Primeiras palavras
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Primeiras palavras

Luiz Henrique Matos

11 de outubro de 2020 | 10h00

Estava sentado na cozinha tomando um café e conversando com a Manu quando Cecília, nossa filha mais nova, chegou com um pedaço de papel dobrado nas mãos.

– Pai, olha, eu escrevi uma história.
– Jura, Cici? Que máximo! Quero ver.
– Tó. Lê pra mim?

Olhei o conteúdo com atenção: uma página de caderno pautada cheia de rabiscos e bolinhas cuidadosamente enfileirados por quase 10 linhas. Tentei me esquivar.

– Filha, leia você. Foi você que escreveu, né? Quero saber o que tem na história.

Sem mais, ela rejeitou o papel dizendo:

– Pai… eu já sei escrever. Mas ainda não aprendi a ler.

De uns tempos para cá, ela tem reclamado que não sabe ler. Conhece as letras, junta umas sílabas aqui e ali, escreve nossos nomes e algumas coisinhas, mas vê a irmã mais velha devorando tijolos de 400 páginas no quarto à noite e corre com seus livrinhos em mãos indignada:

– Por que só a Nina sabe ler e eu não?!
– Você ainda vai aprender, Cici. A Nina já tem 13 anos, você tem cinco. É por isso que você vai à escola.
– Mas eu não quero aprender na escola! Eu quero saber ler hoje.

Ela não quer que a gente leia as histórias para ela. Ela não quer estudar o abecedário ou ser guiada por métodos fônicos ou globais. Cecília quer ler, por download, upgrade de software, osmose ou milagre. Às vezes, finge que sabe, pega um livro, senta no sofá, abre numa página aleatória e fica narrando em voz alta uma história inventada para si mesma.

Eu lembro dessa fase. A atitude dela nesses dias me leva num mergulho também em meus quatro ou cinco anos, na Era pré-Xuxa, nos Anos Bozo, pouco antes de ingressar na escola, e eu tinha inveja do meu irmão mais velho por dois motivos: ele tinha um par de Kichutes (cujo cadarço era tão grande que daria uma volta completa no quarteirão) e lia gibis sozinho deitado no sofá da sala à tarde. Minha mãe, ao lado dele, se entretia com agulhas de tricô e livros. E mais do que aquelas agulhas enormes tilintando e fazendo nós em fios de lãs, eram os livros que me intrigavam. Queria entender o que aquele monte de letras enfileiradas significava.

– Mãe, o que você está lendo?
– A gata triste – ela disse.

Achei estranho. Ela lia vários livros sobre aquela pobre gata infeliz. Anos mais tarde, escutei uma referência sobre os 79 livros publicados pela escritora inglesa Agatha Christie e dentro de mim um enigma pendente se resolveu finalmente.

Tal como minha filha, aprender a ler foi uma ideia fixa que me acompanhou na primeira infância. Sozinho, me distraia juntando as letras. Tenho lembranças nítidas do dia em que invadi o banheiro onde estava minha mãe com a descoberta que mudaria tudo dali para frente: “Mãe, se V com A dá VA e C com A dá CA, então se eu juntar VA com CA dá VACA?”.

Naquela hora, viajei dali para outro mundo. E um universo inteiro, novo, de páginas e histórias, se abriu para mim.

Mary França e Eliardo França foram os autores dos primeiros livros que consegui ler sozinho, mas “O Menino Maluquinho”, em uma edição que guardo até hoje, foi minha primeira conquista ao terminar um livro com mais de 20 páginas — o que soaria como concluir uma maratona para alguém acostumado a fazer caminhadas. Naqueles tempos, o Magnum, o Careca e o Ziraldo eram uma espécie de heróis para mim. O Ziraldo ainda é.

Desde então, não tenho lembranças de andar sem ter um livro como companhia.

