Quando já não escuto os pássaros
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Quando já não escuto os pássaros

Luiz Henrique Matos

27 Setembro 2018 | 23h01

Estacionei a bicicleta por um minuto ou dois porque minha atenção foi capturada por aquele som. Olhei para o alto, mirei os menores galhos das árvores que se projetavam até o outro lado da rua e tentei encontrar o pássaro que cantava daquele jeito, aquele canto que nunca havia escutado.

Não foi a primeira vez que me vi interrompido por um pássaro. Minha vida toda foi assim, mas só recentemente me dei conta desse comportamento involuntário. E admito que comecei a desfrutar esses pequenos momentos.

Por motivos de hereditariedade, trago essa mania de meu pai. Andando na rua, pedalando, parado numa mesa de restaurante, basta que um passarinho comece a piar nas redondezas e minha atenção se desvia. Diferentemente do meu progenitor, no entanto, não sou capaz de distinguir raça, estilo ou gênero dos bichos. Meu pai nasceu com a base de dados da Grande Enciclopédia das Aves implantada em seu cérebro, com aquele tipo de ouvido absoluto para pios e cantos, de forma que balbucia “É um Curió” à meia-voz quando um desses se manifesta. Eu, enquanto isso, mal posso distinguir o chamado do Sabiá de um Sanhaço. Mas, escuto passarinhos e tenho um prazer contido em deixar a mente ser levada por um instante na direção daquele som.

Há um grande campo ao lado do prédio onde moro e às vezes, enquanto escrevo durante a madrugada, posso escutar uma revoada de centenas deles nas copas das árvores. Já cheguei também a gastar uma hora ou mais sentado em um parque, observando pássaros reunidos em pequeno lago e depois ser presenteado com seu voo desordenado até que finalmente se agruparam e voaram sobre minha cabeça naquela formação em M e migraram para o oeste. Em outra ocasião, estacionei minha bicicleta no meio da Cidade Universitária para poder ouvir, por cinco minutos, o canto de uma espécie que me era nova.

No fundo, isso não me diz nada. Não há uma mensagem aqui, uma moral, não há contemplação programada, é só um hábito meu, quase instintivo, de escutar aquele som por um tempo e seguir adiante pelo dia. Mas há uma coincidência que envolve o estado de espírito em que tais ocasiões ocorrem.

Porque há, no entanto, períodos em que meus ouvidos se fecham. E eu passo pelas mesmas ruas, caminho pela mesma via e ando com a Lucy pela calçada e sento nas mesmas mesas, mas só ouço os ruídos de sempre, as vozes, motores, as mensagens em minha mente sobre o que se deve fazer agora, sobre os compromissos de amanhã, os conflitos políticos, a crise, sobre as preocupações, martelando um turbilhão de afazeres que parece não ter fim. Já não há passarinhos cantando quando o fluxo da rotina se converte na inércia em que me permito habitar, quando a vida é só existência, quando a rotina perde seu encanto e vira repetição tola.

Nem chego a buscar um antídoto porque não noto tais desvios. Fica lá dentro aquele incômodo, fica a sensação de que tem algo errado, algo faltando na vida quando me permito viver nas condições em que há coisas demais, há estímulos em excesso, quando falta o ócio necessário, não há música, não há brisa e não sobra espaço para eu poder me distrair.

É quando outros cantos também silenciam. Quando brincar com minhas filhas no chão da sala vira só obrigação paterna e não a hora mais legal do dia, quando as “surras de cócegas” antes de dormir duram um calculado minuto e não uma era inteira, quando a saída de casa pela manhã para ir à escola vira pressa, só pressa e uma pressão para que elas se arrumem logo, para que comam logo, para que andem logo e o carro fica em silêncio até chegar ao colégio. É quando o café da manhã em casa com a Manu vira só o tempo para resolver pendências e não os momentos para dividir nossos sonhos. Para mim, os dias sem distração são os mais frios e distantes. Nos dias em que a mente não tem espaço para vagar pelo nada, é o tempo em que o corpo se distancia do momento e sinto que eu deixo de estar presente para aqueles a quem mais amo.

Minha filha mais nova, a Cecília, curiosamente herdou a mania dos passarinhos. E desde seus primeiros meses, quando a levávamos para passear na rua em seu carrinho, ela fixava o olhar em um ponto no céu ou em uma árvore quando ouvia o canto de um pássaro. E ainda hoje, aos três anos, repete esse gesto e nem percebe. Ela pode estar correndo no parquinho, determinada a alcançar algum amigo durante um pega-pega, mas basta um Quero-Quero piar mais alto noutro canto e ela pára e observa. Seu vocabulário ainda não é suficiente para eu dizer se a enciclopédia do meu pai que me falta veio em seu sisteminha, mas o gene está lá.

E vem dela e da Nina, geralmente, minha cura. Quando me afasto, quando me afeto, vem delas a fagulha que me desperta. Porque a Cecília pára para contemplar pássaros e pára para observar formigas, para colher flores, colecionar pedras e pular em poças de água. E não há pressa, não há agenda e nem ansiedade que resistam ao ímpeto de uma garotinha ruiva cedendo aos encantos da vida brotando em um buraco na calçada. Os pássaros cantam para minhas meninas, eu acho. E porque a Nina, se não os escuta assim também, voa como pássaros em sua imaginação contemplativa e seu olhar que admira o nascer do sol pela manhã, os primeiros raios cruzando pelas frestas das árvores em nosso caminho. E ela adora aquele farfalhar das folhas quanto bate um vento e ela adora o vento lhe soprando o rosto enquanto gira na brincadeira, enquanto desliza com seu patinete e enquanto balança no parquinho com os olhos fechados, o sorriso estampado e finge voar como um pássaro também. Ela escreveu um poeminha sobre o vento soprando em seu rosto certa vez. A Cecília às vezes finge que sabe assobiar só para imitar os passarinhos que escuta. E são elas, crianças, quem em geral vivem nesse estado de contemplação poética, essa alegria, essa pureza infantil que nos desperta, a seu jeito, para a maneira certa de enxergar e perceber a vida aqui e agora.

Hoje cedo, enquanto caminhava com a Lucy na rua, o canto de um Bem-Te-Vi me chamou atenção.