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Sala de espera

Luiz Henrique Matos

12 de dezembro de 2019 | 08h15

Eu tento ficar alheio ao que se passa ao redor mas não consigo. Comprei fones de ouvido novos, desses sem fio e com recurso que cancela o ruído ambiente. Um luxo, uma bolha de isolamento social e de imersão. Mas não consigo. Eu interrompo a música, dou pause no podcast, porque me interessa mesmo é saber o que conversam as duas idosas sentadas no banco à minha frente na sala de espera do consultório.

É uma sala grande, eu conto sete sofás de couro marrom e aquele clima de lugar onde se fumava antigamente. Elas falam sobre a chuva que vai cair daqui a pouco, sobre a última visita à doutora, a médica que também cuidou da irmã de uma delas e sobre a dificuldade de andar pelas calçadas do bairro nesses dias.

Há gente no celular também. É epidêmico. A maioria dos que se espalham nos sete aconchegantes sofás, está submersa nas pequenas telas, passando os dedões pelo vidro.

Mas há um homem, talvez da minha idade, sentado quase à minha frente e ele não usa um celular. Ele não faz nada. Está parado, o olhar vagando pela sala, as vezes se fixando num ponto da parede, em uma pessoa, no chão por longos instantes. E eu me interesso ultimamente por observar pessoas que não usam celulares em salas de espera. Será que o pensamento está ocupado demais com coisas mais interessantes ou a mente está tão vazia que nem se dá ao trabalho de pensar em enfiar a mão no bolso e sacar o aparelhinho? Do que se ocupam as pessoas que não ocupam cada instante de sua existência com algum estímulo digital, que não alimentam o cérebro com a dopamina liberada pela recompensa de clicar, clicar e clicar o dedo em algum link?

Hoje, a caminho da clínica, o carro parou no semáforo e fiquei olhando um sujeito que guardava a porta de um comércio. Sentado numa cadeira virada para a rua, jornal jogado sobre o colo, a cabeça recostada na parede. Ele dormia. Centenas de carros e pessoas, patinetes e ônibus, bicicletas e motos passando logo em frente. E o sujeito dormia como minha filha quando desmaia no sofá da sala. Alguém então buzinou longamente. Era o carro atrás de mim avisando gentilmente que o semáforo estava verde e o carro da frente já estava uns 200 metros adiante.

A recepcionista chama a idosa para sua consulta. “Dona Rosa”, ela anuncia. A senhora não escuta. “Dona Rosa, pode subir”, ela repete. Mas a mulher não se move, continua na conversa truncada com a colega. “Dona Rosa!” outra vez e a amiga escuta. “Te chamou, Rosa”, “Oi? Não, não chamou. Não escutei”, “Chamou, sim, vamos lá”, “Será que chamou?”, “Chamou. Vamos lá ver”. Levantam as duas, com a vagareza de quem se desdobra. “Moça, você chamou?”, ela pergunta para a recepcionista. “Dona Rosa? Chamei, sim. Pode ir”. “Ela chamou mesmo”.

As velhas saem. O rapaz à frente continua imóvel. Um casal entra na sala e se acomoda. Trocam duas ou três frases e pegam os celulares.

Fecho o livro que já não estava lendo e pego o celular também. Começo a tomar essas notas e a recepcionista anuncia “Sr. Henrique”. Eu finjo que não escuto, quero terminar de escrever. Mas ela sabe que sou eu e chama outra vez. “Pode subir”, ela fala quando olho na direção dela.

“Qual é o andar mesmo?”, faço a pergunta que repito semanalmente há quase um ano. Tem informações que o cérebro já não salva. Deveria anotar no celular, eu penso. “É o 11 andar, senhor. Sala 1109, saindo à esquerda”. Para aliviar, tento uma piada: “Eu deveria vir é num médico pra memória, né?”. Ninguém ri.

Passo as catracas do prédio e chamo o elevador. No balcão da recepção, atrás de mim, um homem aparece e aborda o segurança: “Oi, boa tarde, eu vou falar com o Guilherme, ele é médico, tem um consultório aqui”. “O senhor é paciente?”. “Não, somos conhecidos”, “E qual é a sala, senhor?”, “Então, eu não sei”, “Sabe o sobrenome dele?”, “Hum… não. Eu sei que é Guilherme, eu já vim aqui”, “Seria o Dr. Guilherme Assis?”, “Não, não é Assis…”, “E o senhor lembra o andar?”, “Não. Mas o sobrenome… o sobrenome dele é… puxa, to quase lembrando”, “Seria o Guilherme Nascimento?”, “Não, não, também não é esse”, o homem lamenta. “Bom. Não sei como ajudar”, diz o segurança. “Olha”, diz o homem, “eu lembro de uma coisa. Eu não sei o andar, mas eu sei que quando saia do elevador, eu virava assim para esse lado aqui e aí a sala já estava ali, logo ao lado. Acho que era a segunda ou terceira sala. Ou a quarta também…”.

O meu elevador chega. Eu lamento. Queria saber para onde o homem iria. Eu iria atrás dele para presenciar o encontro se pudesse. Quem chega com tão pouca informação para visitar um médico para não se consultar? Mas alguém segura a porta do elevador para eu entrar. Me apresso. Penduro o crachá do prédio no passador da calça, ajeito a manga da camisa e agradeço a gentileza.

Então me dou conta de que ainda estou com os fones de ouvido nas mãos. Eu os acomodo na caixinha nova, guardo no fundo do bolso da calça e subo para minha consulta na 1109. “Oi, Henrique”, cumprimenta a doutora, “o que conta de novidade?”. Eu olho para trás. “Acho melhor eu escrever.”

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