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O ano possível

Luiz Henrique Matos

04 de agosto de 2020 | 22h41

Não está nada normal. Não tem “novo normal” nenhum. A gente ainda está no meio do caos, no auge de uma pandemia, pessoas morrendo às centenas diariamente e autoridades perdidas. Isso não vai ser normal para ninguém, nunca, eu espero.

Sempre fui ligeiramente anti-social. Grandes aglomerações de qualquer tipo, dessas com sete ou oito pessoas, me incomodam. Tenho dificuldade até em receber massagens porque me soa estranho a ideia de alguém encostando em mim e cutucando partes do meu corpo com os dedos. Mas nesses dias, confesso, tenho sentindo falta de uma muvuquinha.

Sinto falta de jogar aquele futebolzinho às quintas-feiras (que eu nunca joguei). Vontade incontida de ir a um show em estádio de uma banda qualquer, de fazer um passeio na rua 25 de Março no sábado pela manhã e navegar naquele mar infinito de pessoas descendo a Ladeira Porto Geral, de me acotovelar na feira do bairro para escolher tomates e tomar um ônibus sem a certeza de que não sairei pela porta dos fundos contaminado por algum vírus. Mas, só sinto falta porque não posso, só tenho esse desejo em alguma fantasia distante porque, de algum jeito, esse direito me foi privado. Estivesse qualquer dessas opções à disposição, eu pagaria 50 reais para me ver livre delas.

Este, no entanto, não é o ano do desejo, nem dos sonhos realizáveis. Este é o ano do que é possível, tempo de fazer o que dá, de aceitar um pouco menos, de fazer concessões e entender que estamos limitados. Só para não pirar.

É assim que tenho chamado esse momento aqui em casa e procurado consolar as meninas quando batemos com a cara na muralha da frustração. Porque não tem dado mesmo para planejar as coisas. E com isso, a gente vive um dia de cada vez – ainda que eles sejam todos praticamente iguais – como o casal da letra de Cotidiano, música do Chico que, a propósito, substituiu o som do alarme do meu despertador. Todo dia fazemos tudo sempre igual.

Esse é o tempo em que a gente realmente não vai dar conta. E teremos que aceitar o desapontamento de não ter a festa de aniversário, não ter sessões de cinema, não ter familiares em casa no almoço de domingo, de não poder ir e vir quando e para onde queremos. E vai ter que estar tudo bem assim, porque é o que tem pra hoje.

Leio que tem muita gente ficando ansiosa nesses dias. Eu, que já sou ansioso, estou me sentindo normal agora, quase conformado. E estou percebendo que mesmo antes eu já não dava conta, eu já não era capaz de abraçar todas as coisas que gostaria e nem realizar tantos planos quanto anotava no caderno. Mas eu me enganava achando que daria, sim, e de que era capaz. Agora, parece que a vida é só a realidade, só o presente, apenas a rotina matutina de selecionar o que é essencial a ser feito.

E quando olhamos para o lado e fazemos essa breve pausa para reordenar as ideias, notamos que na maior parte das vezes o que é essencial de fato estava aqui com a gente o tempo todo. E me resigno dentro de minhas limitações, compreendo a particularidade das circunstâncias e me conforto nos braços de minhas meninas.

O Ano Possível. É assim que tenho chamado este tempo para ter algum conforto pessoal.

Você, chame como quiser. Só não me diga que isso agora é normal.

“Caminhe lentamente, não se apresse, pois o único lugar ao qual tem que chegar é a si mesmo” (Ortega y Gasset).

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