As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O fim dos finais felizes

Luiz Henrique Matos

09 de março de 2020 | 20h00

Já faz tempo que meu time não ganha nada. Há quase uma década, cálculo por cima (e nem quero ser exato sob risco de estar sendo otimista), as temporadas começam cheias de esperança e, lá pelo meio do ano, me conformo em torcer para que o time ao menos alcance os pontos necessários para se classificar para esse ou aquele torneio continental.

Um parêntese: esse não é um texto sobre futebol, fique tranquilo. À exceção do Tostão aos domingos, quase nenhuma crônica sobre futebol merece ser lida hoje em dia.

Ontem à tarde, eu lia as notícias do jornal dominical enquanto um jogo passava na TV e uma tempestade caía lá fora. Meio distraído, cheguei a comemorar um gol do adversário, que jogava com camisa semi-idêntica à do meu São Paulo, enquanto o tricolor estava em campo vestido de azul (azul, meus senhores! Mas que raios?). No final, mesmo com certa anuência do juiz, perdemos de 1 a 0. A tempestade era em campo.

Se me perguntarem, não sei dizer porquê gosto de futebol. Nem gosto tanto assim, confesso. Mas tem algo no esporte que atrai: a expectativa, a atmosfera da arena, o trabalho coletivo, a estética das jogadas improváveis, a bola sendo manipulada com os pés, o clímax do gol. E tem também o imponderável, uma vez que por melhor – ou pior, no meu caso – que seu time esteja em campo, nunca se pode ter certeza do resultado final de uma partida. Há dias maravilhosos, há dias de empate e há, inevitavelmente, dias de derrotas trágicas.

O São Paulo tem caprichado em acabar com essa imprevisibilidade, garantindo que tudo vá mal quase sempre. Mas nada disso impede que, semana após semana, meus olhos estejam ligados na tela da TV para alimentar a esperança de que ao menos naquele dia a tarde de domingo acabe em um final feliz.

Como consolo, tenho dito à mim mesmo que meu time é uma equipe de vanguarda. E aí, prolixidades à parte, caímos tardiamente no que gostaria de escrever hoje: me parece que há em nossa cultura, por esses tempos, uma espécie de celebração da desesperança. Os finais felizes, no cinema, nas séries e na literatura, se tornaram sem valor, impensáveis para a boa arte, sob argumento de que não refletem a realidade da vida. Porque a arte que imita a vida, agora precisa ser bruta, ter tragédias que nos cicatrizem, deve nos fazer sorrir da melancolia, estar carregada de um senso de que há, sim, altos e baixos na vida, mas que na média as coisas acabam mal e que podemos nos contentar assim, resignados, em esperar que tudo seja um grande “mais ou menos” cheio de picos e abismos.

É o fim dos finais felizes.

Eu gosto de histórias que acabam bem. Não porque espero que a vida seja emoldurada por um arco-íris o tempo todo ou que tardes ensolaradas aconteçam rotineiramente, mas porque prefiro ser um sujeito que alimenta esperanças, porque acredito em grandes sagas de redenção, no poder do afeto e da gentileza, no tetracampeonato do São Paulo na Libertadores, na capacidade humana de superar tragédias, perseguir sua felicidade e realizar utopias.

À tarde, passeávamos em uma loja e Cecília se encantou com uma par de asas de fadas colorido e cheio de lantejoulas que poderia ser vestido sobre a roupa. “Compra, pai? Por favor, eu adorei. E olha, ainda vem com essa tiara que tem um chifre de unicórnio! Compra? Porfavorzinho!”. Não resisti. Paguei pela fantasia e ali mesmo, na fila do caixa, ela já vestiu o aparato e saiu desfilando orgulhosa pelo shopping center. As pessoas apontavam e riam, a mãe tirou fotos para registro, eu pedi para usar a tiara e a Nina andava um passo atrás com um pouco de vergonha.

– Nina, pare de rir! – ela taxou – E o papai tá é com inveja.

Ela voltou realizada para casa. Como chovia, a programação do domingo terminou em volta do sofá. Comemos, assistimos TV, esquentamos a pizza de ontem para o jantar e eu a levei para dormir, ainda com asas e tiara, enquanto Manu e Nina jogavam algo na sala. Na cama, ela me contou de um sonho que teve na noite anterior em que uma flor gigante nos perseguia e tentava nos engolir.

