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Descolamento da rotina

Luiz Henrique Matos

19 de maio de 2021 | 08h11

Enquanto voltávamos para São Paulo um dia após o réveillon, tive a ideia de escrever um conto sobre um homem que viajava no banco de passageiro de um carro em direção à sua casa, com a esposa ao volante, as crianças atrás e ele tentava, a todo custo, guardar cada fragmento de lembrança dos rostos delas porque sabia que ficaria cego no dia seguinte. O conto se chamaria “Um dia antes da escuridão” e narraria a véspera do convívio com a tragédia inevitável. Eu pensava nos pormenores da história e no seu possível final quando a Manu interrompeu meu devaneio com alguma pergunta sobre o trânsito. Ela dirigia, o olhar atento à estrada vazia à nossa frente, as meninas distraídas com a paisagem no banco de trás, o sol da manhã invadindo a janela e revestindo suas peles com os primeiros raios de luz e eu, já cego de um olho, lutava para guardar na memória aqueles instantes e a forma de seus rostos, apavorado com a possibilidade de perder completamente a visão nas horas seguintes.

As nuvens no céu à frente escureciam o horizonte em contraste com a manhã ensolarada até então. Teríamos de encarar uma chuva forte na estrada. O cinza nas nuvens precipitava a escuridão. Escuridão. Só pensávamos nisso, o personagem do conto e eu. A partir do dia seguinte, minha vida poderia ser toda de sombras e a incerteza do que seria o diagnóstico médico para o que eu estava passando martelava uma contagem regressiva em minha cabeça.

Um dia antes da escuridão, a vida era só medo e sombras.

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Como criar um álbum de retratos na mente? Na iminência de uma despedida, da perda de algo precioso ou do fim programado, a mente tenta se encarregar de construir suas imagens. Eu me fixava nos detalhes, nos sinais que precisava registrar, como pequenos filmes que deveriam habitar na memória dali para sempre. O mundo todo, para mim, poderia estar restrito ao repertório de imagens que vi até aquele momento, eu pensava. Acontecesse o que temia, eu não veria minhas meninas envelhecerem, não conheceria os rostos de meus netos, não fixaria o olhar em minhas rugas no espelho, testemunharia o futuro a partir de outra perspectiva. Os sentidos todos seriam os outros, mas não a visão. O toque, a escuta, o olfato (que já é bem ruim), o paladar, mas não o olhar. O calor do sol, o frescor da brisa, o aroma das ervas, o toque da pele… a vida toda seria diferente diante daquela possibilidade cada vez mais real e naquela hora eu só tentava absorver e reter as cenas que poderiam se tornar minhas últimas lembranças visuais antes de tudo apagar finalmente.

*

Não fiquei cego. Entre consultas e exames e consultas e exames e exames e consultas naquele domingo e nas 24 horas seguintes, seguidas de um diagnóstico de “descolamento da retina” e uma longa espera para internação no hospital, terminei a noite de segunda-feira em uma cirurgia que levaria algumas horas e, segundo prognóstico médico, pouco mais de três meses de recuperação, se tivesse sucesso.

Se. Duas letras que me acompanharam diariamente nas semanas que sucederam.

*

Como aprender a meditar? Procurei no Google. Em casa, deitado de bruços como parte dos cuidados do pós-operatório, eu lutava para administrar o tédio. Precisava caminhar mirando o chão para não atrapalhar a cicatrização. Queixo encostado no peito. Quatro colírios de hora em hora. Escutei podcasts, audiobooks, programas de tv e fazia minhas orações, exercícios de respiração e mindfulness para tentar meditar e de algum jeito dispersar o caos que se instalava em minha mente.

Tem um filme meio velho chamado Inception (se você ainda não viu… não precisa) em que um ladrão atua no inconsciente de suas vítimas roubando ideias de dentro dos seus sonhos. A trama leva a cenas em que os personagens entram em sonhos dentro de sonhos e depois outros sonhos ao ponto que você precisa ficar voltando o filme ou interromper a esposa para tentar entender onde está na história. Quando voltei para casa depois da cirurgia, foi mais ou menos assim também. Passei a viver uma quarentena dentro da quarentena. Uma parada forçada, só que já estava tudo parado. Meus planos de curto prazo e a pequena rotina que vinha seguindo nos últimos meses – com trabalho, corrida, escrita e leitura – parou de forma abrupta. O ano começou com uma pausa dentro da pausa em que a vida já estava, hiato do hiato, colchetes dentro dos parênteses. É, você entendeu.

