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O dia em que a TV morreu

Luiz Henrique Matos

05 Fevereiro 2019 | 08h37

Procuro na memória mas não consigo encontrar quando foi o momento exato em que a televisão morreu aqui em casa. Não lembro sequer o ano, algo entre 2015 e 2018, em que ela deixou de ter o reinado que sempre lhe foi garantido desde que me conheço por telespectad… digo, gente. Não me refiro ao dispositivo, que continua ocupando cada vez mais consideráveis polegadas na sala, mas à TV linear, aos canais sendo transmitidos, a programação regular, os programas intercalados por intervalos comerciais – eu gostava quando chamavam de reclames, mas se eu disser isso alguém pode me chamar de nostálgico – diante dos quais sempre fomos observadores pacientes e conformados.

Fazendo uma conta rápida, eu diria que hoje em 98,5% do tempo que a TV de casa está ligada, o consumo se divide entre Netflix e YouTube. No 1,5% do tempo que resta, sou eu, sentado aqui, escrevendo no computador e com algum canal qualquer transmitindo esportes que não pratico. Assim acontece nesse instante.

Por “um canal qualquer transmitindo esportes que não pratico” entenda o Off. Adoro o Off. Não sei se é porque acho que aquilo tudo é ficção pura ou se, de fato, existem pessoas que passam suas vidas sem estar doze horas por dia em um escritório, fazendo reuniões e respondendo e-mails. Aquela gente bronzeada, viajando por lugares paradisíacos, encarando grandes aventuras e fazendo cotidianamente coisas que eu jamais sonharia fazer uma vez sequer na vida. É tipo o Senhor dos Anéis. Só pode ser ficção.

Então, a TV funciona como uma espécie de proteção de tela, um pano de fundo enquanto estou sozinho na sala. E geralmente aquilo fica só ali, ocupando espaço, um respiro e show de luzes piscando para que eu possa me concentrar nas palavras que preciso juntar. Mas hoje, ao olhar para aquela tela, esse lance todo sobre a morte da TV me distraiu e perdi a linha do que estava escrevendo e comecei a redigir isso que você lê agora.

Esse era para ser um texto sobre desigualdade de renda na Escandinávia. Juro. Mas fica para uma próxima.

Acho que para mim há um tanto de nostalgia na televisão. Quando criança, eu me imaginava adulto, chegando em casa depois de um longo dia no trabalho e, depois do jantar, afrouxaria a gravata no pescoço e sentaria no sofá com o controle remoto na mão para assistir ao telejornal ou a uma mesa-redonda de futebol por uns minutos. Eu não sabia, mas queria crescer e virar o Homer Simpson.

Nas últimas vezes em que tentei encarnar esse ideal e gastar umas horas zapeando na frente da TV, eu a desliguei em 10 minutos. Os 64 canais HD pelos quais pago uma pequena fortuna todos os meses, conseguem ser totalmente preenchidos com reprises de séries antigas, noticiários enfadonhos, desenhos intermináveis e, pior de tudo, reality shows dublados (não bastasse o programa em si já ser insuportável, eles ainda colocam aquela dublagem terrível que tenta fazer uma barganha por alguma peça de carro antiga parecer emocionante).

Já liguei para cancelar o serviço algumas vezes. Mas em todas elas fui convencido a permanecer como assinante. Seja pelo cansaço da demora no atendimento, seja pela ideia idílica de que em algum momento eu poderia ser surpreendido com um episódio inédito do Chaves ou um jogão do São Paulo passando na quarta-feira à noite (não sei o que pode ser mais improvável: a operadora atender rápido a uma ligação ou o São Paulo jogar bonito). No entanto, agora estamos no começo do ano, época em que faço revisões no orçamento doméstico e, convenhamos, não há esporte de aventura na Nova Zelândia que justifique a mensalidade que a TV nos custa.

Além do mais, as meninas, que usam a TV na maior parte do tempo, não vão deixar de ter acesso a desenhos aos quilos no YouTube para aderir a uma programação linear. Se hoje é difícil para mim ficar em frente à TV e assistir comerciais intermináveis – justo eu, que cresci cobiçando Ki-chutes, Dipnliks, Pirocópteros e Playmobil no intervalo do Programa do Bozo – quem dirá para uma criança da geração sob demanda? Como explicar o conceito de intervalo comercial para minha filha de três anos se ela não tem paciência nem para aguardar os cinco segundos que a Netflix demora para emendar um episódio da Princesa Sofia em outro? Nas raras vezes em que calhou de assistir a um desenho na TV, ela achou que a entrada do comercial era, na verdade, algum trote da irmã mais velha mexendo no controle.

(Abre parênteses: E aí que ontem teve o Super Bowl na TV. E gente que mal sabe a escalação do próprio time de futebol, apareceu na minha timeline argumentando como se fosse especialista em futebol americano. Até pouco tempo, eu achava que futebol americano era uma espécie de sumô coletivo num gramado gigante, com aquele monte de gente se empurrando para fora das linhas. E eu lia Patriots para cá e Patriotas para lá no Twitter e já estava achando que era um flashback das eleições e que o Cabo Daciolo ia aparecer em algum momento na tela falando do seu partido. E aí, veja só, hoje eu escutei uns colegas comentando que dormiram tarde por conta do jogo, mas que nem ligam tanto para o esporte em si, mas que gostam mesmo é de ver o Super Bowl para assistir os comerciais. Ei, como é que é? Comerciais? Deixa eu explicar essa para a minha filha aqui. Fecha parênteses).

Olho para o relógio um instante. Já está tarde, a operadora não vai atender minha chamada agora – e mesmo que atendessem, seria saudável poder dormir antes das três da manhã, afinal. Tomo notas num bilhete para lembrar de cancelar a TV a cabo amanhã pela manhã.

Olho de novo para a televisão. Está começando um programa no Off. Na tela, imagens de uma cidade cheia de pontes e bicicletas. É sobre a Escandinávia. Juro. É um episódio sobre pessoas que mergulham saltando de lugares tão altos quando o prédio em que eu moro. Isso só pode ser ficção.

Eu rasgo o bilhete. Como poderia viver sem isso?