– Mas eu salvei todo mundo, pai – ela comentou.
– Sério, filha? E como foi? Você deu um golpe e cortou o caule dela?
– Não, pai, nada disso. Vocês todos saíram correndo e eu voltei e fiz um carinho nela. Aí ela acalmou.

Fadas.

Ela abraçou meu braço, pediu para eu fazer uma oração, deu dois bocejos seguidos (desde bebê, ela boceja de forma escandalosa) e pediu que eu contasse uma historinha. Contei sobre minha festa de aniversário de cinco anos, no dia em que resolvi me fantasiar de palhaço.

Foi na casa em que morávamos na Barra Funda. A festa já estava rolando quando fui levado até o quarto para me fantasiar. Uma vizinha emprestou o traje verde e com babados nos punhos. Minha mãe e minha tia me maquiaram usando um batom vermelho e pomada Hipoglós e depois enfiaram uma peruca meio descabelada em minha cabeça. Me esconderam atrás de um lençol (igual o Elliot fez com o ET) e me fizeram descer pela escada que descia até o meio da sala onde meus primos e vizinhos, sentados em círculo, tentavam adivinhar o que tinha atrás do pano branco. Eu estava em êxtase. “É um urso!?”, perguntou um. “Um policial!”, palpitou outro. As vozes se sobrepunham em sugestões até que… “é um palhaço!?”, adivinhou meu primo.

Elas puxaram o pano para cima. “Acertou!”, elas gritaram, eu gritei, todos gritaram, enquanto me livrava do lençol sem me dar conta de que ainda faltavam quatro degraus para chegar na sala e eu pisei em falso, escorreguei e fui caindo pipocando pela escada até lá embaixo.

A festa inteira gargalhou, na certeza de que, tendo incorporado o clima fantasia, a queda era meu grande número de entrada. Mas com cinco anos recém completados, eu não tinha essa capacidade interpretativa e tudo o que conseguir fazer foi chorar copiosamente enquanto batom, Hipoglós e lágrimas se misturavam em minhas bochechas.

Cecília riu da história e depois ainda quis saber como foi o fim da festa. Eu lembro do bolo com cobertura branca meio rococó e lembro de ainda estar fantasiado de palhaço e deitado no sofá da sala enquanto a festa acontecia e minha mãe comentava com a vizinha: “Ele está cansado, tadinho, acho que vai dormir”.

Em seguida, Cecília me deu boa noite, virou para o outro lado da cama e dormiu.

Em poucos dias, ela fará cinco anos. O tempo não tem passado em ritmo diferente da intensidade com que ela vive e me pego revivendo sensações de quando a Nina, oito anos atrás, passava por esse mesmo momento. Ainda no shopping, ela me disse que vai querer se vestir de fada na festa de aniversário. A Nina, poucos dias antes dela completará 13 anos. E nessa idade, fantasia deixou de ser uma vestimenta e passou a ser um mundo todo em que ela habita às vezes, nos desenhos, nas leituras, nos poeminhas que escreve e no desejo que lhe assalta de que a vida continue sendo inocente. Às vezes.

Sei que isso não é um final. Manu e eu ainda estamos no começo da nossa jornada e muito da vida ainda está por vir. Mas até aqui, temos sido felizes (bem, falta, por certo, o São Paulo ganhar um campeonato na temporada, para variar). Nesse processo todo de um dia após o outro, da rotina doméstica em que vamos construindo nossa história juntos, cada ano tem sido melhor que o anterior e temos motivos para sorrir e ser gratos.

E porque temos um ao outro e ainda essas meninas crescendo ao nosso redor, porque temos um cão que nos lambe os pés sob a mesa enquanto comemos, porque há um teto sobre nossas cabeças e porque em nossa despensa há o bastante para viver com dignidade. E porque há Deus, nós temos esperança no triunfo do bem, na redenção, no sorriso banguela de pequenas fadas e palhaços de bochechas borradas que são o futuro de um mundo tão carente de sonhos, fantasias e de sua insondável pureza.

E porque há uma revoada de pássaros cantando lá fora enquanto se acomodam nas árvores depois do fim da tempestade, somos autorizados a acreditar que nossas histórias podem ter finais felizes. Como aqui mesmo estaria uma, se um ponto final porventura aparecesse agora.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: