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O som dos passos e dos pássaros

Luiz Henrique Matos

18 de junho de 2022 | 19h55

Cecília aprendeu a ler. Ela já vinha há alguns meses naquele fluxo de juntar letras em sílabas e tentar encontrar alguma sonoridade. Mas, nos últimos dias deu o estalo, aquele estalo, em que a união das sílabas adquiriu sentido, som e palavras, novas palavras que saem do som e se formam em imagens, significados e histórias que agora ela absorve de outra forma.

“Nina”, ela interpelou a irmã mais velha, leitora voraz, apertando uma revista em quadrinhos da Mônica entre os dedos, “ler não é nada chato, é muito legal! Agora eu vou pegar todos os livros do seu quarto!”

Se algum dia ela ganhar o prêmio Nobel de Física, talvez eu não fique tão feliz quanto agora. À noite, já na cama, sussurrei orgulhoso:

– Filha, aprender a ler é tipo decifrar um código secreto. Agora que você conhece os códigos, tem mistérios e universos novos que você vai começar a descobrir.

Há muitos livros pela casa, há uma estante grande e recheada de exemplares no escritório e também livros nos quartos e espalhados. Um luxo particular que acumulamos desde o casamento e que as meninas acompanham. Cecília tem mais livros aos sete anos do que eu tinha aos vinte. E agora vai revisitar essas histórias fazendo isso por ela mesma, palavra por palavra.

Na manhã seguinte, ela segurava um pequeno livro com uma centopéia na capa:

– Pai, alguma vez você já entendeu as palavras que um inseto diz para o outro?

– Sim, uma vez. Eu lembro que um mosquito chegou bem pertinho do meu ouvido, bem pertinho mesmo e falou algo pra mim.

– O que ele disse?!

– Bzzzzzzz bzzzzz!

– Ah não, pai… – e espalmou a mãozinha sobre o rosto.

– E você? Já entendeu o que dizem os insetos? – perguntei apontando a capa do livro.

– Ssshhhhh! Espera um pouco – de repente, ela já estava em outro lugar, o olhar intrigado voltado para o alto, se concentrando em algo distante.

– O que foi, Cici? Eu estava dizendo que…

– Silêncio, pai. Estou escutando o som da natureza.

Postada ao lado da janela, ela se concentrava no que podia ouvir do lado de fora, onde uma dupla de pássaros cantava nas árvores perto da nossa varanda e o vento soprava nas folhagens.

– Estou ouvindo os pássaros – disse, de olhos fechados – e quero ver se consigo escutar algum inseto.

Pouco mais de uma hora depois, eu estava na rua correndo e mirava a copa das mesmas árvores que minha filha sondava da janela tentando escutar também o canto dos pássaros que ela dizia contemplar. Esses milagres ordinários têm feito muita falta ultimamente. Uma criança descobrindo universos novos, pássaros cantando, folhas crescendo e caindo com o passar das estações. Os ciclos da vida que se renovam cotidianamente sob nosso teto, que são maravilhas pelas quais passamos e quase desviamos sem notar, com receio de tropeçar em miudezas porque, afinal, bem, afinal sempre há alguma desculpa.

Corro, um passo após o outro, sentindo o vento gelado do inverno cortando meu rosto, a respiração ofegante, a batida da sola do tênis no asfalto. Escuto o martelar das ferramentas na construção que se ergue ao lado do nosso condomínio, o ronco do motor de uma moto rasgando a rua. O relógio apita avisando que mais um quilômetro foi superado.

Adquiri esse hábito um pouco antes da pandemia começar e… Hahahah, “adquiri o hábito” é uma falácia danada da minha parte. Comecei a tentar a correr no final de 2019 depois de um colapso mental e achei que fazer uma atividade física sozinho, à noite, e sem o escrutínio alheio sobre minha humilhação, seria uma forma de exorcizar através do suor e sacrifício, os demônios que me atormentavam. Sessão de exorcismo. É assim que chamo minhas horas de corrida desde então.

Mas, o passar do tempo e dos quilômetros me permitiu, desde então, adquirir alguma capacidade de fazer isso com certo controle. Se no começo a corrida era uma forma de fugir de uma crise e esmagar no chão, em cada pisada, a carga pesada de cada dia, hoje já é mais como uma trilha que percorro rumo à realização pessoal, uma sensação de alívio e bem-estar provocado pela injeção de serotonina dos treinos. A crise ficou lá atrás e agora corro em direção a uma nova história.

Aprendi, nesse processo, que para ser capaz de correr longas distâncias às vezes é preciso desacelerar e ir mais devagar. Um pé e depois o outro, o ritmo cadenciado, uma letra ligada em outra, formando palavras, caminhos e histórias. Cada pequeno passo é um milagre.

– Onde você vai com todos esses livros, Cici? – ela estava com alguns exemplares da minha coleção empilhados sobre os dois bracinhos curtos e caminhava em direção a sala.

– Ora, pai, eu vou ler! Onde mais você acha que eu iria?

Eu olho para a pequena pilha de livros que deixo sobre a mesa e penso quais desses exemplares, algum dia, ela e a Nina pegarão para ler e de que forma essas histórias serão assimiladas por elas, as opiniões que trocaremos sobre livros, preferências e broncas porque alguém violou a regra sagrada de não profanar as páginas com dobraduras.

Agora ela anda com livros para todos os lados. E como se fosse realmente capaz de ler Dickens, em inglês, abre tomos de 600 páginas em trechos aleatórios e fica tentando decifrar aqueles códigos. Tem uma beleza nisso.

– Mãe, G com R e mais o U dá o que mesmo? E o N com H e mais o I? G com A é GA ou JÁ?

E passa o dia assim. Do outro cômodo, enquanto trabalho, escuto essa música e sorrio. Eu silencio o ruído que sai de alguma reunião no meu computador, fecho os olhos e me concentro nela ali, sentada, os olhos vidrados nas páginas, a mente se expandindo como o Universo e a boca balbuciando as descobertas. É o som da natureza.

Palavra por palavra, ainda, ressoando como música. O som dos passos e dos pássaros, o soprar do vento no rosto marcando o tempo e o ritmo nessa jornada que percorremos, devagar, testemunhando milagres.

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