Um descolamento na rotina.

*

Nunca fui esse tipo de gente que consegue extrair aprendizados quando enfrenta adversidades. Eu só sofro e pronto. Pronto, não, eu fico sofrendo. Ainda assim, diria que sou um otimista contrariado, um devoto cético, um esperançoso ressabiado. Desejo sinceramente que tudo vá bem, mas sempre tem esse mas emendando algo depois da vírgula. E preciso me policiar pra não ficar em conserva naquelas lamúrias. Desta vez, não foi diferente.

No entanto, fui beneficiado com o fato de que me restou muito pouco a fazer no processo pós-operatório senão gastar as horas pensando, fazendo minhas preces e à medida que as luzes e certa nitidez voltavam em meu olho, me peguei mais atento à ideia de capturar os instantes de cada dia como se fossem memórias eternas a serem fixadas para sempre. Anoto esses fragmentos em meu caderno, menos como um diário e mais como um amontoado de sensações que aparecem com um sentido quase inédito e que talvez sirvam para me ensinar algo no futuro. Agora, cada novo dia ainda me parece como aquela manhã de janeiro no carro e os raios de luz e camadas de cores no céu, no papel ou numa tela adquiriram um aspecto mágico. Não mais como a véspera da escuridão, mas como o alvorecer.

Há novos jeitos de enxergar as coisas. As distorções, a falta de profundidade, a perda da visão periférica. Aos poucos, fui forçado a calcular meus movimentos e passos e notar tudo ao meu redor com outro olhar. Eu não tinha certeza de que aquilo seria temporário e a ideia de que havia grandes chances daquela limitação se tornar permanente, acabou ampliando minha capacidade de perceber o entorno (além de despertar certo grau de empatia com quem lida com isso cotidianamente).

Memórias. A possibilidade da perda repentina de algo, a iminência do desconhecido, os ciclos de acasos a que estamos sujeitos todos os dias… nós invariavelmente tropeçamos nas circunstâncias e fatalidades que nos afetam. E isso pode acontecer a qualquer momento.

*

Recuperei a visão. Tive alta há alguns dias. Mas, ficaram sequelas. Elas lembram a todo instante de que estou sujeito ao inesperado, que tragédias não enviam recados com antecedência para que estejamos prontos. Poderia ter sido outra coisa, poderia ter sido algo fatal. As cicatrizes me servem de alerta sobre a fragilidade da nossa carne e da possibilidade sempre iminente de que algo aconteça. A vida é fugaz, esse sopro e tenho me pego refletindo sobre prioridades. Encaro, em escrutínio, o rosto de minha esposa, me pego capturado pelos olhares e expressões de minhas filhas, deito o olhar sobre uma árvore na rua. E tenho sentido certo contentamento com a existência e grato por coisas que me pareciam obviedades.

Um dia depois da escuridão, a esperança renova seu brilho.

Ilhado no sonho dentro do sonho, não pude jamais esquecer que há uma tragédia em curso no mundo. A sombra da dúvida paira sobre cada um de nós, a escuridão é real no amanhã de muitos de nossos irmãos e irmãs. O absurdo em que estamos imersos tenta nos dragar para um estado de alienação e cegueira, mas a contagem cotidiana nos números de casos e mortos pela pandemia, só amplifica o grito lá dentro clamando para que pessoas não virem dados, para que não nos esqueçamos, para que as histórias dos que partiram sejam um memorial de sua existência e que a permanência dos que sobrevivem seja digna, no mínimo digna, pelo menos nobre, de alguma forma merecedora, rendida, exultante, prostrada em reverência e rendida em gratidão pela dádiva que é viver.

Que nossos olhos se abram.

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