Papel passado
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Papel passado

Luiz Henrique Matos

26 Julho 2018 | 12h35

Não tem nada a ver com minha viagem recente, mas o fato de ter voltado de lá há pouco mais de dez dias me fez lembrar de uma notícia que li no The Guardian por esses dias a respeito de um carteiro italiano que foi preso após a polícia encontrar em sua casa cerca de 400 kg de cartas não entregues. Segundo o próprio, ele ficou três anos sem entregar as correspondências como forma de protestar contra o baixo salário que recebia.

Me espanta saber que na era do WhatsApp e outros mensageiros, quando o fax já desapareceu e até o e-mail já é dado como morto, ainda exista tanta gente que se encarregue de postar cartas à moda antiga. E há quem entregue. Chego a suspeitar do motivo real do Jaiminho italiano, acreditando que pretendia, no fim, tentar provar o valor e sua função. Ou talvez seja ele um nostálgico, entusiasta da velha arte da escrita à mão, temendo pelo fim do meio em que atuava.

Ano passado, durante uma semana de férias no interior, fui com a Nina a uma agência de correio. Ela queria enviar uma carta para uma amiga que mora fora do país e insistia que fosse do velho jeito para poder mandar uns desenhos e enfeites no papel. Demorei para descobrir onde tinha um local para isso. E uma vez no local, senha chamada e envelope em mãos, até a funcionária da agência, uma senhora já com seus 70 anos, se surpreendeu quando eu disse que não estávamos ali para pagar contas ou recarregar o celular. Ela então abriu algumas gavetas atrás do material necessário, depois pesou a carta, calculou o preço, picotou os selos e nos cobrou a postagem. E o envelope ficou lá, à espera de quem o levasse de Itapeva, de ponto em ponto, até um apartamento em Long Island City, em Nova York. Fiquei pensando no trabalho dos carteiros e a Nina ficou animada com a existência dos selos e seu propósito.

Tendo em vista que uma carta simples pesa entre 250 e 400 gramas, estimo que o carteiro de Turim guardava algo como 1.300 cartas. E por três anos, me intriga pensar, entre as centenas de panfletos e cobranças empilhados na casa do sujeito, também foram abandonados pedidos de desculpas nunca recebidos, notícias de familiares distantes dando conta do que se passava noutras terras. Ficaram perdidas as declarações de amor de um casal à moda antiga e cheios de pó os cartões postais dos avós para um neto contando da última viagem. Fico pensando quantos casais romperam relações acreditando que o silêncio entre eles era o penoso sinal de que as coisas já não eram como antes. E quantos outros, talvez, não deixaram de se formar com o remetente se consolando com a ideia de que vivia um amor platônico enquanto o lado destinatário até lhe correspondia o sentimento, mas esperava, a seu jeito, alguma iniciativa.

Quantas contas não pagas, conflitos evitados, convites não atendidos, promoções perdidas, quantas aprovações de emprego não confirmadas, quanto dinheiro parado?

E nesses últimos anos, para as pessoas cujos nomes constam naqueles envelopes, talvez a vida tenha seguido equivocada, incompleta, mal entendida e acontecendo em um rumo que possivelmente não aconteceria caso as mensagens tivessem chegado em tempo a seu destino. Tudo aquilo que poderia ter sido, mas jamais saberiam.

Até agora, pelo menos. Porque o correio promete que mesmo depois de tanto tempo fará a entrega das cartas atrasadas.