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O subversivo da sexta-série

Luiz Henrique Matos

26 Outubro 2018 | 23h05

Era aula de Matemática e a professora Maria Cristina 1 (você vai entender já já) entrou na aula com um recado em mãos. Na próxima terça, ela disse, faríamos o hasteamento da bandeira e cantaríamos o hino nacional no pátio da frente. O sexto ano, continuou a professora, ficaria com a incumbência de puxar o coro para as demais turmas. Aquilo virou uma euforia só na classe.

Eu tinha 12 anos e estava na sexta-série. E a professora de Matemática, talvez já antevendo que não seria exatamente na matéria dela que eu me destacaria no futuro, teve a ideia de me indicar uma outra área e perguntou se eu aceitava escrever uma redação ou poema para ser recitado naquele dia. Eu não lembro como foi exatamente que eu aceitei a sugestão, mas quando cheguei em casa aquela tarde, tinha essa tarefa em mãos.

Na manhã da terça-feira, passei algum tempo antes da aula fazendo rascunhos e terminando meu poeminha. Por alguma razão que só a adolescência explica, o texto virou uma paródia do Hino Nacional recheada de analogias e críticas ao governo e rimas bem ruins. Hoje, estranhamente, à exceção do teor, eu não lembro de nada do que escrevi.

– Luiz Henrique – chamou a professora de Matemática durante a primeira aula, toda animada – você escreveu a redação para ser lida hoje?

– Ahãm, professora – respondi – tá aqui ó.

Entreguei o texto a ela, que desdobrou a folha, leu atentamente, deu aquela virada no papel para ver se não tinha nada no verso, depois olhou pra mim com um sorrisinho no canto da boca e disse:

– Deixe isso aqui comigo por enquanto, tá bom?

Ela dobrou o papel e colocou no bolso do guarda-pó branco que usava.

Chegou a hora do hino, as classes desceram para o pátio, alguém puxou a corda para subir a bandeira, nos postamos todos em silêncio e reverência, cantamos o hino enfileirados em volta do mastro e voltamos de forma ordenada para as salas de aula. A professora não estava conosco.

Nada de me devolverem o papel, nada de me chamarem para ler o poema (e, poxa, a turma toda sabia que eu iria falar e ficou me pressionando…), nada de falarem qualquer coisinha a respeito, até que…

Até que perto da última aula, a inspetora do corredor abriu a porta da sala e avisou que eu deveria me dirigir até a diretoria do colégio e procurar pela Dona Fulana, coordenadora do sexto ano.

– Oi, Luiz Henrique, pode sentar aqui, por favor.

Eu me sentei e vi que ela estava com meu papel em mãos.

– Foi você quem escreveu isso aqui?

– Foi, sim, Dona Fulana.

Eu, que quase nunca esqueço nomes, esqueci o daquela senhora. Ela tinha uns 587 anos de idade, usava o cabelo pintado de amarelo ocre com laquê para ficar meio enrolado no entorno de todo seu rosto e uns óculos foto-sensíveis que deixavam a lente meio esverdeada. Ela continuou:

– Você acha mesmo que nosso povo é assim? Que o país é desse jeito que você diz aqui? – e citou um trecho do texto.

– Dona Fulana, é só uma sátira. Eu quis fazer algo meio engraçado, na verdade. Mas, é sim, também uma crítica ao que eu acho que…

– Rapazinho, você é um anti-patriota?

– O quê? Eu não, claro que não.

– Menino… – ela titubeava enquanto balançava o papel na mão – é sim. Isso aqui é anti-patriotismo, garoto. Eu não vou nem falar o que… Você sabe o que pode acontecer com você se isso aqui cair nas mãos erradas? Você sabe o que pode acontecer com seus pais se isso aqui parar nas mãos das pessoas erradas?

– Eu não acho que…

– Eles podem ser presos. Você gostaria que seus pais fossem…? – ela não continuou a frase, mas eu entendi.

– Não. Mas…

– Olha aqui. Para sua segurança, isso aqui vai ficar comigo. Para a sua… segurança.

Mas, não era exatamente de temor ou proteção o tom em sua voz. Era de inquisição mesmo. E inquisição foi uma palavra que eu só aprendi anos depois, mas cujo significado entendi ali naquela mesa.

