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(Olhos nos) olhos no céu

Luiz Henrique Matos

29 de dezembro de 2021 | 12h16

Noite passada, depois de lermos uma história, fiquei deitado com a Cecília na cama até ela dormir. E talvez pela primeira vez na vida, eu a ouvi dizer duas palavras mágicas que, depois de um dia longo, tocam fundo na alma de um pai ou mãe: estou cansada.

A lua cheia brilhava no céu e a luz atravessava a janela do quarto, de forma que eu podia ver os contornos do rosto da minha filha e seus olhos entreabertos. Ela me encarava, o sorriso de satisfação estampado fazia as bochechas redondas ficarem ainda mais redondas, os olhinhos piscavam de forma cada vez mais lenta.

“Pai…”, veio um bocejo, “será que amanhã a gente pode ter um dia de papai e filhinha com brincadeira e piquenique?”, foi a última frase que falou. “Claro, querida”.

Resolvi ficar ali, contando os intervalos em que aqueles olhos redondos me encaravam e iam se fechando e fechando até que ela suspirou, tombou o rosto sobre o travesseiro e dormiu inaugurando sua noite de sonhos com a leveza de quem acorda diariamente às seis e meia com a única e determinada missão de brincar até que o dia se esgote.

Naquele olhar me sondando por dois minutos, permaneci ainda por longas horas. Absorvido pelo brilho e pureza, intrigado – e ao mesmo tempo com um pingo de inveja – pelo fato de que minha filha, aos seis anos, não faz ideia do que é ir dormir cansado e acordar ainda cansado no dia seguinte, carregando a tensão das preocupações e questões tão profundas que afetam o mundo agora, mesmo sabendo que eu não tenho qualquer condição de resolver nada disso. Ela não faz ideia do que tratam as notícias, conversas, podcasts, livros e discussões que me ocupam até quando não deveria estar ocupado com nada. Nossa sociedade anda complicada demais. Mas, naquele olhar, um portal para a inocência, ontem eu descansei. Retornei por um tempo ao refúgio que reconstitui as prioridades na alma.

Hoje pela manhã, pegamos a estrada para visitar nossos tios numa cidade aqui perto. No rádio do carro tocava “Chega de saudade”. Ao meu lado, Manu cochilava, atrás dela, Cecília brincava com um joguinho e, sentada atrás de mim, eu podia escutar a Nina cantarolando baixinho a música. “Dentro dos meus braços os abraços, hão de ser milhões de abraços, apertado assim, colado assim, calado assim…”. Espiei através do espelho e só conseguia vê-la mirando a paisagem de florestas e plantações pela janela. Eu a encarei por uns instantes e, ao cruzarmos os olhares, notei seu ar curioso ir mudando de forma, os olhos se fechando aos poucos e formando um pequeno arco que acontece quando ela sorri e as bochechas espremem os olhos. Desde quando ela era bebê é assim, a Nina sorri com os olhos antes de mover os lábios. Eu precisava me concentrar na estrada, mas naquele olhar me encarando por dois ou três segundos, eu permaneci por horas.

O que mora dentro desses olhares? Para além da doçura inocente que, nesses instante, me resgata do azedume adulto, tira a poeira da alma e me devolve ao essencial, me pego pensando sobre que tipo de existência elas contemplam. Se aos meus olhos hoje tudo parece nebuloso, da perspectiva delas, que mundo é esse? Que horizontes vislumbram? Manú e eu enxergamos um futuro para elas que certamente não é o futuro que viverão. Gostaríamos de habitar seus sonhos como testemunhas da história que estão escrevendo. Como pais, pensamos nessas meninas crescendo e tentamos imaginar os caminhos que seguirão e, para além das paisagens que esses olhares hão de absorver, que visão de mundo será formada no interior de nossas filhas.

Tem um universo inteiro nisso, que deveria bastar. John Wesley, com a ambição de quem ajudaria a mudar a história, disse que o mundo todo era sua paróquia. Tenho pretensões mais modestas. Meu lar, esse canto aqui, é minha paróquia. Essas duas meninas, a mulher da minha vida, uma cadela quase idosa são toda glória que a existência poderia legar como continuidade do que Manu e eu somos.

No começo deste ano quase fiquei cego. Sei que eu já te contei sobre isso, mas a iminência da escuridão repentina trouxe outro brilho para as cores que hoje consigo notar. Física e figuradamente, já não enxergo mais da mesma forma.

Porque essa visão, a nossa visão sobre a vida, sempre mira algo tão distante, almeja sonhos e constrói ideais necessários para alimentar a esperança. A esperança é sempre urgente. No entanto, por vezes ignoramos que precisamos tocar a terra, descalçar as sandálias e perceber que o tangível, o agora, que o pó da existência nesse pequeno círculo que habitamos é sagrado, nos constitui e nos une. Queremos epifanias, desejamos enxergar a glória divina nos céus e esquecemos que contemplamos Deus face a face nos olhares doces de meninas sardentas que nos sondam, que sonham com piqueniques antes de dormir e cantarolam bossa nova na estrada.

Deus tem alma de criança.

Tem um universo inteiro nisso… onde podemos deixar orbitar nossos afetos, familiares, amigos e o desconhecido na vizinhança que carece do nosso cuidado. Porque precisamos deixar transbordar um bom tanto do que nos sobra. E ainda expressar mais de, estender mais de, esticar um pouco a, praticar mais a. Agradecer.

Meus olhos ainda enxergam tão pouco. Mas sei que eles miram o céu e que resplandecemos o eterno quando olhares se cruzam e entendem, finalmente entendem e transbordam, a alegria de pertencer.

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