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Novos amigos

Luiz Henrique Matos

16 de julho de 2019 | 19h00

Tem dois seguranças que trabalham no condomínio onde moro e se revezam no turno da noite. Lá pelas dez, quando desço para o último passeio com a Lucy, sempre encontro algum deles perto do gramado onde minha cadela descarrega a base da pirâmide de Maslow que recolho civicamente. Um dos seguranças, há anos na atividade, já se tornou quase um amigo. O outro, ignora solenemente meus acenos e cumprimentos. O primeiro, assim que apareço, levanta o braço, saúda com um gentil “boa noite, sr. Henrique” e emenda um comentário sobre o clima.

O problema que me perturbava é que há coisa de três anos, quando ele chegou para trabalhar por aqui, esqueci de perguntar seu nome. E agora, depois de um sólido relacionamento já estabelecido, tenho vergonha de admitir que não sei e isso abalar nosso papo cotidiano. Grande, amigo, cara, rapaz ou um simples “Opa! E aí!” são as referências que uso para disfarçar minha falha.

Semana passada, o segurança que me ignorava foi substituído por um novo. Bigodinho no rosto, cabelo engomado, sorriso na cara. A simpatia em pessoa. De imediato, puxou assunto, fez carinho na Lucy, disse que adora cachorros e que tem um que dorme em sua cama. Na hora, lembrei da falha com meu outro amigo e decidi me precaver contra um remorso no futuro.

– Qual é seu nome, amigo?

Ele, prontamente respondeu:

– É Piquet.

Maravilha, nome assim eu jamais esqueceria. E antes que perguntasse, me antecipei:

– Muito prazer. O meu é Henrique.

No dia seguinte, ao me deparar com o braço estendido e a saudação do meu velho amigo, o peso da culpa veio dobrado. Sabia o nome do segurança recém-chegado mas escondia que desconhecia o antigo companheiro de garoas. Arrastei a Lucy pela coleira até perto dele e me abri:

– Cara, me desculpe. Você sabe que a gente conversa quase toda noite e eu nunca te perguntei seu nome. Falha minha, foi mal.

Ele só abriu um sorriso e devolveu:

– Que isso, imagina, Henrique! Me chama de Nildo, é assim que todos me conhecem.

Dormi em paz naquela noite.

Antes de ontem, cheguei do trabalho e vi o Piquet passando pelo condomínio. Ainda dentro do carro, abri a janela e, orgulhoso da minha boa memória, estendi a mão e mandei:

– Opa! Boa noite, Piquet!

E ele. Todo bigode, cabelo e sorriso largo, saudou lá de longe:

– E aí, Rafa! Uma boa noite, meu caro Rafael.