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Deus me Louvre, mas quem me dera!

Luiz Henrique Matos

19 de julho de 2022 | 18h34

Há uma ala no Museu do Louvre, umas três ou quatro salas cujas paredes estão repletas de molduras vazias, sem as obras que lhes preencham. Apenas as molduras douradas, envelhecidas, amadeiradas e vazias. Isso fica no segundo andar, estranhamente vazio em se tratando de um espaço que recebe dez milhões de visitantes por ano, com seus corredores enormes e entroncados onde é bem fácil se perder (especialmente nesses tempos em que eu uso o Waze até para achar o banheiro da minha casa). Mas já voltamos a esse tema. Antes, preciso falar da Monalisa.

Quer dizer, antes de falar da Monalisa, preciso falar de outra coisa: adoro visitar museus. Coisa que faço com frequência muito menor do que gostaria. Me emociono observando pinturas, esculturas, gravuras e fotografias. Não sou erudito, mas gosto de pensar nas histórias por trás das obras, sou profundamente tocado pelo que despertam, leio as notas descritivas e tento aprender sobre arte na medida que minha limitada mente de quarenta anos permite. E gosto ainda, na medida em que minha mente de quinze anos me obriga, de pensar em legendas e balõezinhos com falas quando há pessoas nos quadros e retratos. Mas, ao contrário do segundo andar do Louvre, a esse tema eu espero não voltar. Vamos à Monalisa.

No andar de baixo, vive Monalisa. Ali, com uma expressão impávida (ou como quer que você ache que Monalisa está naquela cena. Aliás, o grande mistério é esse, não? Gosto de pensar que ela está impávida, até porque não sei ao certo o que isso significa). Ela mora ali, a Monalisa, na sala mais tumultuada do antigo palácio de Napoleão, protegida atrás de um vidro e sufocada naquela moldura rebuscada. Ela é menor do que imaginamos que seria e na medida em que Leonardo da Vinci, centenas de anos atrás, a concebeu pensando sabe lá o quê sobre o que seria daquele quadro no futuro, enquanto pintava aquela mulher à sua frente com sua expressão ___________ (preencha você com o adjetivo que lhe apetecer, eu ia escrever impávida mas acabei de consultar o dicionário e não é bem isso o que acho que ela está pensando).

Se o andar de cima é um semi-deserto silencioso, a salinha de Monalisa é tomada por uma multidão que se aglomera numa fila de quarenta minutos enquanto empunha suas câmeras apontadas para tentar retratar o retrato da mulher que encara profundamente a cada um nos olhos e lentes com sua expressão… enigmática (será? Estou tentando). La Joconde é o nome do quadro em francês e, hoje em dia, há quem avalie o quadro em 13 bilhões de reais. Saber disso em 1503 talvez mudasse um pouco o capricho que Leonardo dispensou ao quadro e, sabe lá, na mulher, talvez mudasse um pouco aquela sua expressão… indiferente.

Nina e eu paramos na entrada daquela sala quase dez anos depois de ter passado por ali pela primeira vez e decidimos não entrar na fila. Ela tinha seis anos na época e mal entendia o lugar em que estava. Agora, aos quinze, enquanto Manu e Cecília passeavam por outra área do museu, ela me orientava sobre o estilo das obras que vem estudando com tanto interesse, me ensinava detalhes sobre técnicas de pintura e movimentos artísticos, chamava minha atenção para artistas de que gostava e tornava aquela a visita mais interessante que eu já fiz a um museu. Nina valia o preço do ingresso.

Circulamos a multidão pelos lados e encaramos a anfitriã de diferentes ângulos, distante, entre braços, cabeças e iPhones acesos. Me sentia mais num festival de rock tentando enxergar um pedaço do palco do que numa exibição de obras centenárias, enquanto algum funcionário gritava para a multidão “Avancez! Avancez!”. Em certo momento, erguemos também nossas câmeras e tiramos nossas fotos ruins da Monalisa, ali solene e com sua expressão… irônica.

Em meio ao tumulto da sala, sendo acotovelado por turistas brasileiros, chineses, lituanos, italianos e libaneses se confundindo naquela Babel, eu só conseguia pensar que a Beyoncé e o Jay-Z fecharam o Louvre inteiro – o negócio todinho – só para eles e queria saber se chegaram a encarar a Monalisa nos olhos e o que acharam que ela estava pensando, afinal.

“I am a single lady!”, ela teria dito, serena, na minha legenda imaginária.

Fiquei curioso também sobre os outros quadros naquele espaço. A sala tem ainda umas vinte obras, belíssimas, mas sempre coadjuvantes na cena, relegadas a uma atenção periférica dos visitantes que desviam o olhar de seu alvo por alguns segundos. E a mesma imaturidade que ignorava a solenidade do momento para pensar no casal que alugou o museu por uma noite, começou a colocar legendas enciumadas e maledicentes nos lábios dos Veronesi, dos Tintoretto e outros artistas ali expostos, cujos soldados se degladiando, discípulos de Jesus e madonas agraciadas certamente reclamavam entre si: “olha lá a vizinha! A gente aqui salvando o Império Romano, a gente aqui testemunhando o primeiro milagre do Cristo, a gente aqui botando o Messias no mundo e essa aí levando a fama, recebendo os olhares. Sempre aí parada, com essa expressão… jocosa”.

O que faz um quadro atrair os olhares, atenção, selfies e audiência e outros, notoriamente bons, clássicos e valiosos (estão no Louvre, oras) serem ignorados? O que leva um quadro, de forma geral, a ser adquirido e exposto em um museu, digno de ingressos pagos e olhares contemplativos? Aquelas milhares de obras (o acervo do Louvre, consta no folder que eu carregava dobrado no bolso da bermuda, tem mais de 400 mil obras), aprisionadas naquelas paredes em centenas de salas de um palácio tão grande que meu relógio apitou dando os parabéns pelos dez mil passos alcançados no dia ainda no meio da visita.

Enquanto isso, no andar de cima (sim, chegamos), havia salas vazias com quadros de outros cantos da Europa e havia as salas vazias com suas molduras sem obras. Meu francês precário me permitiu entender que as molduras ali penduradas simbolizavam os quadros do acervo do museu que estão emprestados para outras instituições e exposições, mas eu preferi ficar com a fantasia que me alimenta até esse instante, de que ali estão os espaços abertos para as obras ainda em concepção no imaginário dos artistas, as pinturas, ideias e retratos que um dia terão valor tão alto que acabarão pagando, elas mesmas, o preço máximo de sua glória: deixarão de viver livres nos ateliês, nas ruas, longe do olhar do povo e serão aprisionadas em palácios, penduradas em altares enquanto ostentam sua nobre posição de obra de arte e são oferecidas para escrutínio do público que se enfileira para contemplá-las com suas expressões… curiosas.

Enquanto passeávamos por aqueles corredores brinquei com a Nina dizendo que as molduras vazias esperavam para serem preenchidas com as pinturas que algum dia ela criaria. Ela sorriu com meu gracejo me encarando no momento exato em que, de onde estava, era seu rosto que acabava emoldurado no espaço de uma das telas.

Graciosa, era a expressão. E devoto em gratidão, contemplei a obra da minha vida.

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