Primavera, poesia e livros como presentes
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Primavera, poesia e livros como presentes

Luiz Henrique Matos

21 de dezembro de 2018 | 19h51

Tem circulado nas minhas bolhas uma mobilização entre os amigos incentivando que sejam dados livros como presentes neste Natal. Alguns o sugerem como forma de celebrar e incentivar a leitura, outros como caminho para ajudar a fomentar o mercado editorial no Brasil que anda em crise – no resto do mundo, o cenário é diferente e o consumo de livros, especialmente impressos, tem crescido, enquanto no Brasil, dada a crise pela qual passam país, livrarias, editoras e cidadãos, as vendas de livros padecem.

Acho a campanha um tanto piegas. Quem gosta de livros, afinal, já os compraria de qualquer forma. E quem não tem por hábito ler, não me parece que será incentivado a mudar em função de um movimento na internet. Mas como sou um bocado influenciado quando leio em redes sociais coisas que endossam meus interesses, me animei e propus à minha esposa que aderíssemos.

Fiquei com a incumbência de comprar para as crianças da família – leia-se filhas, sobrinhos e afilhados – livros adequados às suas idades e estilos (bem, aos meus irmãos e compadres que eventualmente me leem por aqui, peço desculpas pelo spoiler natalino). Crianças, afinal, são o objeto de nossa tentativa de exercer alguma influência positiva no mundo. E com estímulos eletrônicos por todos os lados, ganhar livros pode ser uma boa chance de conexão com outro tipo de universo.

“É sopa”, pensei, “me dê 15 minutos numa livraria e eu resolvo tudo”. Mas ignorei meu retrospecto em livrarias ao pensar tal coisa. Ignorei, sobretudo, meu retrospecto sozinho em livrarias. E fato foi que duas horas zanzando pelos corredores e folheando exemplares não bastaram para eu comprar os presentes que gostaria. Acabei comprando mais livros do que temos de crianças para presentear e mais da metade eram histórias que eu mesmo gostaria de ler.

Porque comprar livros exige tempo. Foi o que pensei ao final das compras, ainda na livraria, enquanto sentava para um café. Não estou romanceando a questão, mas a escolha é um ritual. Ao dar um livro, você endossa aquela história como algo ao qual acredita que o outro deveria dedicar suas horas, dias, às vezes algumas semanas. E o faz porque confiou na sua sugestão. Você não dá a alguém de quem gosta um livro que desaprova. De preferência, deve dar um livro que já leu e sobre o qual gostaria de conversar depois (se não pensa em conversar depois com a pessoa, não deveria dar presente, né?).

Com as meninas em casa, o legado da leitura é levado à sério. Temos uma estante com alguns exemplares, temos livros nas cabeceiras das camas, deixamos sempre algum na sala. Em casa, só lemos livros de papel para que talvez o exemplo crie nelas o desejo de ler também (tenho um Kindle, que até uso bastante, mas só o ligo depois que as crianças já dormiram ou em viagens a trabalho). Tem funcionado, devo dizer. Assim como funcionou para mim observar minha mãe passar algumas tardes às voltas com romances policiais de Agatha Christie, minha tia nos levar para passear em feiras de livros e bancas de jornais e a professora que nos levava todas as terças para uma rodada de histórias na biblioteca perto da escola.

Isso tudo me vinha à mente enquanto eu relia as páginas de um livro do Ziraldo trinta anos depois de tê-lo em mãos pela primeira vez. “Acho que ele vai gostar desse”, concluí enquanto o separava para um sobrinho.

Entre os livros que cogitei comprar estava um do Rubem Braga. Edição nova, bem acabada, compilando algumas de suas célebres crônicas sobre o Rio de Janeiro. Aleatoriamente, li Recado de Primavera, texto que escreveu para Vinicius de Moraes, que morreu naquele 1980, ano em que nasci. Ele termina a crônica dizendo “O tempo vai passando, poeta. Chega a Primavera nesta Ipanema, toda cheia de sua música e de seus versos. Eu ainda vou ficando um pouco por aqui – a vigiar, em seu nome, as ondas, os tico-ticos e as moças em flor. Adeus.”

Ali, sentado na mesinha da livraria, cercado de livros infantis, sem motivo me emocionei.

Eu bem quis comprar aquele Rubem Braga. Seria presente para mim. Ou talvez até o desse para alguém querido e depois pediria emprestado. Mas seria trapaça. Além do mais, ainda sábado comprei uma HQ nova, edição especial. Ainda semana passada, adquiri um livro que cobiçava há meses. Ainda outro dia, talvez na véspera daquele, deixei uns tostões em dois e-books que estavam em promoção.

Me custou mais caro deixá-lo de lado, mas levantei decidido, peguei os outros, conferi se a lista de crianças batia com a de livros, paguei, pedi para embrulhar e sai da loja pensando nos livros, no Ziraldo, Vinicius, em Rubem Braga, Peter Pan e nas histórias e paisagens que já frequentei nessas páginas e que praticamente compõem a saga que vivi.

No fim, não ganhei o livro, mas ganhei essa tarde, a lembrança, ganhei uma crônica que deixo para trás registrada como um recado dessa Primavera que já se vai.