As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Os jardineiros da Escandinávia

Luiz Henrique Matos

01 de março de 2019 | 22h31

Na Dinamarca, a diferença de renda entre uma pessoa na base da pirâmide social e a que figura entre as mais prósperas é de apenas quatro vezes – o dado consta em um estudo da OCDE que li há poucos dias. E muito disso se deve ao fato de os limites serem mais curtos, já que ninguém recebe salários excessivamente altos e ridiculamente baixos. Esse nível tão baixo de desigualdade coloca o país escandinavo na posição de segunda nação menos desigual no mundo.

A título de comparação – e chegando no que nos toca – no Brasil, segundo o IBGE, a diferença de renda entre os mais ricos e os mais pobres chega a 36 vezes. Esse abismo é o que nos coloca na outra ponta do ranking e nos confere a condição de nono país mais desigual do mundo. Com um detalhe agravante: os 50% mais pobres em nosso país não contam com uma renda mensal suficiente para uma vida digna (R$ 747 em média, menos de um salário mínimo) como recebem os mais pobres da Dinamarca. O IBGE diz ainda que no último ano a renda do 1% de brasileiros mais ricos cresceu, enquanto os mais pobres ficaram ainda mais pobres.

Fiquei pensando nesses números enquanto conversava com a Nina, minha filha mais velha, outro dia sobre outra questão. Ela me perguntava sobre meu trabalho e tinha curiosidade em saber o que eu gostaria de fazer durante o dia se não fizesse o que faço hoje. Hum. Me perguntou ainda se a faculdade que cursei tinha mais relação com o que eu faço ou com o que eu gostaria de fazer. Hums.

Tive que explicar que em nosso país a maior parte dos que tem o privilégio de cursar uma universidade, faz essa escolha considerando não apenas sua vocação, mas principalmente o potencial de renda que aquela profissão pode lhes garantir no futuro.

“Por quê?”, ela perguntou.

Bem, aí minha filha de 11 anos e eu emendamos uma conversa sobre privilégios, o mercado, injustiças, desigualdade, vocações e sobre as pessoas que podem escolher o que querem fazer com seu tempo entre oito da manhã e seis da tarde. Como, por exemplo, os cidadãos dinamarqueses.

E daquele dia em diante, tenho preenchido parte do meu tempo nas ruas observando outras pessoas exercendo suas profissões e pensando se o fazem com algum senso de realização. Venho tentando imaginar também se, excluindo a questão do talento – ou a falta dele – eu poderia preferir fazer algum daqueles trabalhos em vez de fazer o que eu faço cotidianamente há 23 anos. O balconista do café, o motorista de táxi, o cabeleireiro, a dona de uma floricultura, o dono da imobiliária, o balconista da livraria, o professor universitário, o padeiro, o jardineiro… pessoas com quem costumo cruzar no caminho para o trabalho e que vêm passando pelo escrutínio da minha análise.

Veja bem, não estou aqui oferecendo meu currículo publicamente (importante mencionar com a ênfase adequada porque sei que meu chefe assina o jornal e eventualmente lê cá essas crônicas). Gosto muito do meu trabalho e talvez até por isso eu dedique mais tempo a essa atividade do que o bom senso recomenda.

Mas, e se dinheiro não fosse mais um problema? Me perguntou um amigo outro dia. E se finalmente tivéssemos o suficiente e chegássemos ao ponto em que a luta pela renda mensal deixasse de ser um objetivo a ser perseguido e pudéssemos extrair o básico necessário com qualquer atividade? E se pudéssemos ter qualquer trabalho (um daqueles que mencionei acima ou outro à sua escolha), como isso alteraria nossos dias, afinal?

Há coisa de 20 anos, tive uma conversa com meu pai sobre trabalho e vocação. Estava insatisfeito com o emprego que tinha na época e pensava em pedir demissão. Fui buscar conselhos.

“Mas, por que você está insatisfeito? E por que sair assim do trabalho antes de arrumar outra coisa melhor?”

“Ah, pai, não sei se é isso que eu nasci para fazer. Eu gostaria de trabalhar no que gosto de verdade”.

E meu pai, que há quase 40 anos trabalhava no mesmo banco, me disse: “Escuta, pare com isso. Fique lá no seu emprego e tente fazer as coisas melhorarem. Trabalho é trabalho. Você pratica o que gosta depois. Ou você acha que se eu pudesse escolher como gastar a vida, acordaria às cinco da manhã todos os dias para fazer o que faço?”

“Mas você não gosta? Trabalha tanto que sempre achei que gostasse”.

“Eu trabalho porque é o que sei fazer, porque faço bem, porque isso paga as nossas contas. Se eu pudesse escolher o que fazer, seria jardineiro. Mas quem é que paga o que eu ganho para um jardineiro?”

Jardineiro, puxa. E naquele minuto aquelas tardes e férias e finais de semana incontáveis em que vi meu pai entretido no quintal de casa cavando a terra, podando as árvores, alimentando pássaros, regando a grama e plantando mudas passaram a fazer sentido. E vê-lo ocupado com a atividade que o realiza, trouxe uma beleza, uma certa arte, para algo que eu nunca valorizei.

Outro dia, eu pedalava aqui pelo bairro quando vi um jardineiro de cócoras lidando com algumas mudas em um gramado e me lembrei dessa conversa com meu pai.

Quanto será que ganham os jardineiros dinamarqueses?

Que jardim é esse que eu estou plantando hoje, afinal? É um pensamento recorrente que me ocupa desde aquela pequena conversa existencial com minha filha. Ela é meu fruto. E eu a observo em casa fazendo suas coisinhas, inocente, deixando transparecer seus primeiros traços firmes de talento em certas áreas, começando encarar o mundo sem o filtro da fantasia infantil e tentando se encaixar, entender-se, nesse processo em que a vida adulta começa a se apresentar como algo que inevitavelmente ela vai experimentar em algum momento (coisas que ainda ontem nem passavam pela sua cabeça).

E apesar da realidade crua dos fatos de nossa sociedade que gostaria que pudéssemos mudar. E a despeito dos privilégios que ela usufrui e dos quais precisa ter consciência. E ainda das possibilidades que se abrem e da terra fértil que a Nina tem diante de si, eu queria ter certeza de que estou plantando as sementes corretas para fazer florescer o jardim em que ela merece viver no futuro.