Quando Nina nasceu, Manu e eu líamos histórias para ela à noite, a presenteávamos com livros de todo tipo e eu nutria um desejo quase obsessivo para que ela se tornasse uma leitora. Nunca disse isso em voz alta, mas sinto que minhas filhas podem até rejeitar todo meu legado como pai (devo ter algum, eu acho) mas não ser uma leitora voraz não é uma opção. E Nina não desaponta. No último dia dos pais, me escreveu uma cartinha onde, entre versos e votos, consta uma frase assim: “obrigada por me mostrar mundos em livros”. Ela tem desbravado seus próprios mundos agora.

Por isso, quando vejo a Cecília andando pela casa com uma pilha de livros nos braços, descaradamente extraviados do criado-mudo da mãe (maior vítima de seus assaltos literários) e tentando decifrar os códigos passando os dedos miúdos sobre as palavras naquelas páginas, penso com gratidão no privilégio de nossas filhas por ter acesso a livros desde cedo. E, com um sorriso incontido, penso no momento em que VA e CA se unirão em sua mente no estalo definitivo. Há muita coisa nisso.

Palavras são o principal instrumento pelo qual nossa espécie se comunica. E desde que surgiu há cerca de 6.000 anos, o registro escrito de experiências e ideias têm sido a principal forma de perpetuação de aprendizados, histórias, sentimentos e desejos. O que surgiu como forma de transmitir informações na parede de uma caverna ou no casco de uma tartaruga, é agora também uma expressão artística.

Minha filha não está errada. Ela quer compreender e desbravar novos mundos. Talvez entenda, de algum jeito, que há mistérios a serem decifrados ali. Que tem um rito de amadurecimento e um certo poder em saber ler. E certamente ela vai descobrir quão longe sua imaginação pode levá-la à medida que for tocada pelo poder das palavras e transportada para lugares novos através de um simples virar de páginas. O que, no caso dela, será quase um reencontro, porque a infância carrega em si essa pureza da expressão, um deslumbramento que a arte é capaz de nos dar e que perseguimos vida afora.

Há muito dessas crianças em nós. As que fomos um dia, as que desejamos ter sido, as que carregamos nas lembranças distantes. Há essas duas crianças ao nosso redor, nossas meninas crescendo, motivando nossas preces, nos deslocando do eixo e em quem projetamos tantas exageradas expectativas. Há o desejo de que possam crescer e se tornar mulheres felizes e saudáveis. Há em nós, mãe e pai, o sonho de vê-las seguirem a vida fora de nossas asas, para além do que nós seremos capazes de ir, voando mais alto do que o limite que alcançaremos e lendo Guimarães Rosa com a alegria estampada nos lábios.

Poucas coisas são tão belas do que testemunhar uma criança aprendendo algo novo. Talvez esse seja um presente inerente à paternidade. E nesses instantes, quando os olhos delas se abrem, acende em nós aquele desejo de que a partir dessas descobertas elas passem a viver suas próprias histórias, que se tornem protagonistas de sua existência, que sonhem e sonhem, que lutem por nobres causas, que criem para si novos reinos, novos planos, universos inteiros de possibilidades que surgirão à medida que descobrirem o mundo e traçarem, a seu modo, as primeiras palavras em uma página em branco.

* * *

NOVO LIVRO

Desde que aprendi a ler, comecei a inventar histórias. Há alguns anos, comecei a trabalhar no desejo antigo de tentar escrever livros como os que um dia me levaram a gostar de ler. A primeira dessas histórias está sendo publicada neste mês. O título é Nem que a vaca tussa e conta a história de Cuca, um menino de oito anos cujo pai mantém uma linda coleção de brinquedos antigos com os quais ele não pode brincar. Essa foi das primeiras histórias que a Nina leu, ainda enquanto eu a escrevia. E meu desejo é que seja também a que Cecília vai ler, quando conseguir finalmente formar as palavras com as quais se intriga nesses dias.

Sai pela Cortez Editora, com ilustrações do querido amigo Flavio Remontti. Está em pré-venda na Amazon (neste link) e no site da Cortez (aqui, com desconto de 40% até dia 12/10). E a partir do dia 20/10, estará a venda em todas as livrarias. No dia 24/10 está programada uma tarde de autógrafos na Livraria Martins Fontes da Avenida Paulista. Mais detalhes e atualizações lá no Twitter (@lhomatos).

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