Sí por supuesto
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Sí por supuesto

Luiz Henrique Matos

09 Agosto 2018 | 10h45

Sí por supuesto. Você terá muito pouco tempo. Não me parece que vai dar.

Eu estava em um aeroporto na Espanha há coisa de três anos, acho. Era mais uma viagem a trabalho e eu começava a jornada de volta para casa, partindo de um voo em Bilbao para Madri e depois de lá para São Paulo. Só no aeroporto é que me dei conta que o tempo de conexão entre um voo e outro em Madri era muito curto e que no horário previsto para o desembarque eu teoricamente já deveria estar na outra aeronave prestes a decolar.

Recorri a uma funcionária no balcão para tentar algum tipo de ajuda. Era uma senhora, seus 75 anos, que já havia me atendido antes.

– E agora, o que eu faço? Há algum outro voo de Madri para São Paulo depois desse?

No. Lo siento. Depois, só amanhã.

Poucas coisas são tão frustrantes para mim quanto não chegar em casa na hora em que eu esperava estar lá. Voos atrasados, congestionamentos na Marginal, ônibus quebrados, a fila na padaria no fim de tarde… o meu trajeto de volta ao lar, cotidianamente, é sempre uma ansiedade, é pura expectativa. Ele não tem a beleza da descoberta da ida, não tem a alegria do início da jornada, ele é só a volta, só o desejo de estar o quanto antes no refúgio ao qual pertenço. E quando isso é colocado em risco, eu travo frustrado.

A mulher notou meu desconsolo e emendou, em um tom maternal, enquanto devolvia meus documentos com um sorriso:

Mira, rapaz, você terá trinta minutos para sair de um avião e entrar no outro. Até lá, você não tem nada a fazer. Embarque, pegue seu voo e tente chegar a tempo. Se não der certo, se preocupar agora não vai adiantar nada. E se tudo correr bem, você terá se preocupado por cinco horas à toa. Vaya bien.

Dei razão a ela e segui em frente.

Gracias.

Eu poderia dizer – mas seria uma mentira deslavada – que seu conselho apaziguou minha ansiedade e me permitiu descansar livre de preocupações até o horário da viagem. Fato é que entre o tempo de espera e o voo em si, eu tinha quase cinco horas pela frente e tudo o que fiz nesse intervalo foi sentar na cadeira de um bar e beber três ou quatro cafés, o que acelerou meus batimentos de forma atípica, me fez piscar além do usual e contribuiu significativamente para piorar as coisas. “Sólo mañana”, eu pensava, “se perder o avião em Madri, só tem outro voo para casa amanhã”.

Durante o voo tomei outro café. E nas quase duas horas em que estive no ar, tamborilava os dedos no braço da poltrona, sapateava com os pés no assoalho da aeronave, estive com as costas afastadas do encosto da poltrona e antes mesmo de tocar o aviso autorizando a desafivelar os cintos de segurança, eu já me pus em pé (regra que obedeço religiosamente em todas as outras ocasiões) com a mala de oito quilos sobre a cabeça e me esgueirava entre os demais passageiros das poltronas mais abastadas à frente para tentar sair o quanto antes dali. “Com licença, excuse me, permiso, mi vuelo, por favor, please, I have a flight, desculpa, I’m sorry, meu voo tá saindo, excusa, foi mal mesmo…”.

Saí porta afora em carreira, mala na cabeça, mochila chacoalhando nas costas e centenas de miligramas de cafeína correndo nas veias. Eu corria pelos corredores tentando desviar de tudo, mas no fundo esbarrando em qualquer coisa no caminho. Caramba, como esse aeroporto é grande! Escadas, elevadores, escadas, filas, um trenzinho, corredores, lojas, filas intermináveis e escadas. Nos primeiros 100 metros nem o Usain Bolt me alcançaria, mas nos 2.500 seguintes é possível que mesmo com uma venda nos olhos e caminhando de costas ele seria mais rápido que eu.

Cheguei a tempo, no fim. Fui o penúltimo passageiro a entrar na aeronave, suado, com sede, apertado, uns dois centímetros mais baixo depois da pressão da mala sobre o pescoço, mas aliviado por estar a caminho de casa finalmente. Tinha mais dez horas de viagem pela frente, um livro na bolsa, uns filmes na tela e a certeza de que a Marginal estaria congestionada quando eu desembarcasse.

Pouco tempo depois, com a mente mais limpa, pensei naquela senhora enquanto fazia minha refeição. Ela tinha razão, eu teria sofrido menos se simplesmente seguisse o fluxo e esperasse as coisas acontecerem em seu ritmo. Poderia ter desfrutado aquelas horas de outra forma, mas perdi meu tempo com preocupações e cálculos inúteis. Certamente ela nem imagina que naquele dia criou uma memória em mim.

Eu não pensei nisso naquelas horas, mas até hoje, três anos depois, seu conselho me ocorre em momentos oportunos. Não nesses instantes emergenciais, mas em questões maiores e complexas da vida, quando um ou dois minutos de reflexão são possíveis. E me ponho a esperar as coisas ocorrerem a seu tempo.

Às vezes, eu acho, a vida é pura atitude e precisamos correr e realizar. Mas em muitos momentos, ela é só espera. E saber reagir ao que não posso controlar é um desafio enorme.

Tem a ver com um pé de lichia que plantei para a Manu no quintal da minha sogra e até hoje não deu frutos para ela poder comer, tem a ver com o São Paulo retomando a liderança do campeonato depois de cinco anos periclitando no rodapé da tabela, tem a ver com as eleições presidenciais chegando (o que ajuda, me diz, eu sofrer agora pensando na possibilidade de candidato X ou Y vencer o pleito em outubro? E o que ajuda o fatalismo que me assombra ao imaginar um governo desses?) e tem a ver com os meses que se revelam tão curtos cada vez mais.

Mas tem a ver, sobretudo, com questões da vida. Essa coisa particular, o microcosmo íntimo que ocorre entre as quatro paredes que habito e que de fato é o que importa em grande parte do tempo. O futuro das minhas meninas, sua segurança, sua educação, sua ética, seus anos que parecem uma tempestade que eu tento conter com as mãos. E enquanto lamento tantas vezes o fato de perder minutos preciosos de sua existência quando estou ausente, de não estar neste ou naquele dia, ou no futuro, para testemunhar momentos históricos da vida familiar, acabo deixando de aproveitar o tempo em que estamos juntos de verdade. Porque a natureza tem seus ciclos incontornáveis, porque a Deus não se apressa e nem se atrasa, porque o tempo, esse tirano, tem uma sincronia irritante.

Nesses momentos, rasgo o calendário, sento no chão e brinco, eu sento ao lado e escuto, olho nos olhos, entrelaço os dedos, percebo a quem pertenço e testemunho, grato, o quão desproporcional é a minha fortuna. São as horas em que as horas não importam. Alivio a carga dos ombros, deixo de lado as agendas, esqueço as possibilidades que se abrem diante do futuro e vivo aquele momento, só aquele, como tudo o que importa agora.

Lembro daquela senhora em Bilbao quando percebo que no meio da minha inquietude muitas vezes perco a oportunidade de contemplar o sagrado edificando sua obra ao meu redor, quando me conscientizo de que minha ansiedade não será capaz de antecipar os fatos, quando penso que daqui alguns anos olharei para esse instante e vou notar que aprendi algo valioso com a experiência que vivi. Há esperas que são necessárias afinal. E me esforço para lembrar de que sobre as coisas que não tenho controle, posso aliviar a bagagem, sentar à beira do caminho, erguer um altar e descansar. Por supuesto, eu posso.