Me levantei e voltei para a classe. Do que me lembro, mesmo com a pressão dos colegas para contar o que a Dona Fulana queria (nunca era boa coisa ser chamado na diretoria), fiquei quieto a respeito por um tempo. Depois eu relatei o que havia acontecido.

Eu tinha alguma noção do que ela estava falando. Estávamos em 1992 e a ditadura militar era um assunto com o qual eu havia tido algum contato durante as aulas de História do Brasil e entendia que havia terminado alguns anos antes. No entanto, para mim isso se referia a um passado tão distante que soava ultrapassado e um pouco ridículo aquele discurso. A distância significava quase metade da minha vida até o momento e, aos 12 anos, com toda relatividade que o tempo possui na infância, eu não cogitava que a ditadura fosse algo pelo qual alguém vivo teria passado.

Tinha uma outra professora na escola, a Maria Cristina 2 (pronto, entendeu?), lecionava Geografia e era a única funcionária negra no colégio inteiro que não trabalhava na limpeza. Era sempre muito exigente e dura com todos. Ninguém na classe tirava nota maior do que 9 em Geografia.

Na semana seguinte ao episódio, ela entrou na classe, passou por mim e antes da aula começar, me chamou na mesa dela.

– Ei, menino, vem cá.

Me aproximei e ela disse:

– Que história é essa do seu poema? Eu fiquei sabendo.

– Ah professora, então, né? A senhora viu? O texto ficou lá com a Dona Fulana, ela disse que é perigoso para minha família se aquilo cair em mãos erradas. Disse que eu sou anti-patriota, mas eu não sou. Não sou mesmo.

Ela me fitou por alguns segundos e sorriu.

– Estou tão orgulhosa.

E aí, algumas coisas começaram a fazer sentido para mim. Ali, naquela sala, alguns papéis se enquadraram em uma perspectiva que eu não possuía até então. Dali em diante, comecei a notar que haviam campos e lados que as pessoas assumiam para julgar os outros, para olhar para o nosso passado, para seus próprios passados, para as histórias e jornadas das quais vinham e fazer suas escolhas sobre por onde seguiriam.

– Seu texto está comigo – ela disse. Eu pedi à Fulana para ver, disse que cuidaria disso e guardei na minha bolsa.

– Ah é? – eu ri.

– Ahãm. Posso ficar com ele?

– Pode.

– Se você quiser, tiro uma cópia e te devolvo.

– Tá bom.

Nunca mais vi aquele pedaço de papel. E confesso que não tenho na memória o que afinal de tão grave ou transgressor eu escrevi. Daquele dia em diante, a professora de Geografia me via no corredor e fazia um afago, enquanto a coordenadora a todo custo me evitava e procurava razões para me inquirir. Jamais a vi sorrir. Mas, o ponto é que as duas haviam vivido o mesmo tempo, presenciado os mesmos fatos, passado juntas pelas consequências daquele regime. Cada uma a seu modo, porém, olhavam para o mundo a partir de óticas diferentes. Talvez porque de um lado estava o oprimido que afinal era livre e, do outro, a mão pesada de quem julgava justo o rigor aplicado pelo opressor.

Existiam lados na história. Os olhares de ambas escondiam um passado que eu não conhecia, mas eram naquele momento como janelas para mim, revelando que nem todo mundo, como eu, observava aquele tempo da história olhando para trás. Aprendi a interpretar aquele silêncio. Para alguns, havia uma sombra que relembrava tempos recentes, recentes demais, algo perto demais para não sentir soprar um vento gelado quando o assunto surgia inesperadamente. Aprendi – depois daquilo e ao longo dos anos seguintes – que há momentos em que é preciso fazer a escolha por um desses lados, é preciso se posicionar, sob risco de, calados, condescender com a injustiça ao silenciarmos diante do mal.

Entre os amigos de turma, a história circulou. Fiquei famoso por um bimestre ou menos. A gente não sabia direito o que era ditadura, mas agora sabíamos o que era censura. E foi assim que a coisa foi tratada entre todos.

E eu, um nerd do sexto F, me tornei um subversivo.

