que frequentavam já nos tempos da faculdade de Economia que fizeram juntos. Repartiram o pãozinho do couvert, pediram um vinho português e as duas pizzas de sempre. “Só queijo, tomate e orégano, sêo Julio, por favor”. E cada gole e cada garfada, naquela noite desciam acompanhados de um gosto amargo.

O jantar era uma tradição há 20 anos, mas fazia cinco meses que já não se encontravam e tão pouco falavam, desde que Naldo saiu do grupo de WhatsApp da turma, irritado com um comentário político do Plínio, que insistia em fazer campanha pelo seu candidato. “Não tem mais clima pra conversa”, ele dizia, “depois das eleições a gente se fala”. Depois mesmo. Foi o que Alice sugeriu em telefonemas e fez todo grupo concordar. Estariam juntos para jantar nos minutos seguintes ao fim da apuração do segundo turno. E como condição do tratado de paz, ninguém falaria de política.

Sentaram à mesa. Não havia assunto. “Puxa, o Antônio cresceu, hein? E a Tata, como tá linda!”. Não tinha outro tema que pairasse sobre suas mentes. “Quem diria que a Portuguesa, nossa Lusinha, iria cair para a terceira divisão?”. Existiam as contradições entre si, pairava uma nuvem com a incerteza quanto ao futuro sobre aquela mesa. “E essa bagunça com a mudança no horário de verão? Alguém mais perdeu a hora na segunda?”. As perguntas sem respostas que ninguém era capaz de fazer. “E lá no escritório, como é que tá?”. Eram explícitas as objeções às escolhas de cada um, a tentativa vã de compreender os motivos. “Trocou de perfume? Gostei do seu cabelo assim”. Mas, sabiam, eram eles ali, o que restava daquilo tudo. “Me passa mais uma fatia?”. Eram eles os cacos a serem recolhidos, como tantos outros espalhados no chão. “O que vai ser de nós agora?”. Restava, entretanto, o velho respeito, o amor, um olhar de cumplicidade de quem entende o que se passa com o outro sob a superfície. “Eu tava com saudades de encontrar vocês”. E residia ali, ao redor da mesa posta, a certeza, entre vitoriosos e derrotados, de que saíram perdendo todos eles no final. “Eu também, de verdade. A gente precisa retomar”. Porque a luz da vela sobre a toalha quadriculada era ofuscada pela sombra do longo amanhã que se projetava, porque sabiam que na segunda-feira e dali para frente as coisas não seriam as mesmas entre eles. “Semana que vem, todos aqui então. E, sêo Julio, tava tudo ótimo, como sempre”. Mas, ao compartilhar seu tempo e ao dividir o pão e trocar pequenos afetos e levantar suas taças para brindar, eles selaram outra vez um velho pacto de que, sob o raiar do sol pela manhã ou na longa noite escura, estariam sempre juntos.