As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Fiat lux

Luiz Henrique Matos

08 de março de 2021 | 12h31

À noite, quando chovia e acabava a luz em casa era quase como um susto. Todo mundo parava onde estava, todos sabiam o que tinha acontecido, mas ainda assim alguém se prontificava em avisar que ‘acabou a luz!’, quase gritando, como se a falta de energia afetasse também nossa audição. Era um caos, mas era bom. Ao menos era isso que as crianças achavam daquela interrupção momentânea da rotina. Tudo ficava limitado, o chuveiro ficava frio, a tv não funcionava, não tinha luz para ler gibis. A vizinhança inteira, sendo assistida pelas janelas, era aquela escuridão só. E com a escuridão, vinha um silêncio, tão incomum nas cidades. Tudo parecia uma pausa.

O breu reduzia também o ruído, até que, aqui e ali, os pontinhos de luz provocados pelas chamas das velas iam aparecendo. Mas a luz fraca nunca era o bastante para irradiar, eram só pontos amarelos através dos vidros e a certeza de que ao redor daquelas chamas havia gente que, de repente, teve sua noite modificada pela ausência de algo que, tão constante que era, até parecia parte da linha de existência cotidiana. E as miudezas de cada mesa de cada casa sempre distintas no fim do dia, agora eram praticamente iguais.

Abria-se espaço para conversas intimistas ao redor das velas, as historinhas inventadas, os jogos e teatros de sombras na parede, a ida ao banheiro no escuro, a comida fria, o cheiro de fumaça e da parafina queimando, o medo do quarto ao lado que agora parecia um universo desconhecido e a gente ali, juntos, contemplando o silêncio e a escuridão e adquirindo um outro tipo de percepção do tempo, sem saber quando a luz seria restabelecida (poderiam ser minutos ou horas), racionando os tocos de velas dispostas nos pires de café e os adultos regulando as caixas de fósforos que as crianças insistiam em querer riscar para ver a pequena explosão de pólvora brilhar diante dos olhos, fiat fux, que era então só um nome escrito na caixinha.

A incerteza criava esse estado de suspensão, já que a luz nunca voltava em horário programado. Era sempre a surpresa de notar o repentino acender de um cômodo ou dois da casa, onde os interruptores haviam permanecido ligados, como se o brilho de algo novo surgisse, como se o mundo de novo acendesse e a gente fazia ‘oohhh’, sorrindo aliviados, com alguém avisando que ‘a luz voltou!’ mas de um modo, algum modo, meio tristes com a interrupção daquele pequeno silêncio mágico. Porque se a luz abria cores para que pudéssemos enxergar com clareza, sua ausência revelava as paisagens que ficam sempre escondidas atrás daquele brilho todo que ofusca o silêncio.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.