* * *

Continuei escrevendo depois daquilo (a professora de Matemática tinha razão). Escrevi fanzines, panfletos, escrevi em jornais, blogs, escrevi um livro e centenas de emails para grupos de amigos. Nunca mais fui censurado em qualquer coisa que quisesse dizer – por mais que eu ainda acredite que a maior parte não merecia ser publicada, porém por outros motivos – e tenho na escrita a forma com a qual acredito poder expressar com mais clareza meus pensamentos. Mais do que isso, escrever é uma forma que encontro para colocar certa ordem nas ideias e descobrir o que penso sobre algo.

Jamais poderia imaginar que aquela repressão falada em vozes baixas pela escola e que já era um passado tão distante para mim e se tornaria um passado ainda mais e cada vez mais distante em nossa sociedade, poderia um dia retornar à pauta, voltar às rodas de conversas (agora em alta voz) trinta anos depois. Jamais imaginar que o horror do passado que assombrava uma jovem professora na minha adolescência viraria uma alternativa aceitável e um passado glorioso para parte significativa do nosso povo. Me nego a acreditar que, independentemente de candidatos ou partidos, o mal que a simples sombra disso pode representar em nossas vidas seja um assunto menos importante do que outros tópicos na agenda política deste momento.

Não sei o que se passou com Dona Fulana ou a professora de Matemática depois que saí do ginásio. A segunda Maria Cristina, eu encontrei em um estacionamento próximo à escola poucas semanas antes de me formar no Ensino Médio. Ela me abraçou e perguntou se já tinha decidido o que fazer na faculdade. Quando disse que estava em dúvida entre estudar Economia ou Publicidade, ela se mostrou desapontada. “Puxa, menino, então você vai ser mais um desses?”. Eu sorri, sabendo o que ela queria dizer e respondi que não. Até hoje, 26 anos depois, sempre que passo na porta daquela escola, a bandeira hasteada sendo balançada pelo vento me traz essa história toda à memória. Mas nunca achei que um dia ela deixaria de ser uma piada. E quase sempre, quando preciso exercer meu compromisso cívico ao votar, ao escrever, ao educar minhas filhas, ao escolher como tratar meu próximo, eu me lembro, de algum jeito, que muitas vezes é preciso decidir de que lado estou.

Vivemos hoje um momento crítico em que essa escolha precisa ser feita. Porque a questão não é apenas sobre o que acontecerá no país nos próximos anos, mas especialmente sobre o exercício de olhar para trás, para nossa história tão recente e escolher de que lado queremos ficar, de que lado estaríamos se os tempos de hoje fossem aqueles de 1964. É hora, agora, de abandonar as discussões rasas e refletir nessa questão com a complexidade que ela merece. Porque isso é muito maior do que partidos políticos, condutas e dinheiro. Falamos de uma questão moral, da nossa liberdade, de direitos adquiridos com suor e sangue sendo ameaçados.

E ainda que sejamos um só povo e um país e a sociedade inteira vá viver as consequências – boas e ruins – do resultado das eleições deste ano, a escolha que fizermos agora dará a medida do peso em nossa consciência no futuro. Porque também há fundamentos em uma sociedade que jamais deveriam ser negociados: a liberdade, a democracia, o respeito à identidade de cada cidadão, os direitos humanos, a igualdade entre homens e mulheres, o compromisso de incluir os que foram excluídos, o dever de garantir a voz aos que foram calados pela mordaça da injustiça e da opressão.

O voto é um depósito de confiança que fazemos no futuro que desejamos. Meu voto é, sobretudo, sobre o recado que quero dar a mim mesmo nos anos que virão pela frente e a satisfação que precisarei dar às minhas filhas.

Olhando para trás agora, relembrando a história daquela terça-feira em 1992, me ocorre que talvez o sentimento que habitava a consciência daquelas mulheres era o mesmo: medo. A força capaz de paralisar, de calar, de nos levar a fazer escolhas que supostamente nos preservam ou garantam a estabilidade que desejamos. Medo que é também a força que se contrapõe e cala em nossa consciência e apaga de nossos olhares a esperança.

Esperança da qual precisamos tanto nessa hora. Para poder seguir em frente apesar do frio paralisante, para resistir com otimismo e fé, para jamais negociar nossos valores mais preciosos em troca do que for, jamais perder de vista a imagem clara de que somos melhores quando somos juntos, quando somos livres, quando nos unimos e nos permitimos sonhar e semear como sociedade um futuro melhor.