Devagar
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Devagar

Luiz Henrique Matos

05 de abril de 2019 | 19h16

“Calma, você está na Bahia, não na Berrini.”

Me peguei falando isso para mim hoje enquanto meus pés, um após outro, afundavam na areia fofa de uma praia e eu o fazia no ritmo de quem sai de um vagão de metrô rumo à rua.

O processo de contemplação e desfrute quando se está na natureza não é automático. Não basta o paraíso logo ali, é necessário que ele esteja aqui dentro também.

E isso é um passo mais complicado, porque eu não só pisava a areia como se fosse concreto, eu era também tomado pelo turbilhão de eventos, demandas e pendências que a rotina paulistana me impõe.

Comentei algo com a Manu na momento: de que a impressão é que hoje, quando viajamos e chegamos a um destino diferente, aquele deslumbramento inicial que sentíamos ao contemplar uma paisagem nova e pessoas novas é prejudicado pelo fato de que ao continuarmos conectados em nossos dispositivos e rotinas ao longo da viagem, acabamos trazendo muito daquilo na bagagem. No fim, o corpo chega ao destino mas o espírito ainda não aterrissou.

Estou lendo um livro chamado Digital Minimalism, mas já já eu falo dele, porque eu li um outro livro recentemente chamado Devagar e do qual eu preciso falar antes. E li um salmo ainda hoje a respeito do qual gostaria de escrever uma linha ou cinco depois.

Carl Honoré publicou Devagar lá no começo dos anos 2000. Demorei uns sete anos para ler esse livro, não porque o título fosse uma regra, mas por circunstâncias que pouco importam neste momento. Fato é que meio movido por curiosidade e meio por uma busca pessoal, seu livro me caiu na consciência como aquele tipo de verdade na qual você sempre acreditou lá no fundo, mas nunca tinha ouvido alguém dizer para poder concordar.

Honoré nos prova e provoca: precisamos desacelerar o passo, a vida é melhor — e mais saudável e mais bela — quando nos permitimos degustar em vez de engolir.

Cal Newport, um quase xará do Honoré, é autor do outro livro (agora sim) Digital Minimalism, um termo que me fisgou de imediato porque resume um bom tanto da minha obsessão recente em tentar expurgar da vida doméstica o excesso de tecnologia, de dispositivos e serviços digitais que nos estimulam à exaustão. Eu achava que era TOC, mas então entendi que não apenas eu e uma meia-dúzia de amigos, mas um bocado de gente no mundo vem expressando uma preocupação crescente com o espaço que isso tudo está tomando em nossas vidas.

Eu vinha tentando praticar um certo grau de minimalismo e a assimilação disso seria natural. Mas, fato é que a opção por ter menos é, no fundo, um tremendo luxo num mundo em que tantos tem tão pouco justamente por falta de opção. Então, o esforço mais recente aqui em casa é para sermos mais generosos. Ter menos, dividir mais e ser alguém melhor vale mais do que um capricho primeiro-mundista.

Foi no The New York Times, eu acho, que li um artigo na semana passada dizendo que um dos grandes luxos modernos, veja só, é a interação humana. Isso aí, rsrs (ou kkk, se você preferir), porque em uma sociedade em que estamos escravizados por máquinas e redes sociais, só os mais abastados podem se dar ao luxo de abrir mão das conexões digitais em favor de interações “reais”. De fato, hoje é moda e entre os super ricos e a “gente sofisticada” ostentar que não possuem um celular. Vlw flw, diriam.

“O que a gente tá fazendo, poxa?”, foi um outro pensamento que a Bahia me despertou mais tarde. Cheguei ao ponto de trocar romances por livros sobre esses temas? De achar inovador um novo movimento que deveria, afinal, ser a nossa natureza? E deixamos de lado tudo o que alimenta a nossa alma de poesia, de afeto, de lembranças profundas e trocamos tudo isso — nossa humanidade — por estímulos pontuais, por efemeridades e conexões rasas.

A Manu, que agora dorme aqui ao lado, estava lendo ainda há pouco um livro do Rubem Alves (tô pagando de culto hoje). E ela tem essa mania de quando gosta de um livro, ficar me interrompendo para ler uns trechos que aprecia. Ontem, ela me leu isso aqui:

“Vi, numa manhã de sábado, num parquinho, uma cena triste: um pai levava o filho para brincar. Com a mão esquerda empurrava o balanço. Com a mão direita segurava o jornal que estava lendo… Em poucos anos, sua mão esquerda estará vazia. Em compensação, ele terá duas mãos para segurar o jornal.”

A vida é um grão de areia. O que finalmente me remeteu ao salmo que li ainda há pouco, antes de pegar esse bloco de notas nas mãos.

Moisés, que em seu tempo não era xará de ninguém (e olha que até onde consta ele nem tinha sobrenome) é o autor a quem se atribui o salmo 90 do antigo testamento em que reflete sobre a relatividade do tempo (“mil anos para ti são como o dia de ontem que passou, como as horas da noite”) e a brevidade da vida (“a vida passa depressa, e nós voamos!”, chega a escrever o sujeito que viveu mais de cem).

Mas tem um momento, lá no verso 12, em que o autor faz uma pausa em sua explanação existencial e emenda um pedido ao seu Deus:

“Ensina-nos a contar os nossos dias para que o nosso coração alcance sabedoria.”

Estou na Bahia. Meus olhos miram a linha do horizonte além mar, o sol toca minha pele, meus dedos estão entrelaçados aos da mulher que amo, respiro fundo a brisa suave e meus pés pisam incontáveis grãos de areia. Em um passo de cada vez, devagar, a vida passa.